A escola que “faz tudo”: o texto que provocou frisson na blogosfera materna

Muitas mães trabalham fora de casa e deixam seus filhos na escolinha em período integral. O post de hoje é sobre uma recente polêmica envolvendo uma escolinha de alto padrão que oferece outros serviços para facilitar a vida dos pais. Será que a polêmica é justificável? Vou dar minha opinião sobre o assunto ao longo desse post. Cortesia de Shutterstock

Eu pensei várias vezes se deveria escrever um texto comentando essa recente reportagem. Deixei o frisson passar e refleti. Então concluí que eu deveria dar a minha contribuição. Sou uma mãe que trabalha fora de casa e embora meu blog não seja dedicado ao assunto maternidade, eu trato esse assunto com alguma frequência aqui, sempre tentando partir da luz da ciência e/ou do bom senso.

Além disso, muitas das mom bloggers que conheço ou acompanho não trabalham fora de casa. Sendo assim, acredito que minha opinião sobre esse assunto vai partir de um outro ponto de vista.

Sem delongas, qual é o assunto da reportagem (caso você não tenha clicado no link ou não tenha acompanhado as discussões)? Trata-se de uma escola particular de educação infantil, localizada em um bairro nobre de São Paulo. Vocês podem imaginar que é uma escola com mensalidade cara, de alto padrão. A controvérsia nem é o preço, mas sim os serviços que a escola oferece: intermediação de serviço de babá, a escola leva a criança para cortar o cabelo, serviço de lavanderia de uniforme escolar e venda de comida congelada (a mesma comida servida na escola). Segundo a direção da escola, esses serviços são par “facilitar a vida dos pais” para que eles disponham de mais “tempo de qualidade com os filhos”.

A reportagem entrevistou uma mãe que tem seu filho nessa escola desde os 4 meses. E a mãe diz que nunca precisou cozinhar nenhuma papinha, já que a criança ficava em tempo integral na escola e para o período da noite, a mãe simplesmente comprava a papinha congelada.

Bom, serviços de papinha congelada não são novidade. Já vi vários, já vi várias pequenas empresas nesse ramo mostrando seus serviços no Instagram. Muitas mães jovens com idade entre 20 e 40 anos não sabem cozinhar, não tem tempo e não tem interesse em aprender. E com relação aos pais, a mesma coisa. Cozinhar para a família envolve toda uma memória afetiva. Aposto que muitos dos meus leitores lembram-se da mãe, da avó, da madrinha ou da tia cozinhando pratos maravilhosos, com o cheirinho convidativo invandindo a casa. No entanto, o que podemos fazer se muitas não querem aprender a cozinhar? Vocês podem argumentar (e eu concordo) que ser mãe envolve sair da zona de conforto e aprender coisas novas. Mas o que fazer quando a mãe precisa trabalhar fora de casa e simplesmente não tem tempo de aprender? Por isso é extremamente pernicioso julgar essa mãe da reportagem, já que não conhecemos a sua realidade. De uma coisa eu tenho certeza: o fato de ela não cozinhar para o seu filho não faz dela uma mãe ruim. Ela seria uma mãe ruim se negligenciasse deliberadamente a alimentação do filho.

Eu li muitos comentários sobre a reportagem. A maioria demonizava a mãe entrevistada, julgando suas ações sem conhecê-la. Outros comentários eram muito pertinentes, pois questionavam de um modo geral o excesso de tercerização na educação dos filhos. Porém essa discussão é complicada, pois, o que é tercerização? Deixar a criança com os avós é tercerização? Ter que trabalhar fora e consequentemente ficar fora de casa 10h por dia, deixando a criança com parentes, babá ou na escolinha é tercerização? A régua para medir isso é complicada, e lendo mais comentários fui vendo que começaram a demonizar todas as mães que trabalham fora de casa. E virou aquele velho fla x flu grosseiro e pernicioso que muitas vezes são os comentários na blogofera materna: a disputa entre mãe que trabalham fora de casa x mães que ficam e casa. E sobre esse fla x flu, tenho algumas coisas a dizer:

