A Terra é plana mesmo?



Digam, uma teoria como a da Terra Plana faz sentido em 2017? A figura abaixo é semelhante, porém mostra outras hipóteses com relação as órbitas do Sol e da Lua. Cortesia de Shutterstock
Em geral, a teoria da Terra Plana é também uma teoria geocêntrica. A não ser que você imagine a Terra como um prato que gira em torno do Sol. Gente, isso não faz sentido nenhum! Cortesia de Shutterstock

Surgiu um burburinho pela internet a respeito da “ressurreição” da “teoria” da Terra Plana. Essa teoria vai e volta. Mesmo antes da existência de redes sociais como as que temos hoje, já existiam sites (a grande maioria, estrangeiros) que divulgavam essa teoria, alguns com nome muito pomposos, como a Flat Earth Society.

Tenho a impressão que esse boato ressurgiu principalmente na Internet brasileira depois que um ex-professor da área de Ciências da Terra de uma importante Universidade começou a gravar vídeos falando sobre isso. Não vou linká-lo. E se você sabe de quem estou falando, meu conselho é que também não divulgue o trabalho dele. Por dois principais motivos:

  1. Na Internet, o que vale são cliques, views, likes, etc. Já perceberam que eu tenho mudado minha estratégia e estou tentando escrever títulos mais chamativos para minhas postagens? Porque eu quero que as pessoas cliquem. Isso me dá retorno em dinheiro de publicidade, torna meu blog conhecido. Só que eu tenho um compromisso em pelo menos tentar escrever bons textos e que evidentemente tenham um conteúdo científico e bem pensado, sempre colocando referências bibliográficas quando possível. Se você compartilha um texto/vídeo/etc de algo absurdo em qualquer grau, que você discorda, apenas para mostrar para alguém ou debater a respeito, você está dando views para esse criador de conteúdo de gosto duvidoso. Como diz o ditado popular: não toque tambor para maluco dançar.
  2. Estamos em 2017. Realmente é necessário REFUTAR a Teoria da Terra Plana? Usando outro ditado popular (de péssimo gosto, a propósito): é chutar cachorro morto! De qualquer maneira, vou escrever a seguir algumas coisas que podem ajudar quem tem dúvida. Porque eu sei que muitos professores acessam o meu blog e certamente vão se deparar com aluninhos que assistiram vídeos sobre a Teoria da Terra Plana.
Incrível pensar que depois de todas as conquistas durante a Corrida Espacial e que continuam até hoje com a exploração de nosso Sistema Solar (e de outros sistemas solares, usando métodos avançados de observação e análise numérica), ainda haja quem acredite que a Terra é mesmo plana. A imagem acima é o Blue Marble, imagem obtida pela tripulação da Apolo 17 em 7 de dezembro de 1972. Fonte: Wikimedia Commons

 

Como mostrar que a Terra não é plana?

Quando eu era bem pequena, eu deitava no chão para ver as nuvens. Minha impressão era de que a Terra era plana. Olhando para o horizonte, eu imaginava que nós vivêssemos em um prato com uma ‘tampa protetora’, como se fosse um domo. Na minha visão infantil, a Terra era o “chão” e os planetas, estrelas, nuvens e a Lua estavam lá no alto. Não lembro exatamente quando eu compreendi que a Terra estava “suspensa no nada”, mas eu lembro do sentimento de assombro.

Eu imaginava uma coisa meio Under the Dome. Cortesia de Shutterstock.

Quero dizer que o conceito de Terra Plana é algo que surge naturalmente, principalmente quando você não sai muito do lugar, viaja entre vilas próximas, no máximo. No passado, a vida das pessoas ocorria em um espaço limitado e o céu (e aqui me refiro ao posicionamento das estrelas no céu noturno) que elas viam não mudava muito indo de um lugar para o outro, digamos numa viagem curta de 3 dias. Hoje pegamos um avião, mudamos de hemisfério em 10 horas e temos um céu noturno diferente.

Não pretendo fazer nenhuma revisão histórica sobre o tema, mas acho que vale a pena a gente voltar no passado. Por volta de 220 a.C, Erastótenes de Cirene descobriu um jeito muito fácil de encontrar a circunferencia da Terra. Na verdade, Erastótenes não “descobriu” que a Terra é ‘redonda’. Muitos já suspeitavam isso, ao observarem coisas muito simples, tais como: navios que vão gradualmente “sumindo” no horizonte e sombras na Lua durante um eclipse. Muitos pensadores já deduziam que a Terra era redonda (ok, hoje sabemos que não é exatamente redonda, ela tem um achatamento nos polos e irregularidades, por isso utliza-se o termo geoide), mas ninguém tinha bolado um jeito de medir sua circunferência. Até que Erastótenes teve uma ideia bem simples, mas que envolveram vários cálculos. Ele chegou ao valor de 40000km de circunferência. A medição feita com métodos modernos, cerca de 2000 anos depois de Erastótenes, chegou ao valor e 40070km. Ou seja, o cara foi muito bem usando os recursos da época!

