Dúvida do leitor: Formação de nevoeiro e Umidade Relativa



Recebi uma dúvida do leitor Zeca Lima:

Olá, tudo bem? Eu tenho uma duvida relacionada a uma msg met aeronautica(METAR) onde foi comunicado nevoeiro (FG) e a umidade relativa do ar estava  a volta de 60%. É possivel presença de nevoeiro com essa umidade do ar? Obrigada.

Obrigada pela mensagem, Zeca.

O nevoeiro é um fenômeno meteorológico que pode prejudicar as aeronaves. Vários procedimentos precisam ser tomados e se o nevoeiro estiver muito intenso, muitas vezes o aeroporto fica temporariamente fechado. No post de hoje, falaremos sobre nevoeiro e sobre METAR, discutindo a dúvida de um leitor do blog. Cortesia de Shutterstock

Em primeiro lugar, cabe contarmos o que é METAR. METAR é um acrônimo para METeorological Aerodrome Report (Informe meteorológico regular de aeródromo) e consiste em uma mensagem codificada com informes sobre as condições meteorológicas de um determinado aeródromo. Eu teria que escrever um post explicando para vocês como interpretar essa mensagem codificada e deixo isso para outra ocasião pois o texto ficaria bem longo. Para os mais curiosos, sugiro esse verbete da wikipedia e as suas referências. Recomendo também esse post do Vinícius que explica direitinho como a mensagem METAR é construída e como dela pode ser interpretada.

Alerta para os conspiracionistas: a mensagem METAR é codificada apenas para resumir seu conteúdo e padronizar a informação internacionalmente. Com seu resumo, a mensagem pode ser enviada no formato de uma “tira” e isso facilita a transmissão da informação. Qualquer técnico em Meteorologia de aeródromos de qualquer lugar do planeta vai poder interpretar informações no formato METAR dos aeródromos de qualquer lugar, independentemente do idioma que o técnico fala. E esse tipo de universalização no formato dos dados transmitidos é extremamente importante quando falamos em dados científicos.

O METAR fornece informações em superfície e também em altitude (informando a altura das nuvens) na região ao redor do aeródromo.

As informações do METAR são bastante representativas de uma área ao redor de 5 NM (raio de quase 10 km) ao redor do ponto de observação, considerando-se que não existam características geográficas que alterem significativamente algum ponto (montanhas e lagos, por exemplo), mas podem ainda ser “úteis” em até 20 NM (37 km). {x}

Imagem obtida no blog Monolito Nimbus

Na imagem acima, que ensina os fudamentos mais básicos da interpretação de um METAR, observamos que há um código próprio para nevoeiro. Aparece a sigla FG quando tem nevoeiro no aeroódromo (e aqui estamos falando de nevoeiro em superfície). Zeca, quando você ler essa mensagem, se for possível, claro, nos envie o METAR que você se refere para que possamos discutir em outro post.

O METAR também informa a umidade relativa do local, porém de forma indireta, já que informa a temperatura do ar e a temperatura do ponto de orvalho. Quando a Temperatura do Ar (Temperatura do Bulbo Seco), Temperatura do Bulbo Úmido e Temperatura do Ponto de Orvalho possuem seus valores iguais, significa que a umidade relativa está a 100% e em outras palavras, o ar está saturado de vapor d’água.

Nevoeiro e acidentes aéreos

Um colega meu da área de aviação, o Daniel, uma vez me disse que um acidente aéreo é uma “soma” de uma sequência de incidentes. Na verdade, o acidente não é provocado por uma única coisa. Uma sequência de problemas culmina no acidente, pelo menos foi isso que entendi. O nevoeiro pode ser um elemento que pode facilitar a ocorrência de um acidente aéreo.

Como exemplo mais marcante, o Desastre Aéreo de Tenerife (que o Vinícius narra nesse post) foi o desastre aéreo com mais número de mortos na história da aviação. Um dos incidentes principais que culminaram na tragédia foi a presença de um denso nevoeiro na pista, que dificultou a visualização das aeronaves por parte do controle.

