Pais, eduquem seus filhos com o objetivo de torná-los pessoas cultas



Com o post de hoje, quero mostrar que é possível ensinar seus filhos a gostar de ciência e de quebra, também mostrar que é possível fazer isso de maneira econômica, mostrando para seus filhos que é possível se divertir com pouco e sem consumismo. Cortesia de Shutterstock.

Eu vou escrever um post de desabafo. É um post que divido com todos os pais que leem o Meteorópole. É um desabafo, porém também é um alerta para mim mesma, já que sou mãe de uma criança de quase 2 anos.

É inegável que faltam espaços de convivência cultural no Brasil. Várias crianças da periferia e de cidades muito pequenas crescem sem ter um centro cultural, um museu ou um parque perto de casa. Em São Paulo temos vários museus, parques e centros culturais, porém percebo que existem bairros totalmente deficientes dessas instalações. Eu sei, as pessoas poderiam pegar um ônibus e visitar esses locais. Mas imagine uma família de 5 pessoas, moradora da periferia, tendo que pagar ingressos, passagens de ônibus, lanche, etc. Sai caro! E o pai e a mãe já estão cansados de pegar ônibus e metrô todos os dias da semana que estão sem energia para fazerem a mesma coisa no final de semana. Eu entendo todas essas questões, com certeza. Mas eu tenho a impressão que temos um outro problema além desse: o brasileiro médio não gosta dessas atividades. E eu acho que não sou a única pessoa a ter essa impressão, o André já debateu isso nesse vídeo.

Eu não gosto muito de usar a desculpa da falta de informação. Hoje quase todos tem celular, mas a verdade é que a maioria usa para usar redes sociais. As informações e desinformações nas redes sociais podem ser filtradas de acordo com sua preferência. No entanto, curtindo páginas sobre Ciência e Cultura e acompanhando as atividades de sua cidade, é possível saber onde ocorrerão atividades culturais muitas vezes gratuitas. Se a pessoa tiver interesse, pode ter acesso a cena cultural das proximidades de onde vive.

A questão é que as pessoas não tem interesse. Elas preferem fazer passeios em shoppings. Muitas vezes gastam muito dinheiro com compras desnecessárias, itens para “ostentar”, pipoca com óleo que imita manteiga, ingressos para ver blockbusters, etc. Ou seja, gastam dinheiros com coisas muito caras, dinheiro que poderia ser utilizado para comprar um livro, por exemplo. É possível organizar passeios muito mais baratos em parques (um piquenique, por exemplo) e com um apelo consumista muito menor. Ora, se você já vai deixar o seu bairro para ir ao shopping e gastar muito dinheiro, você pode muito bem se deslocar para outro local, como para um local onde você vai aprender coisas e tornar-se mais culto.

Um simples passeio em um parque possibilita que as crianças observem a natureza. Vejam os insetos e animais em geral, contemplem as nuvens e as plantas. Isso pode ser a diferença para incentivar a criança a gostar da natureza, a respeitá-la e a ter interesse em aprender mais sobre a natureza. A maioria das pessoas que como eu estudaram Ciências Naturais tiveram seu interesse desabrochado em passeios como esse. Quando eu era criança, eu fazia passeios na praia, em parques, sítios e represas. Não sou de uma família rica. Sou de uma família de classe média, como tantos brasileiros. Só que não tínhamos esse ímpeto consumista. E infelizmente ainda acho que fui contaminada pelo consumismo, já que na adolescência eu frequetava shoppings. Hoje só consigo pensar no tempo que perdi, pois vejo a grande quantidade de coisas baratas e interessantes que temos aqui em São Paulo. Tenho amigos que deixam suas cidades no interior de São Paulo apenas para fazer um passeio de fim de semana e visitar novas exposições em museus, por exemplo.

Cortesia de Free Digital Photos

Em meu trabalho, frequentemente atendo crianças de idades entre 6 e 10 anos. Eu observo o comportamento das crianças menores e é possível distinguir aquelas que tem uma cultura familiar de visita a espaços culturais. Elas são calmas, contemplativas, observam o espaço ao redor delas, muitas ficam ávidas e querem fazer muitas perguntas, enquanto prestam atenção na explicação. Aquelas que não tem essa cultura familiar de visitas a espaços culturais, são mais agitadas, não prestam atenção no que você está falando e ficam com uma detestável cara de tédio.

Noto por exemplo com relação ao aviso de não tocar e itens de museu ou instrumentos meteorológicos. Algumas crianças desrespeitam regras básicas de convivência e cuidado. Outras as observam com atenção. E eu não convivo diariamente com as mesmas crianças. Alguns professores já  me informaram que só de observar a criança na sala de aula, é possível ter uma ideia do tipo de família que essa criança tem.

Será que você e todos os membros de sua família (incluindo as crianças) precisam mesmo do celular de última geração? Será que criança precisa de celular? Aquela ida cara ao shopping, com aquele fast food gordurento e nada saudável, não poderia ser substituída por uma ida a um parque ou a um centro cultural? Ser pai e mãe é uma oportunidade de ouro para aprender coisas novas, para conseguir observar o mundo com os olhos de uma criança novamente. As perguntas que as crianças fazem são as melhores, são curiosidades genuínas e ingênuas. Você vai acabar aprendendo, na medida que vai ter que pesquisar para responder os questionamentos da criança. E a criança, ao ver você lendo e pesquisando, vai compreender que é dessa maneira que se aprende.

É extremamente clichê o que vou dizer a seguir, mas vamos valorizar o ser e não o ter. Você não precisa daquele tênis de marca caríssimo. Você pode redirecionar seus recursos financeiros para finalidades mais nobres, como cursos, livros e passeios culturais, com o objetivo de implantar em seu filho a cultura de buscar conhecimento. Claro que é muito bom ter coisas boas e confortáveis, mas precisamos encontrar um equilíbrio. Caso contrário, continuaremos criando pessoas que gostam de ostentar grifes e marcas e que consideram que pessoas cultas são necessariamente estranhas ou arrogantes.

Há na internet (e em fanpages nas próprias redes sociais também) várias dicas baratas para fazer em casa mesmo, para despertar a curiosidade e a criatividade das crianças. Aqui no Meteorópole mesmo tenho uma seção de Experiências, que estou reformulando para acrescentar não apenas atividades relacionadas com Meteorologia, mas também atividades criativas para realizar com os filhos em casa. Tudo isso que estou escrevendo também tem a ver com passar um tempo de qualidade com seus filhos. Vamos observar as atividades que estamos realizando com nossos filhos, para influenciá-los positivamente e para que eles possam atuar como pessoas transformadoras nesse mundo distorcido.