O “efeito mola” na alimentação dos filhos

A alimentação saudável é um tema de extrema importância. Algumas pesquisas tem mostrado que estamos nos tornando uma nação de obesos. Ensinar as crianças a se alimentarem de maneira saudável é responsabilidade dos pais, que devem ensinar principalmente por meio do exemplo. No entanto, em meio a tanta preocupação legítima, surgem exageros. Casos de ortorexia e pessoas que se informam com material pseudocientífico. Será o fato de a criança comer bolo e brigadeiro na festa de aniversário do amiguinho vai arruinar todos os seus esforços rumo a alimentação saudável? Será que aquele dia especial de hamburguer e batata frita com os primos vai por tudo a perder? Eu tenho certeza que não e procuro falar sobre isso nesse post. Vamos tornar o tema ‘alimentação saudável’ em algo menos estressante. Cortesia de Shutterstock

Vocês já ouviram falar do efeito mola ou efeito mola social? Há algum tempo atrás o Pirulla gravou um ótimo vídeo explicando o termo e também tem esse texto aqui que explica bem, mas eu vou tentar resumir com minhas palavras e logo vocês vão compreender o título do post.

Imagine uma mola comprimida ao seu máximo. E façam uma analogia dessa mola com uma sociedade extremamente rígida, sem espaço para o diálogo e muito autoritária.

Agora vamos voltar à mola. Chega uma hora que a mola comprimida, que acumula tanta energia por estar tão comprimida, acaba se soltando e se esticando ao seu máximo. Agora faça uma analogia desse novo estado com uma sociedade extremamente permissiva, sem obediência às regras, etc.

De repente, alguém decide comprimir a mola novamente. E o ciclo recomeça.

Com palavras muito simplorias e muito resumidamente, esse é o efeito mola. Quando assisti o vídeo do Pirulla e aprendi sobre essa analogia, vi que ela pode ser aplicada a inúmeras situações. E no post de hoje vou falar sobre alimentação dos filhos. Para isso, vamos voltar aos anos 80/90, décadas que vivi e posso falar sobre algumas coisas acerca dessa vivência.

Nessa época, as informações sobre alimentação saudável não eram tão disseminadas quanto hoje. As crianças comiam de tudo, tudo mesmo. Nas escolas públicas, era comum servirem macarrão com salsicha com uma frequência assustadora. O doce do momento era um pirulito que você mergulhava no açúcar chamado Dip n’lik. Propagandas de salgadinhos e doces eram transmitidas nos intervalos dos programas infantis. A Xuxa degustava Danoninho no meio do programa. Em décadas anteriores, havia até um certo lobby de empresas do ramo açucareiro dizendo que os ‘médicos recomendavam que as crianças comessem açúcar’.

O Brasil ainda vivia um quadro sério de miséria, muito mais sério do que hoje. Retratos de crianças desnutridas eram comuns, muitas crianças tinham quadro de desnutrição mesmo em cidades grandes. Algumas mães, para não deixar o filho com fome, engrossavam o leite da mamadeira com farinha. As crianças ficavam gordinhas, porém desnutridas.

Além disso, com relação ao aleitamento materno, as empresas que fabricavam fórmulas infantis faziam muita propaganda e acabavam influênciando as mães. Muitas acreditavam que o leite materno não era forte o suficiente e quem tinha condições financeiras melhores acabava comprando essas fórmulas, muitas vezes com a recomendação do próprio pediatra.

Ou seja, no passado, ao mesmo tempo que a situação era financeiramente mais difícil para a maioria das pessoas, não havia uma informação tão bem difundida quanto hoje. E a gente aprendia que “se tem comida, come”. Seja qual fosse a qualidade da comida. Não éramos seletivos como as pessoas,  em geral,  são nos dias de hoje. Tanto que crianças “gordinhas” eram as crianças que vinham de família com melhores condições financeiras e crianças magrinhas eram as pobres. Era desejável e considerado até saudável que as crianças fossem gordinhas.