Para medir o tamanho da Terra, Eratóstenes raciocinou assim: as cidades de Syene e Alexandria situavam-se quase sobre o mesmo meridiano – linha equivalente a circunferência da Terra. Syene ficava praticamente sobre o Trópico de Câncer; portanto, no dia de solstício de verão, ao meio-dia, os raios solares incidiam perpendicularmente – ou seja – a 900 – sobre a cidade. No mesmo dia, à mesma hora, ficavam a 810sobre Alexandria (ilustração n°1 indicada a seguir), afastada 5000 estádios (1000 Km) de Syene (ilustração n°2 indicada a seguir). Vendo que a um segmento de circunferência medindo 5000 estádios correspondia uma diferença de 90 na incidência dos raios solares, Eratóstenes precisou apenas fazer uma regra de três simples para achar o correspondente aos 3600 da circunferência terrestre. Obteve como resultado 200000 estádios, que são 40000 Km. {Fonte}

Erastótenes fazendo a medição em Syene. Fonte: Só Matemática
Erastótenes fazendo a mesma medição em Alexandria. Fonte: Só Matemática

Cyrene era uma colônia grega no norte da África. Erastótenes nasceu nessa cidade por volta de 276 a.C. Era uma pessoa brilhante, estudou com os melhores professores de seu tempo.  O faraó Ptolomeu III do Egito lhe deu a direção da Biblioteca de Alexandria, bem como o cargo de preceptor de seu filho.

Erastótenes tinha múltiplos interesses:  filosofia, história, gramática, poesia, geografia, matemática, etc. Ele escreveu sobre todos esses assuntos. Erastótenes seguia a linha pitagórica da Matemática, que dentre outras coisas tinha um lado de “crença” que via nos números poderes quase que mágicos. Erastótenes acreditava que a Terra era uma esfera solta no espaço, girando em conjunto com outras esferas ao redor de um núcleo central de fogo. Em outras palavras, seu pensamento era uma antevisão do que Copérnico mais tarde enunciaria.

É importante lembrar que nessa época não se pensava em “método científico”. A ciência era uma atividade cotidiana, mas ficava mais restrita ao plano teórico e filosófico. As coisas existiam no campo das ideias e os gregos antigos dedicavam muito tempo à reflexão. A ciência pouquíssimo experimental, não pensava-se na ideia de fazer experimentos ou medições. Tudo travata-se de especulações e teorizações em cima das observações da natureza.

Como para os pitagóricos a explicação do mundo estava nos números, Erastótenes levou isso muito a sério. Ele escreveu um tratado sobre geografia que dividiu o mundo em paralelos e meridianos, um sistema que de certo modo deu origem ao sistema de coordenadas geográficas (latitude e longitude) que usamos até hoje.

Após esse breve comentário sobre a importância da contribuição de Erastótenes, vamos comentar alguns pontos muito elucidativos e simples, que foram muito bem resumidos pelo pessoal do Popular Science:

 

Sombras na Lua: Isso é extremamente antigo e remonta Aristóteles. Entretanto, todos que já observaram atentamente um eclipse lunar perceberam que a sombra da Terra tem contornos arredondados. Se a Terra fosse um disco, isso não visto todas as vezes em que um eclipse ocorresse, já que a sombra de um disco nem sempre é arredondada, depende da orientação desse disco com relação a fonte de luz.

Navios no Horizonte: Os navios no horizonte desaparecem e aparecem gradualmente no horizonte (dependendo se estão se afastando ou se aproximando do observador) devido a curvatura da superfície da Terra.

Olhando para outros planetas: Quando Galileu observou as luas de Júpiter, ele as descreveu como “objetos esféricos” orbitando algo maior. Parece algo simples na atualidade, mas na época revolucionou o mundo. A ideia corrente era de que todos os objetos orbitavam a Terra. Como os terraplanistas essencialmente são heliocentristas, eu acredito que esse argumento é bastante esclarecedor.

A existência de fusos horários: Apenas me pergunto como os terraplanistas lidam com essa questão dos fusos horários. A razão de sua existência é óbvia: conforme a Terra vai girando em torno de seu próprio eixo, um lado da Terra fica iluminado e o outro fica completamente escuro. Nas “transições”, temos o poente e o nascente. Dessa maneira, toda a Terra vai recebendo luz solar, completando um ciclo de aproximadamente 24h. Se a Terra fosse plana, toda superfície da Terra receberia luz solar de maneira igual, uniforme.  Não haveriam, portanto, fusos horários. E observe as duas primeiras imagens que coloquei nesse post: com nenhum dos dois “modelos” é possível explicar os fusos horários.