  • Trabalhar fora de casa não faz de você uma péssima mãe: você precisa trabalhar fora, por razões que só você sabe. Talvez você seja a principal fonte de renda da casa. Talvez você seja divorciada e seu marido pague uma pensão muito pequena. E talvez você goste de trabalhar. Não importa, você tem suas razões e viva feliz com elas. Suas razões certamente são válidas e tenho certeza que você está pensando no melhor para o seu filho.
  • Se você trabalha fora de casa, não se ache melhor ou pior do que mães que ficam em casa. Cada um segue a sua jornada, cada um sabe o que é melhor para si e para sua família.
  • Se você trabalha fora de casa e sonha em ser mãe, não deixe ninguém destruir esse sonho. Pense direitinho sobre o assunto, organize sua vida financeira e profissional e seja mãe. É verdade que você vai ter que contar com uma rede de apoio, você terá que trabalhar menos e talvez você não consiga fazer todos os cursos que gostaria, por exemplo. Mas é possível!
  • Se você é uma mãe que trabalha fora de casa, não deixe as pessoas te colocarem para baixo e não deixe que elas façam com que você se sinta culpada. Você é poderosa e está nessa vaga de trabalho por esforço e merecimento seu. Aposto que essas pessoas que palpitam ou que sugerem que você é uma péssima mãe nunca pagaram um pacote de fraldas para você ou nunca se ofereceram para ajudar de outra maneira. Para criticar, sempre aparece um ser seboso. Ignore.
  • Para as mães que apenas trabalham em casa: sabe a vendedora que te atendeu, a professora do seu filho, a pediatra do seu filho, a sua ginecologista, etc? Então, é provável que dentre todas as profissionais que te atendem em um determinado dia, pelo menos uma delas seja uma mãe que trabalha fora. A sociedade precisa do nosso trabalho. Seja gentil. Seja grata.
  • A educação de uma criança não é de responsabilidade exclusiva da mãe. A comunidade, através das escolas e dos bons exemplos da vida com os vizinhos por exemplo, também tem uma parcela de responsabilidade. O pai da criança tem uma ENORME parcela, deveria dividir isso com a mãe. E a família como um todo, claro: avós, amigos íntimos, tios, primos, etc. Portanto, parem de colocar esse ENORME peso nas costas das mães, porque eu tenho certeza que a maioria das mães são conscientes e já sabem da incomparável importância de seu papel na vida desse pequeno ser em formação. Ninguém precisa ficar reforçando isso (e reforçando da maneira ERRADA) e culpando as mães por tudo.
  • Se você é mãe que trabalha fora, saiba que não tem nenhum problema em colocar seu filho em uma creche, berçário ou escolinha. Não tem nenhum problema em deixar com uma babá ou com parentes. Tenho certeza que você está se cercando de cuidados e observando tudo.  Eu posso aqui dar o meu relato com relação a colocar em escolinha: esse post e esse post podem ajudar você, se esse for o seu caso também.

Ainda voltando à questão da reportagem, alguns comentaristas parecem não ter compreendido que a escola oferece esses serviços diferenciais mas não obriga ninguém a contratá-los. Os pais contratam se quiserem ou se precisarem. Outra coisa, como trata-se de uma escola de alto padrão, parte da discussão também ressussitou aquele velho “ranço” que existe com relação aos ricos no Brasil. Como se todo rico fosse um explorador-opressor-malvado e como se todo pobre fosse um anjo de candura. Eu simplesmente rejeito esse tipo de generalização.

Outro ponto importante a considerar é que as pessoas que comentam não conhecem a escola e não conhecem os personagens da reportagem e de repente fazem enormes extrapolações. O povo da internet ama uma interpolação e ama uma extrapolação. Abaixo, vou dar dois exemplos fictícios de interpolação e extrapolação internética.

Interpolação

Dia 21 de fevereiro eu posto uma foto do meu filho tomando sorvete. Então, dia 10 de março posto outra forto do meu filho tomando outro sorvete. A conclusão do gênio é:

NOSSA, seu filho só toma sorvete. Cuidado, faz mal, gordura trans, etc

Extrapolação

Um casal faz uma viagem romântica num determinado fim de semana e posta algumas fotos nas redes sociais. Então perguntam sobre o filho deles. Quando um deles responde que a criança está com a avó, o comentário é:

NOSSA, vocês viajam e deixam a criança com os outros. O que essa criança vai pensar no futuro.