O tempo passou, a internet chegou e a informação se espalhou assustadoramente. Hoje temos maior consciência sobre a questão alimentar. As cantinas das escolas são obrigadas a oferecerem opções saudáveis e os pais pressionam mais por merenda escolar de qualidade. As mães se preocupam em montar lancheiras com produtos de qualidade. Muitos vão a nutricionistas, fazem perguntas e mudam seu estilo de vida. Essa é a parte excelente do acesso à informação. Por outro lado, tanta informação fez com que algumas pessoas desenvolvessem um transtorno alimentar novo, a ortorexia. E algumas mães acabam transmitindo isso para os seus filhos. Vou dar um exemplo de uma história maluca que ouvi recentemente e que vai parecer uma fanfic, mas eu juro que não é. Vou apenas usar nomes fictícios para não expor ninguém.

Uma garotinha de 7 anos chamada Amanda tem uma amiguinha da mesma idade chamada Eduarda. Quando Eduarda vai na casa de Amanda, come doce como se não houvesse o amanhã. Intrigada, a mãe de Amanda procura saber porque Eduarda come tanto doce. Ao investigar, ela descobre que a menina de 7 anos não come NENHUM doce em sua casa e que sua mãe faz tratamento para ACEITAR que a filha de 7 anos pode comer doces.

Sim, problemas da classe média. Mas eu noto sintomas semelhantes em diversos perfis no Instagram, canais do Youtube, blogs, etc. São mães tão obcecadas com a alimentação dos filhos que não permitem que as crianças comam um danoninho, tomem um suco de caixinha ou comam um biscoito maisena, mesmo que esporadicamente. São pessoas que já indicam que a situação fugiu do controle e que essa mãe precisa de ajuda.

Agora somem a ortorexia com desinformação. São pais que acham que o glúten ou alimentos trangênicos são venenos e dizem isso com convicção respaldados em “ouvi a hippie-granola da moda do canal de TV a cabo falar, então é verdade”. Ninguém procura saber e por alguma razão misteriosa, esses pais acham que sabem mais do que a nutricionista ou a médica nutróloga que estudam esses temas durante anos na faculdade, especializações, cursos específicos, etc.

Eu entendo que mesmo um profissional da área pode ser contaminado por desinformação e pseudociência, por convicção pessoal ou para atrair esses “hippies-granola” para seus consultórios, cobrando pequenas fortunas por suas consultas. Claro, deve ser ótimo ir em um médico e ouvir exatamente aquilo que você leu no blog da hippie-astróloga. O viés de confirmação é sempre uma delícia para o ego.

Por isso é bom ler, volte lá para os livros de Ciências do Ensino Médio e procure saber a opinião de vários profissionais. Leia artigos científicos (pelo menos o resumo ou o abstract). Procure saber a opinião da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. Informe-se com seu médico, alguns hospitais e até convênios médicos possuem campanhas a respeito de alimentação saudável. E de um modo intuitivo, a gente sabe o que é uma alimentação saudável: uma alimentação composta majoritariamente por alimentos não-industrializados. No entanto, alimentos industrializados não são necessariamente vilões. Há situações em que eles nos auxiliam a montar um cardápio saudável, principalmente se você não tem tempo e até por indicação médica (no caso de suplementos vitamínicos, por exeplo). A questão é saber escolher alimentos industrializados de qualidade.

O peso em cima da mãe

Recentemente, um “pai descoladão famoso da Internet” fez propaganda de Toddyinho. Toddynho é gostoso, as vezes até eu com meus 30 e tantos anos tenho vontade de tomar Toddynho. Pessoalmente ainda não ofereci para o meu filho, porque acho doce demais. Mas sim, um dia ele vai experimentar Toddynho. E vou ensinar que é um lanchinho que não deve ser consumido todos os dias, assim como tantos outros produtos. É uma questão de bom senso e conhecimento científico. E é dessa maneira que procuro pautar minha vida.

Acho que se eu proibir Toddyinho pro meu filho, corre o risco de quando ele ver o produto na frente dele, ele vai tomar uma caixinha atrás da outra a ponto de ficar bêbado de Toddynho. O nosso cérebro é perigoso, quando acha uma fonte de energia rápida (açúcar) fica maluquinho e é por isso que tanta gente gosta de doce, salvo raras exceções.

Bom, conversando com umas amigas, ficamos imaginando: e se fosse uma “mamãe famosa da internet” a fazer a propaganda de Toddynho? Iriam CAIR EM CIMA DELA, como se a coitada desse TODDYNHO PRAS CRIANÇAS TODA HORA e como se existisse UMA TORNEIRA DE TODDYNHO na casa dela. Por que é assim que a maioria das pessoas são hoje em dia. Elas veem uma foto sua em Ibiza e já pensam que sua vida deve ser fácil pra caramba, mal elas sabem dos seus boletos e da viagem parcelada em 24x.  Elas veem uma foto do seu filho tomando Toddynho e acham que a dieta da criança é toda baseada em Toddynho.

