CLOUD: uma linda escultura colaborativa que mede interações sociais

Nas terças-feiras eu gosto de destacar aqui no blog algum tema no qual uma linda ponte entre Meteorologia e Arte foi construída. Hoje vamos falar de uma linda escultura chamada CLOUD.

CLOUD, durante uma Nuit Blanche em Calgary, Canadá.

Antes de falar da escultura, vamos pensar em como o termo nuvem vem sendo utilizado nos últimos anos. O termo computação em nuvem refere-se ao uso da memória e da capacidade de armazenamento e cálculo de vários computadores para realizar uma única tarefa. Esses vários computadores estão interligados através da internet.

Existem nuvens “públicas”, no sentido de que várias pessoas ou instituições usam o mesmo serviço. Por exemplo, os serviços do Google, como o serviço de armazenamento Google Drive, é uma nuvem pública. Claro que cada um tem suas credenciais para usar aquele serviço e teoricamente os dados de todos ficam protegidos, porém é um serviço público no sentido de que cada um pode se cadastrar.

Muitos desses serviços em nuvem utilizam uma nuvenzinha como ícone em algum momento do processo de download ou upload de informações. Essa linguagem ficou tão marcada e é até reforçada pelas companhias. O artista Berndnaut Smilde, que mencionei semana passada, já criou suas fantásticas nuvens para eventos de grandes empresas de computação, por exemplo.

Há também “nuvens comunitárias” ou “colaborativas”, que é quando um grupo de pessoas ou de instituições unem seus esforços computacionais em prol de um objetivo definido. Por exemplo, iniciativas como a do SETI (que é provavelmente a mais famosa).

Ou seja, o termo nuvem, como vem sendo empregado recentemente na área de ciências da informação, pode dar essa ideia de algo colaborativo, dependendo da aplicação.

Agora que colocamos isso na mesa, podemos falar da escultura CLOUD e de seu caráter colaborativo.

CLOUD é uma escultura feita com 6000 lâmpadas incandescentes, idealizada pelos artistas canadenses Caitlind r.c. Brown e Wayne Garrett. Vocês repararam que na foto da escultura (que abre o post) há uma série de fios descendo da nuvem? Pois então, cada fio desce é um interruptor. A ideia é que todos que passarem pela escultura possam ficar debaixo dela, puxar um desses fios e então acender uma lâmpada. Ou seja, são necessárias várias pessoas trabalhando juntas, para acender todas as lâmpadas e deixar a escultura toda iluminada como na foto.

O objetivo dos artistas é criar um momento único, uma experência, vivida por várias pessoas ao mesmo tempo. Durante a exibição, as pessoas começam a participar de maneira espontânea. Imagino que todo o processo deva ser muito interessante de se observar e participar. Sempre surge um primeiro, um mais curioso, que vai lá e puxa a primeira cordinha. Em seguida, a ação desse curioso inspira mais pessoas.

Público interagindo com a escultura. Foto de Doug Wong

À medida que os telespectadores se movem sob o dossel de lâmpadas, a CLOUD revela sua subestrutura – a parte de baixo (a base da nuvem) é industrial e utilitária, construída a partir de vigas estruturais, com toda parte eletrônica exposta, feita de maneira manual (fios contorcidos manualmente, etc). Esta “revelação” quebra a ilusão de delicadeza e leveza caracterizada pela estética exterior da obra de arte, pois essa sim é toda delicada e lembra mesmo uma nuvem.

Em outras palavras, a perspectiva de quem está do lado de fora é completamente diferente de quem está observando a estrutura da parte de baixo. E não é assim com uma nuvem de tempestade, por exemplo? Quando a gente fotografa aquele Cb lindo a uma distância do local da tempestade, não tem ideia que ali em baixo daquela tempestade alguém pode estar vivendo algo muito diferente: enchentes, goteiras, medos, etc.

O objetivo da escultura CLOUD é também falar sobre uma tecnologia que já passou e já e considerada obsoleta: as lâmpadas incandescentes. Vários países já não as fabricam e muitos outros estão nesse caminho de transição para novas tecnologias, como as lâpadas de LED. Ou seja, assim como uma nuvem é passageira, também são as tecnologias.

De acordo com os criadores da escultura, a obra de arte também trata-se de interção social. E aqui entra a definição de nuvem dentro do contexto de informática, como mencionei anteriormente.   À medida que os telespectadores se envolvem com correntes de puxar, tornam-se artistas inconscientes, orquestando um espetáculo incerto para espectadores fora do trabalho (os observadores). É o que acontece nas redes sociais, por exemplo. Você pode participar de uma discussão ou simplesmente observá-la de longe (apenas lendo os comentários). E dependendo do papel que você exercer, você vai ter uma percepção diferente sobre o que está acontecendo. Quando a gente está dentro do assunto, participando das discussões em tempo real nessa era da pós-verdade,  tudo é um caos. As informações mudam a cada momento, a cada instante surgem novas evidências, você muda de ideia, se retrata, etc. Eu tenho a impressão que quando a gente toma a distância, observa tudo ao longe, as coisas tem uma forma mais bonita. Deixar de dar sua opinião, portanto, pode parecer mais interessante e mais bonito do que participar da discussão. Porém, ao não participar, você não está tendo o prazer de “puxar a cordinha”. É para pensar quando vale a pena ou não puxar a cordinha.

Ainda, de acordo com os artistas:

Em nível simbólico, a CLOUD confia na linguagem universal das imagens ambientais – apesar das barreiras linguísticas, das diferenças culturais e da distância geográfica, as nuvens de chuva são compreendidas por pessoas de todo o mundo.

A primeira edição da CLOUD foi encomendada para a Nuit Blanche Calgary em 2012 (que é como a “Virada Cultural” que temos em São Paulo). Uma segunda edição foi encomendada pelo Garage Museum of Contemporary Art (museu localizado em Moscou), em 2013.

Temos, portanto, mais um lindo trabalho artístico que intersecta diversas linguagens. Aqui a arte conversou com a Meteorologia e até com a Tecnologia da Informação. E claro, como todo trabalho artístico, possibilita que os observadores, artistas e participantes possam fazer diversas interpretações. A arte mexe com a criatividade e com a imaginação.