Imagens do Espaço: Bom, vocês viram que anteriormente no texto eu postei a imagem do Blue Marble. As primeiras imagens da Terra vista do espaço datam de 1947. E mesmo com os escassos recursos dessa época (comparando com a atualidade), já era possível notar a curvatura da Terra, mostrando seu caráter esférico.

Notem que esses argumentos que foram de maneira muito simples explicados nesse texto não serão suficientes para esclarecer a mente de quem quer viver na escuridão. No entanto, espero que com eles eu possa ajudar professores de Ensino Fundamental e Ensino Médio que vira e mexe se deparam com alunos que veem material pseudocientífico no Youtube (porque essa geração não lê blogs ou textos, eles assistem vídeos no Youtube). Eu realmente tenho esperança de conseguir ‘salvar’ os mais novos das garras da pseudociência.

A Terra pode ser considerada plana?

Em algumas situações, a gente pode “considerar” que a Terra é plana. E em quais situações? Quando estamos lidando com um conceito muito local, como a construção de uma casa ou até mesmo como a construção de um campo de futebol. A gente começa a “sentir” a curvatura da Terra apenas em distâncias superiores a cerca de 50km (ou aproximadamente meio grau de latitude/longitude). Por exemplo, em modelos matemáticos que levam em conta uma área inferior a 50km, é totalmente possível considerar a geometria euclidiana. Quando os modelos matemáticos levam em conta áreas superiores a esse valor, temos que começar a usar geometria esférica.

Observem que essa simplificação só vale para distâncias pequenas. E quando levamos em conta fenômenos meteorológicos, apenas fenômenos com tamanho considerável são afetados pela rotação da Terra e nesse post, falo sobre as escalas de tamanho dos fenômenos atmosféricos e menciono o exemplo dos furacões, um fenômeno da chamada escala sinótica. Fenômenos da escala sinótica e maiores do que essa escala são afetados pela rotação da Terra. E daí que vem aquela história de que os furacões giram no sentido anti-horário no Hemisfério Norte e no sentido horário no Hemisfério Sul, pois por serem fenômenos grandes, estão sujeitos à ação da força de Coriolis. E é por essa razão que coisas muito pequenas, como água escorrendo pelo ralo da pia, não são afetadas pela Força de Coriolis (falei desse assunto nesse post e nesse outro).

Cuidado com o apelo à autoridade

O mais “famoso” divulgador da “teoria” da Terra Plana no momento é um ex-professor de uma importante Universidade. Apesar de ele ter deixado a Universidade em questão por discordar das teorias científicas que são apresentadas nas aulas, nosso pseudoGalileu não deixa de mencionar seus títulos. Seria mais um caso semelhante ao do Dr. Snelling?

Se um especialista faz uma afirmação, devemos bater o martelo? Nem sempre. Cortesia de Shutterstock

Soube que ele inclusive já criticou o departamento onde ele lecionava e pesquisava. Ora, se critica tanto a instituição, porque exibe com orgulho os títulos que ele conquistou através dela? Para mim a resposa é simples, ele quer manter o status que os títulos e a função que ele exercia lhes conferiam.

Nós temos a tendência a dar mais crédito a uma afirmação quando ela é proferida por alguém que é especialista na área (ou que se diz ser). E isso tem relação com uma falácia lógica chamada apelo à autoridade. Por isso é importante sempre questionar toda e qualquer afirmação que ouvimos e lemos, mesmo que seja proferida por um especialista.

Em um debate, uma afirmação feita por uma autoridade pode ter crédito se levarmos em conta algumas regras básicas:

