Como é que se determina o nome de uma nuvem?



As nuvens aparecem no céu em diferentes formatos, tamanhos e em diferentes alturas. A coloração aparente das nuvens também pode variar, dependendo do horário do dia e da quantidade de água que a nuvem possui. No post de hoje falaremos mais uma vez sobre como as nuvens são nomeadas. Cortesia de Shutterstock

O leitor Renato mandou a pergunta que dá título a esse post. Como a comunidade meteorológica determina o nome de uma nuvem? Bom, como qualquer sistema de classificação, os objetos a serem classificados são separados de acordo com alguns critérios pré-estabelecidos.

No caso do sistema de classificação de nuvens que utilizamos atualmente (e é universal, ou seja, é usado por toda a comunidade meteorológica de todo o mundo), as nuvens são separadas de acordo com sua altura no céu e de acordo com o seu formato. Mas antes, vamos fazer um breve histórico sobre a classificação de nuvens.

Etimologia e história do estudo das nuvens

A palavra nuvem vem do latim, nubes. Em todos idiomas de origem latina, as palavras tem a mesma origem, como por exemplo nuvola (italiano), nuage (francês) e nube (espanhol). Em inglês, o termo cloud tem origem no antigo inglês clud ou clod, significando um monte ou uma massa de rocha. Em torno do começo do século XIII, estendeu-se como uma metáfora para incluir nuvens de chuva como massas de água evaporada no céu por causa da similaridade na aparência entre uma massa da rocha e de uma nuvem que hoje chamamos de nuvens Cumulus. Com o passar do tempo, esse termo metafórico substituiu o original weolcan do inglês antigo que era usado para se referir a nuvens em geral e que deu origem ao termo em alemão, que é wolke.

O ser humano sempre olhou para o céu, até mesmo por necessidade. Olhar o céu e encontrar padrões era uma maneira de tentar prever o tempo (e esses padrões podiam ser imortalizados na forma de ditados populares). Quando a ciência surgiu como atividade autônoma na Grécia Antiga, as nuvens passaram a ser observadas em combinação com outros elementos meteorológicos ou até mesclando com outras ciências naturais.

Em cerca de 360 a.C., o filósofo grego Aristóteles escreveu Meteorologica, uma obra que representava a soma do conhecimento da época sobre as ciências naturais, incluindo o tempo e o clima. Esse é considerado o primeiro livro sobre meteorologia (falei sobre isso nesse post).

No livro de Aristóteles,  a precipitação e as nuvens de onde a precipitação veio foram chamadas de meteoros, palavra grega que significa “alto no céu”. Dessa palavra veio o termo moderno meteorologia (falamos sobre isso nesse post).O trabalho de Aristóteles  baseou-se na intuição e observação simples, não é o que hoje empregamos no método científico.  No entanto, foi o primeiro trabalho conhecido que tentou tratar uma ampla gama de tópicos meteorológicos.

Depois de séculos de teorias especulativas sobre a formação eo comportamento das nuvens, os primeiros estudos verdadeiramente científicos foram realizados por Luke Howard, na Inglaterra, e Jean-Baptiste Lamarck, na França. O Lamarck de quem estamos falando é ele mesmo, o “Lamarck da Biologia”, importante taxonomista e que deu importantes contribuições para o campo da Evolução. E o inglês Luke Howard era um observador metódico com uma base forte na língua latina e usou seu fundo para classificar os vários tipos de nuvem troposféricos durante o ano de 1802.

Howard acreditava que as formas de nuvem em mudança no céu poderiam desvendar a chave para a previsão do tempo. Lamarck tinha trabalhado independentemente na classificação de nuvem no mesmo ano e tinha chegado com um esquema de nomeação diferente, usando nomes franceses incomuns para os tipos de nuvem. Os nomes em francês propostos por Lamarck não se popularizaram, até porque o latim era muito mais conhecido por grande parte da comunidade científica.

O sistema proposto por Howard logo se popularizou pela comunidade científica e saiu de suas fronteiras: o dramaturgo e poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe compôs quatro poemas sobre nuvens, dedicando-os a Howard.

To find yourself in the infinite,
You must distinguish and then combine;
Therefore my winged song thanks
The man who distinguished cloud from cloud.

[trecho da dedicatória de Goethe a Howard em seus poemas]

Goethe foi muito popular e logo a classificação de Howard foi popularizada. Uma elaboração do sistema de Howard foi formalmente adotada pela Conferência Meteorológica Internacional em 1891 {x}.

Nuvens depois de Howard

O sistema de classificação de nuvens que usamos atualmente é baseada na proposta de Luke Howard.  A World Meteorological Organization já publicou diversas edições do International Cloud Atlas, publicação com o objetivo de servir como guia para que observadores meteorológicos possam identificar os tipos de nuvens.

A imagem acima mostra as ideias básicas dessa classificação, que considera a altura da nuvem e o seu formato. A versão mais recente do Atlas Internacional de Nuvens foi publicada em março de 2017 (está fresquinha) e considera novos nomes para levar em conta nuvens com formatos não muito usuais (como o caso da asperitas). Para inserir um novo tipo de nuvem no  Atlas Internacional de Nuvens, o processo não é muito simples. A comunidade científica se reúne e entra em um consenso, para não haver redundâncias. Eu falei sobre essa nova versão do Atlas Internacional de Nuvens nesse post.

O Atlas Internacional de Nuvens é um importante material para realizar o treinamento da comunidade meteorológica. Ele é um instrumento que garante a padronização no procedimento de observação de nuvens. Cada tipo de nuvem está relacionado com uma situação meteorológica (tempo bom, chuva, neve, aproximação de uma frente fria, etc). Eu já abordei esses aspectos em diversos posts aqui do Meteorópole, como por exemplo nesse post em que falo das nuvens que surgem no céu antes da passagem de uma frente fria. Procurando pela categoria Nuvens, os leitores poderão conferir todos os posts já publicados sobre o tema.