Interpolação e extrapolação internética são situações comuns. O ser humano não gosta de lacunas, por isso as preenche com imaginação, recalque e maldade. Essas técnicas ganharam força com a internet, mas já eram comuns antes. Meu pai sempre menciona o caso daquela pessoa que vê você andando de carro ou comprando algo novo. E a pessoa deduz que você é ‘bem de vida’, mas não sabe nada de sua história para chegar até lá. E mesmo que você fosse ‘bem de vida’, isso é uma particularidade sua e o outro deveria cuidar da própria vida de maneira íntegra, digna e honesta.

Conclusão

A maioria dos comentários que li a respeito da reportagem foram extremamente infelizes. O julgamento para com a mãe, o velho fla x flu improdutivo entre mães que trabalham fora x mães que trabalham apenas em casa, a “raiva” das pessoas que tem mais dinheiro, etc.

Gostei de quem levantou a questão da tercerização, acredito que os pais precisam tomar um certo cuidado para não deixar que os filhos sejam apenas cuidados por outras pessoas. No entanto, as vezes não é possível e temos que fazer boas escolhas, sempre observando se os filhos estão sendo bem cuidados. Fora que o que é tercerização para uns não é para outros e vice-versa. As pessoas precisam fazer uma auto-análise, não cabe ao outro apontar.

Fiquei entristecida em não ler discussões sobre como o mercado de trabalho trata as mães. Muitas mulheres não conseguem emprego porque tem filhos. E as que já são empregadas por vezes não contam com a boa vontade e compreensão do chefe e dos colegas de trabalho.

Também vi pouca gente indignada e se manifestando no sentido de dizer que toda criança merece estudar em uma creche boa para que a mãe possa trabalhar. Muitas mães precisam parar de trabalhar porque não conseguem vaga em creche pública ou porque não tem condições para pagar uma creche particular. Ou seja, num mundo ideal todas as crianças deveriam ter o direito de estudar em uma escolinha de qualidade, com bom plano pedagógico, com boa alimentação e com atividades que as estimulem e as alegrem.

Claro que devemos ter em mente que o papel da escola é pedagógico. Ou seja, não é a escola que deve ensinar higiene ou boas maneiras, embora possa reforçar esses comportamentos positivos através de atividades lúdicas. Por isso é legal quando os pais e a escola estão em harmonia. Veja a agenda escolar de seu filho, saiba sobre as atividades que ele tem realizado, converse com o professor. É interessante quando pais e escola compartilham os mesmos valores.

Na minha opinião, o ensino e a afetividade caminham lado a lado. A criança precisa gostar da professora e dos demais funcionários da escola, para que o aprendizado seja pleno. Eu acredito muito no poder da afetividade nas práticas pedagógicas. Na escola, principalmente até o Ensino Fudamental, eu normalmente aprendia mais uma determinada matéria se eu gostasse do professor.

Eu me sinto privilegiada por poder ter meu filho em uma escolinha onde ele é bem cuidado, tratado com amor e respeito e estimulado pedagogicamente. Meu filho adora a escola, fica feliz quando vê as professoras e fica todo entusiasmado com as atividades e com os amiguinhos. Eu procuro participar da vida escolar dele, conversando com as professoras e atenta a tudo. Hoje posso dizer que sou uma mãe que trabalha tranquila, sabendo que meu filho está sendo bem cuidado e está sendo estimulado. Claro que a insegurança me bate as vezes, como bate em todo mundo em todas as áreas da vida. A questão é que com o passar do tempo e com a informação, a insegurança logo torna-se um “bichinho domesticado”, na medida que você vai adquirindo auto-confiança e confiança no trabalho dos outros (no caso, no trabalho da escola).

Veja, esse post aqui também não pretende dizer que “mães que trabalham fora são as melhores” ou “mães que trabalham fora são as que estão certas”. Como eu tentei ir conduzindo ao longo do texto, acredito que cada uma sabe de suas necessidades e das necessidades de sua família. Espero que todas nós trabalhemos no sentido de compreender nossa jornada nessa vida, para que possamos ser felizes na nossa própria pele.  Ou seja, um processo contínuo de auto-aceitação é muito importante.