  • 1. O especialista (a autoridade) invocado tem de ser um bom especialista da matéria em causa: ou seja, não adianta o cara dizer que é professor da USP ou de qualquer outra Universidade e afirmar que o limão cura o câncer. Ele é professor de qual área? Ele fez pesquisas e publicou artigos sobre o tema? Isso precisa ser sempre verificado.
  • 2. Os especialistas da matéria em causa não podem discordar significativamente entre si quanto à afirmação em causa: isso é algo típico quando o assunto é mudanças climáticas, por exemplo. Tem um professor que é da área, andou participando de programas como o do Jô Soares e ganhou certa notoriedade. Mas o que ele diz é completamente diferendo do que diz 97% da comunidade científica.
  • 3. Só podemos aceitar a conclusão de um argumento de autoridade se não existirem outros argumentos mais fortes ou de força igual a favor da conclusão contrária: não basta dizer que “trouxemos aqui o Dr. Fulano e ele vai confirmar o que eu estou dizendo”. Na verdade, se você tiver em mãos um argumento mais forte, como vários artigos científicos na área com conclusões apontando para a mesma direção, a fala dessa autoridade torna-se algo de importância menor e seria apenas um “fechamento” ou um esclarecimento.
  • 4. Os especialistas da matéria em causa, no seu todo, não podem ter fortes interesses pessoais na afirmação de que se trata: isso para mim é uma questão de ética. Por exemplo, misturar suas convicções religiosas com a pesquisa científica eu diria que é algo que entra nessa categoria. Ou você é meteorologista, porém sua família é dona de uma empresa do ramo de petróleo, por exemplo (não é o caso do pesquisador mencionado anteriormente no item 2, acho).

Encontrei os pontos acima listados nesse verbete da Wikipedia e achei muito pertinentes. Acredito que esses pontos nos ajudam a verificar se a afirmação da autoridade é razoável e vale para aquele debate. Em outras palavras, nem sempre estamos sendo falaciosos quando mencionamos uma autoridade em um debate: devemos observar esses 4 pontos e ver se o que aquela autoridade diz é relevante para o debate.

Considerações finais

Confesso que relutei muito para escrever esse post, porque eu não quero dar ibope para quem não merece. E também porque eu não queria escrever “um post tonto”. Pelo amor de Deus, quem ainda acha que a Terra é plana em 2017? É o tipo de coisa que não dá nem para comentar.

A recorrência desse tema não aconteceu ontem. Acredito que ganhou mais força devido ao aumento de popularidade do canal do ex-professor que mencionei. E vou culpar SIM alguns amigos e conhecidos meus que INSISTEM em compartilhar os vídeos do cara. Vamos seguir e compartilhar aquilo que é bom, que nos faz bem e que traz conhecimento!  

O Pirulla postou um vídeo há 1 ano atrás sobre o tema e ele acha que os grandes propagadores dessa teoria e que criam conteúdo para divulgá-la podem na verdade estar zoando, porém alguns dos seguidores desses criadores de conteúdo podem realmente acreditar na veracidade dessa teoria. Ele mencionou a Lei de Poe:

A lei de Poe é uma observação sobre comportamento em debates na internet que estabelece que, na ausência de algo que indique a real intenção do autor, torna-se difícil ou mesmo impossível de saber se o que o autor diz é um extremismo genuíno ou uma simples paródia de extremismo.

Ou seja, é tão absurdo que não dá para saber se a pessoa realmente concorda com aquilo ou se ela está simplesmente debochando. Há quem esteja debochando descaradamente: vi um caso de um crowdfunding feito por um grupo de entusiastas com o objetivo de comprar equipamentos para provar que a Terra é plana. O objetivo desse grupo é comprar câmeras de alta resolução que subirão em um balão de hélio (similiar ao das radiossondas, pelo o que deduzi). Essas câmeras estarão voltadas para todos os quadrantes e o arranjo experimental ainda contará com um GPS (Global Positioning System). Isso mesmo, amigos, UM FUCKING GPS. Óbvio, só pode ser zoeira.

Ainda sobre teorias pseudocientíficas como a da Terra Plana e o Criacionismo, é curioso como pessoas da academia acabam sucumbindo a isso. Outro exemplo é o Dr. Ben Carson, renomado neurocirurgião que é criacionista (o Yuri Grecco fez esse otimo vídeo falando sobre o caso). Claro que ele estudou várias disciplinas na Faculdade de Medicina que direta ou indiretamente pautavam-se na Teoria da Evolução. Mas ainda assim, por razões religiosas,  Carson é Criacionista. Isso talvez não faça sentido para você, mas eu acredito que algumas pessoas conseguem compartimentar as coisas em suas mentes. Na verdade, talvez todos criem esses compartimentos, em diferentes graus de contradição.  Como muitos de vocês sabem, eu sou cristã (ou algo próximo ao que chamam de cristã, é complicado fazer parte dessas fanbases). E claro que em algumas situações isso entra em choque com meu amor pelo conhecimento científico, mas atualmente sou bem resolvida com isso pois eu vejo toque divino em todas as descobertas científicas.

Eu tenho minha opinião pessoal sobre Deus, sobre Jesus Cristo e sobre o Espírito Santo. Apesar de mencionar minha fé em alguns momentos aqui no blog ou na fanpage, procuro não ter posturas pseudocientíficas e sinceramente, manter esse entendimento para mim não é difícil (embora seja um desafio). Para mim é uma questão de ética e honestidade.