Condições para formar um nevoeiro

Primeiro vamos separar os termos névoa e nevoeiro:

Névoa: mais rala, um pouco transparente. A névoa pode ser úmida ou seca. Não chega a prejudicar a visibilidade.

Nevoeiro: prejudica a visibilidade, podendo interromper o funcionamento de um aeroporto enquanto ela durar. Também prejudica estradas, principalmente no caso da descida da Serra do Mar, como temos em São Paulo e no Paraná. Falei mais sobre isso nesse post. Co o nevoeiro, a visibilidade fica reduzida em 1km ou até menos. Uma vez estava com minha família no carro e pegamos um nevoeiro que impossibilitava avistar o carro da frente.

Para o nevoeiro se formar, precisamos ter a temperatura em rápido declínio e a umidade relativa em rápido aumento. Isso faz com que o ar próximo da superfície fique cada vez próximo do ponto de saturação do vapor d’água, ou seja, que é quando o ar “não aguenta mais” a presença desse gás e ele precisa condensar, formando assim a nuvem de nevoeiro. O ponto de saturação ocorre quando a umidade relativa é igual a 100% (ou muito perto disso, acima de 90-95%).

Nesse post, eu dou mais detalhes sobre as situações em que um nevoeiro pode se formar.

Os nevoeiros normalmente se formam no início da manhã ou no final da tarde, que é quando temos essas condições de resfriamento rápido da superfície da Terra. Esse vídeo muito explicativo sobre o fenômeno pode acrescentar na compreensão. Os nevoeiros que formam-se pela manhã dissipam-se bem no começo da manhã, com o gradual aquecimento da superfície da Terra.

Conclusão

Zeca, do jeito que você narrou, acho improvável que um nevoeiro possa se formar com umidade relativa de 60%. Veja bem, aqui estou supondo que a umidade relativa foi medida na superfície e que o nevoeiro foi observado na superfície também. A propósito, nevoeiro é um fenômeno que ocorre na superfície ou pelo menos nas proximidades da superfície (até no máximo 1000m de altura, aproximadamente). O que pode ter acontecido é um erro na confecção do METAR. Pode ser um erro de digitação ou um erro de interpretação: o técnico viu uma névoa e confundiu com nevoeiro, por exemplo. Ou houve um erro na digitação da informação de Temperatura do Ar e Temperatura do Ponto de Orvalho, que é outra possibilidade.

Espero ter respondido sua pergunta. Eu demorei pois quis aproveitá-la para explicar e rever alguns conceitos interessantes, que podem ajudar pessoas com dúvidas relacionadas.

Observação adicional

Eu tive que editar esse post para copiar um excelente comentário do Vinícius, que acrescenta nessa discussão:

Também aposto em erro de interpretação/digitação. Já vi alguns casos em METARes que foi relatado FG junto com chuva forte e trovoadas. Isso não faz sentido, já que são situações de estabilidade/instabilidade atmosférica completamente diferentes. Neste caso, creio que tenham se guiado apenas pela questão da visibilidade ser menor do que 1 km, mas isso não implica somente em nevoeiro.
Pode também ter realmente acontecido o nevoeiro e o erro ser de observação/digitação da temperatura. Daí vale a pena acompanhar a evolução temporal das temperaturas (T e Td) ao longo do tempo para ver se os valores registrados fazem sentido (uma queda brusca em um horário só é de se desconfiar).

Ele suspeita também de um erro de digitação ou de interpretação e ele inclusive coloca exemplos de erros que ele já viu (o Vinícius é professor de Meteorologia Aeronáutica). Uma dica muito boa que ele colocou é verificar a evolução dos dados, ou seja, checar outros dados meteorológicos do mesmo aeródromo e acompanhar a evolução de T e Td, para verificar se fazem sentido. Em meu trabalho em uma Estação Meteorológica de Superfície, costumamos encontrar muitos erros de leitura e erros de digitação dessa maneira, suspeitando de dados que variam abruptamente ou de maneira inesperada de uma hora para outra. A suspeita pode ser apenas uma suspeita infundada, mas também pode indicar um erro.