Nuvens estranhas no céu de São José dos Campos



O que é isso em cima dessas montanhas? Uma nuvem? Ou um disco voador? No post de hoje, vamos falar de nuvens lenticulares. Cortesia de Shutterstock

Sempre que aparece no céu um fenômeno meteorológico incomum, as pessoas ficam intrigadas (como nesse caso recente no Tocantins, por exemplo). Como veremos a seguir, não tem nada de estranho ou perigoso acontecendo nos céus brasileiros. Bom, temos a poluição do ar nas grandes cidades, que traz enormes prejuízos para a saúde. Mas não é a isso que as pessoas se referem quando pensam em algo estranho no céu: elas logo pensam em coisas de outro mundo.

As manchetes tinham esse nível. Sério. Não é surpresa, as pessoas adoram coisas misteriosas. É dessa maneira que os cliques são atraídos.  

No dia 26 de abril (mês passado), moradores de diversas regiões do Vale do Paraíba puderam observar lindas nuvens lenticulares. O fenômeno ganhou destaque em diversos portais de notícias, como a manchete que reproduzi anteriormente.

As nuvens chamaram atenção de moradores do Vale do Paraíba (Foto: Rodrigo Alves/ Vanguarda Repórter)

Eu nem sei se eu poderia reproduzir a imagem acima, que vi no G1. Trata-se de imagens das nuvens observadas na região mencionada no último dia 26. Eu li “teorias malucas conspiradoras” de que naves alienígenas se “camuflam” como nuvens. Ok, vamos deixar de lado essas teorias, porque aqui a gente usa a Navalha de Occam. Vamos tentar entender o que são essas tais nuvens lenticulares e eu vou falar um pouco mais delas nesse post.

Nomenclatura

Na verdade o nome completo desse tipo de nuvem é Altocumulus lenticularis. Recentemente escrevi um novo post em que mais uma vez menciono o Sistema de Classificação de Nuvens. Esse sistema de classificação é usado por toda comunidade meteorológica mundial e tem suas origens no século XIX. O sistema prevê os nomes “básicos”, como destaco na imagem abaixo:

Fonte: Meteorology Today, Ahrens D. Adaptado por mim para o Meteorópole.

E dentre esses nomes básicos, temos o nome Altocumulus. Depois do nome básico, temos o que eu chamo de sobrenome da nuvem. Para fins práticos, no dia a dia da comunidade meteorológica no que se refere a rotina diária de observações meteorológicas, o sobrenome da nuvem não é tão levado em consideração. Apenas os nomes básicos indicados na figura acima são utilizados e já são o suficiente para classificar as nuvens.

Porém as nuvens podem ter aparências curiosas. Um Altocumulus pode se destacar dos demais Altocumulus por apresentar um aspecto curioso ou uma aparência incomum. E é aí que entra o que eu chamo de sobrenome da nuvem. Eu já havia mencionado essa questão nesse post, em que falo do caso asperitas ou undulatus asperatus, nome que corresponde a uma aparência curiosa de um tipo de nuvem e entraria como um sobrenome da nuvem, ficando Stratocumulus asperitas, por exemplo. O nome asperitas foi mencionado porque trata-se de uma “polêmica” recente na comunidade meteorológica e também é uma polêmica dentre os aficionados por nuvens, pois há quem goste de observar nuvens como hobby.

Em alguns lugares, a nefologia até um hobby organizado, com grupos como a Cloud Appreciation Society, grupo do Reino Unido. Esses entusiastas amadores podem certamente ajudar os meteorologistas através de suas observações e questionamentos. Há um termo em inglês que gosto muito, que é Citzen Scienceuma iniciativa conduzida totalmente ou parcialmente por pessoas que não tem formação acadêmica, porém estudaram bastante e receberam treinamento apropriado, podendo auxiliar em pesquisas.

O caso asperitas e outros casos semelhantes deram origem a uma nova versão do Atlas Internacional de Nuvens, publicado em março de 2017 pela Organização Meteorológica Mundial (falei sobre essa questão nesse post). Não é que esse tipo de nuvem é ‘novo’, ou seja, foi observado pela primeira vez. A questão é que hoje em dia as pessoas conseguem registrar fenômenos meteorológicos com mais facilidade, dada a popularização do acesso a câmeras fotográficas de qualidade e fáceis de manusear.

Mas vamos voltar ao caso Altocumulus lenticularis. O sobrenome lenticularis faz uma alusão ao formato específico e não usual desse tipo de nuvem, que já mencionei em outro post. O Altocumulus lenticularis mostra que esse Altocumulus em especial tem um formato que lembra uma lente. Por isso, lenticularis.

Existem outros diversos sobrenomes para as nuvens, sempre levando em conta sua aparência e aqui vocês podem conferir outros exemplos. Combinando nome + sobrenome, temos cerca de 90 combinações!

