Minhas observações sobre a primeira temporada de 13 Reasons Why



A série 13 Reasons Why fala sobre bullying no universo escolar adolescente e suas consequências trágicas. Porém infelizmente eu já soube de relatos de bullying sendo praticado em ambiente de trabalho, onde os perpetradores eram adultos, que deveriam ser exemplo positivo. É realmente muito triste que esse tipo de situação aconteça, em qualquer lugar. No post de hoje vou falar de minhas impressões acerca da primeira temporada de 13 Reasons Why, porém é necessário fazer um importante recorte: sou uma mulher que já tem mais de 30 anos, então falarei sob esse ponto de vista (e claro, levando em conta minha própria experiência com o assunto). Cortesia de Shutterstock

Nem se preocupem, esse texto não vai conter spoilers. Eu vou falar um pouco sobre essa série famosa: 13 Reasons Why. A série é uma produção do Netflix e está fazendo um enorme sucesso, principalmente entre o público adolescente e jovem.

A série é muito boa, a história é bem construída e os atores trabalharam muito bem. Trabalharam tão bem que conseguir ter raiva de vários deles. Um deles, o Bryce (falo dele adiante) faz até expressões faciais típicas de um criminoso sem caráter. Sim, dá vontade de bater nele. Desculpem pelo meu ímpeto klingon.

Eu preciso dizer aqui que eu já passei dos 30 anos há alguns anos e eu não consigo mais compreender os dramas dos adolescentes. Isso é talvez um pouco triste, alguns vão dizer que falta empatia de minha parte. Mas não se trata disso. Acredito que se você é adolescente e está passando por certos dramas escolares e se transformou em alvo de algumas hostilidades, apenas gostaria de dizer que isso vai passar. Mas sim, você vai ter que ser muito forte e vai ter que confiar nos adultos. E você ainda não é adulto! Conte tudo – absolutamente TUDO – para seus professores, irmãos mais velhos, tios, tias, pai, mãe, etc. Alguém vai ter que te ouvir. Alguém vai ter que te ajudar. Se possível e se o que você estiver vivendo for pesado demais, procure atendimento psicológico. Talvez os adultos não te entendam, mas eles podem te surpreender. Podem entender, direcionar e encaminhar. Não tenha medo de contar tudo, mesmo que você não saiba usar as palavras certas ou tenha dúvidas. Aqui no Brasil, contamos também com o lindo trabalho do CVV, com pessoas treinadas para te ouvir caso você esteja pensando que sua vida não vale a pena.

Eu também tive dramas na minha adolescência. Hoje vejo que muita coisa seria resolvida se eu confiasse em meus pais, se eu tentasse um diálogo com eles. Também vejo que muitos desses dramas eram mera idiotice de minha parte.

Vejam, nos parágrafos acima estou falando de certos dramas relativamente leves (fulano me xingou, fulana fez intriga, fofoca, etc). Eu sei que o bullying é muito pesado hoje em dia porque muitas vezes ele sai do muro escolar: perseguições, exposição de conversas e fotos privadas na internet, etc. Na série, há situações que deixam de ser um simples drama escolar, pois são CRIMES e necessitariam da polícia envolvida. E mais uma vez, os adolescentes da série (assim como muitos da vida real) não contam as coisas para os adultos. Entenda, você é um adolescente, acabou de deixar de ser criança e você PRECISA ser cuidado por um adulto. Seus colegas adolescentes podem até ajudar, mas eles em geral não tem condições para te ajudar porque eles também não tem maturidade.

Uma coisa que chamou minha atenção na série foram pais completamente ausentes. Um dos personagens, Bryce, é super rico, mora em uma mansão, porém os país sempre estão viajando. Ele fica sozinho em casa, fazendo tudo o que tem vontade. Como ele tem dinheiro e foi muito mal educado pelos pais, ele acha que pode comprar e manipular as pessoas. Provavelmente os pais dele são assim como ele.  Esse rapaz, um outro pesonagem chamado Justin (que vem de um lar completamente destruído) e o rapaz que tira fotos loucamente, na minha opinião, virariam criminosos de qualquer maneira, mesmo que toda situação envolvendo a protagonista não ocorresse.

Os pais retratados na série não tem a menor ideia do que os filhos fazem, de quem são seus amigos e dos lugares que eles frequentam. Isso é completamente absurdo! Meus pais sempre quiseram saber de tudo (absolutamente tudo) e sempre me acompanharam em situações onde em precisava de companhia. Claro que eu ficava indignada em muitas situações, sentia aquela vergonha boba que os adolescentes tem dos pais, mas hoje vejo o quanto eles me ajudaram. Quando eu tinha 17 anos, fiz uma viagem escolar de 1 semana para Foz do Iguaçu. Meus pais me levaram até a escola no dia da viagem (era de onde saía o ônibus), conversaram com os professores (sem alardes ou loucuras, não me fizeram ‘passar vergonha’), anotaram o nome do hotel, quiseram saber das atividades que realizaríamos e fizeram várias observações e recomendações importantes para minha segurança. Ou seja, meus pais permitiram a viagem, porém com regras e critérios. Observei na série que os pais de alguns dos adolescentes não colocam nenhuma regra. Não estabelecem, por exemplo, a que horas eles devem retornar de uma festa e nem procuram saber se existirão adultos responsáveis supervisionando a festa. Eles bebem e adquirem drogas ilícitas com uma grande facilidade. Uma das moças, Jess, está se transformando em uma alcóolatra e os pais nem notam.

Eu gostei da série, embora alguns dos dramas apresentados me pareçam um enorme exagero de adolescente suburbano. Outros são coisas muito sérias, como adolescentes bêbados, desrespeito, agressão, homicídio, suicídio e estupro.  A série me fez pensar que eu realmente me distanciei do “mundo adolescente” (o que é saudável, não queria viver draminhas de adolescente no alto dos meus 30 e alguns). Porém eu preciso tomar cuidado com esse distanciamento, pois como mãe e educadora preciso estar muito atenta. Eu diria que mesmo que você não trabalhe com jovens e mesmo que você não seja pai/mãe, os adultos em geral precisam ter responsabilidade: transmitir bons exemplos, estabelecer diálogos saudáveis e estabelecer vínculos que geram confiança. Apesar de tanta tristeza na série, eles deixam na primeira temporada a mensagem bonita de que devemos cuidar uns dos outros.

E para finalizar, claro que não abordei aqui nesse texto TODOS os aspectos da série e nem comentei tudo ou todas as características de cada um dos personagens e situações. Apenas fiz algumas colocações porque a série me deixou profundamente triste. Uma criança de 17 anos decidida a dar fim na própria vida, me deixa muito triste e decepcionada com esse mundo. Conheço uma mãe que passou por essa tragédia de perder o filho adolescente dessa maneira e hoje ela vive a base de medicamentos, sente-se imensamente sozinha e vazia, já foi enganada por charlatães, etc. Dói demais olhar para essa mãe, uma mulher culta e inteligentíssima que hoje tem um olhar vazio. Se dói olhar para ela, imagine então a dor que ela sente. Não há palavras.

 

Fico temerosa que para muitas pessoas da minha idade, o bullying seja uma ‘frescura’. Claro que alguns draminhas de adolescente são frescura de acordo com o ponto de vista dos adultos. Porém outras coisas são extremamente sérias e danosas, sendo assim devemos estar atentos e estabelecer laços de afeto e confiança. Cortesia de Shutterstock