As mulheres acabam cedendo com mais facilidade a essa questão do exagero porque somos muito cobradas. Alguns homens não vão compreender isso. Mas muitas vezes, se seu filho fica doente ou se você engorda, a culpa é necessariamente sua por que fez más escolhas alimentares. E as pessoas se apressam em julgar, elas não sabem da sua vida e julgam.  Portanto, minha teoria é de que as mulheres são mais sujeitas a ortorexia devido a essas cobranças.

Já os pais não: os pais são os legalzões, fazem aquelas brincadeiras de girar a criança, de avião, de elevador, de correr pela casa, de rolar na grama e sentar no chão. O que tem o papai dar um Toddynho, não é mesmo? Pai é tudo irresponsável, dá Toddynho com biscoito recheado mesmo, não tem como evitar. É da natureza deles. Bom, perdoem meu sarcasminho.

Vou contar uma história minha de quando eu estava grávida. Eu senti uma enorme vontade de comer um x-tudo. Colesterol normal, saúde bacana e eu não fui uma grávida sedentária. O bom senso me dizia que eu podia me dar ao luxo de comer um x-tudo (que acho que foi o único x-tudo da gestação e eu não devo ter comido nem 5 x-tudo em toda minha vida). Estou lá toda feliz comendo quando uma conhecida minha aparece para dizer que eu não deveria estar comendo aquilo porque eu estava grávida. Eu nem liguei, coninuei lá mandando ver no meu lanche delicioso e aproveitando o momento!

Bom senso.  Só usar o bom senso. Coisa que minha conhecida não soube fazer.

E o que isso tudo tem a ver com o efeito mola? 

Acho que ficou um pouco implícito ao longo do texto o que eu quis dizer. Antes vivíamos um cenário de desinformação, com crianças comendo quantidades absurdas daqueles salgadinhos horríveis a granel (hoje foram substituídos pelo famigerado Fofura).  Hoje, vivemos uma situação de excesso de infomação e de pais que proibem doces e fazem aqueles ‘bolos’ constrangedores e tristes de melancia.

Vejam, nada contra esse ‘bolo’ de melancia. Ele é bonito e até parece gostoso. Mas não é um ‘bolo’: é uma melancia recortada e enfeitada. Um bolo de chocolate é muito mais gostoso, não acham? Talvez a maioria concordará comigo.  Cortesia de Shutterstock

 

Eu acho que poderíamos falar de efeito mola também no tocante a maneira de criar os filhos também. Apenas como um exemplo simples, no passado as crianças não tinham voz pra nada enquanto hoje, há crianças que opinam na compra do carro e na casa, o que é inclusive mencionado no documentário Criança, a alma do negócio (falei sobre esse documentário nesse post). Para mim, há várias maneiras saudáveis de criar os filhos e essas maneiras estão mais ou menos no meio dessa linha cujos limites são a total permissividade e a total autoridade.

Finalização

Acredito que para essas ‘molas’ ficarem numa situação de repouso, estáveis, é necessário que tenhamos bom senso. Sobre a alimentação dos filhos, minha sugestão é que os pais e mães procurem orientação do médico pediatra e de nutricionistas.  Observem se seus filhos tem problemas de saúde e alergias (diagnosticadas e comprovadas, sem achismos!) e vá liberando os alimentos conforme a orientação desses profissionais. Há alimentos que evidentemente não são indicados para bebês, mas isso quem vai dizer são os médicos e o seu bom senso, adquirido através de leitura de qualidade.

Claro que é importante se informar, mas procure sites confiáveis, que dão informações realmente científicas, como sites de Universidades e hospitais. Cuidado com a medicalização da alimentação e recentemente a Rita Lobo destacou essa tendência de medicalização, depois que deu uma resposta um pouco “atravessada” para um tuíte sem noção. A medicalização da comida tem sido destacada em diversos trabalhos acadêmicos, como esse e esse e pode ser que eu venha a falar novamente sobre esse assunto em outros posts.