Uma nuvem com sobrenome normalmente aparece da seguinte maneira:

Nome em letra maiúscula (classificação “usual”, conforme a primeira figura que abre essa postagem) + ‘sobrenome’ em letra minúscula.

As nuvens podem ter mais de um sobrenome, se for necessário, dependendo da aparência dessa nuvem. A presença de mais de um sobrenome serve para descrever melhor sua aparência.

Observem que ao longo do texto, uso o termo nuvens lenticulares e também falo Altocumulus lenticularis. O termo nuvem lenticular é geral, serviria para qualquer tipo de nuvem com o formato de lente, incluindo o Altocumulus lenticularis. Poderíamos ter um Stratocumulus lenticularis também, embora eu realemente ache difícil porque para ter o escoamento em formato de onda necessário (veremos adiante),  precisamos estar em uma altura mais elevada do que àquelas em que tipicamente nuvens Stratocumulus (que são nuvens baixas) se formam.

E se você chegou nesse texto por acaso e não tem ideia do que são todos esses nomes de nuvens, sugiro que comece por esse post.

E como as Altocumulus lenticularis se formam?

Altocumulus lenticularis podem inclusive formar uma espécie de “chapeuzinho” sobre a montanha. Essa foto foi tirada no Monte Teide, em Tenerife, Ilhas Canárias (Espanha). Cortesia de Shutterstock
Em outras ocasiões, as nuvens Altocumulus lenticularis podem aparecer em meio a outros tipos de nuvem. É fácil notá-la pela sua característica arredondada, moldada pelos ventos intensos. Como veremos adiante no texto e como vimos na fotografia tirada em São José dos Campos, elas podem aparecer em grupo. Cortesia de Shutterstock.
Elas podem realmente se parecer com OVNIs ou discos voadores, principalmente nos casos em que aparecem mais isoladas. Esse registro foi feito em Portnaluchaig, na Escócia. Cortesia de Shutterstock.

As nuvens Altocumulus lenticularis formam-se normalmente quando temos a presença de uma barreira orográfica. Nesse caso de São José dos Campos, a barreira é a Serra da Mantiqueira. No entanto, a serra sempre está lá e não é sempre que vemos esse tipo de nuvem.

À medida que o ar flui ao longo da superfície da Terra, encontra obstáculos diversos, naturais ou feitos pelo homem. Todos esses obstáculos interrompem o fluxo de ar e formam turbilhões ou redemoinhos. A força e o tamanho desses redemoinhos formados vai depender do tamanho do obstáculo e da velocidade do vento. Claro que nós não conseguimos “ver” esses redemoinhos, a não ser que eles forem muito pequeninos e conseguirem carregar pequenas folhas secas, por exemplo. Nesse exemplo conseguimos ver a ação do redemoinho (o vento carregando as folhas).

Altocumulus lenticularis são nuvens praticamente estacionárias e que se formam em grandes altitudes no céu. Eles são geralmente alinhadas em um ângulo reto (perpendicular) com relação à direção do vento.

Por exemplo, quando o ar úmido e estável sopra sobre o topo de uma pequena serra, ele geralmente forma um grupo de grandes ondas a sotavento da montanha e se a temperatura estiver baixa o suficiente no lado sotavento da montanha, a umidade do ar vai condensar e formar nuvens lenticulares.

Ou seja, é necessário existir essas condições adequadas de vento, umidade e temperatura para que as nuvens lenticulares se formem. A presença da serra ou pequena cordilheira não é suficiente, porém é necessária. Em condições adequadas, nuvens lenticulares podem se formar em pequenos grupos, formando o que chamamos de “onda de nuvens”. É como se nas cristas das ondas formassem as nuvens, então elas muitas vezes ficam quase que igualmente espaçadas.

Dependendo do horário do dia, os Altocumulus lenticularis podem vir acompanhados do fenômeno de irisação (que destaquei nesse post). Daí pronto, é mais do que o suficiente para despertar imaginação e medo em algumas pessoas. Um objeto que lembra um disco voador e todo colorido, para alguns, só pode ser uma coisa de outro mundo. Mas como vimos, não é. Trata-se de mais um espetáculo do mundo natural completamente explicado pela ciência.

A presença de nuvens lenticulares podem ser um alerta para pilotos de avião e praticantes de voo livre. Como estão associadas com a presença de ondas na atmosfera, um avião que enfrentar uma situação dessas vai enfrentar grande perigo. Em palavras muito simplificadas, o avião vai enfrentar turbulência, vai subir e descer. Seria uma experiência análoga a de um navio em um mar com muitas ondas.

Em suma, nuvens lenticulares são lindos fenômenos que despertam a curiosidade e a imaginação dos seres humanos, mas não tem nada de “extra-terrestre” em sua formação.