Minha opinião sobre homeschooling



O homeschooling não é algo exatamente novo, porém muitos brasileiros tem se tornado defensores da prática. Nesse post, vou falar de meu ponto de vista a respeito do tema. Cortesia de Shutterstock

Homeschooling, termo emprestado da língua inglesa, consiste em educar crianças idade escolar em suas próprias casas. Nesse caso, os professores seriam os próprios pais, familiares ou alguém contratado para isso. Essa prática era comum no passado, quando haviam pouquíssimas escolas e famílias mais abastadas contratavam tutores que cuidavam da educação dos filhos. Em português, o termo muitas vezes é traduzido para ensino domiciliar.

Eu entrei na escola com 6-7 anos de idade. Até essa idade, fui educada em casa pelos meus pais. Já entrei na primeira série (como chamávamos antes) sabendo ler e sabendo escrever em letra bastão. Eu também já sabia somar e subtrair. Fui educada em casa até essa idade porque a escolinha municipal (pré) ficava longe de casa, não tínhamos carro, meu irmão era bebê e porque minha mãe era dona de casa em tempo integral e podia ficar comigo.

Mas essa experiência pessoal que narrei não é ao que os defensores do homeschooling se referem, até porque a legislação brasileira estabelece que as crianças devem frequentar a escola a partir dos 6 anos de idade, pois que o pré-escolar não é obrigatório. Em outras palavras, meus pais não fizeram nada de errado do ponto de vista legal. Tanto que com 7 anos eu comecei a frequentar a primeira série em uma escola estadual próxima à minha casa.

Os defensores do homeschooling lutam para que o ensino obrigatório possa ser feito em casa. Alguns falam apenas no Ensino Fundamental I (primeiro ao quarto ano). Outros defensores acreditam que o Ensino Fundamental II (quinto ao nono ano) e até o Ensino Médio (antigo Colegial) possam ser feitos em casa. Isso mesmo, sem pisar os pés na escola. A maioria dos defensores desse método propõe que de alguma maneira o governo ou instituições possam regulamentar o homeschooling, com fiscalizações ou com a criança fazendo avaliações periódicas.

Ao longo do texto, vou dar minha opinião fundamentada em experiência pessoal e pesquisa. Em outras palavras, vou também dar a minha opinião e dessa maneira, não é verdade absoluta. Como sei que esse tipo de assunto tem defensores ferrenhos, quero deixar claro que meu objetivo não é atrair inimizades. Mas isso pode acontecer, sabem como é a internet.

Acompanhando os filhos em suas tarefas escolares

Bom, deveria ser bem claro para a maioria dos pais quais devem ser as competências da escola e quais devem ser a competência dos responsáveis legais. As professoras relatam grandes problemas de indisciplina que deixam claro que há algo errado na educação de algumas crianças. Crianças sem limites e sem respeito ao próximo são relatos recorrentes. O papel da professora não é ser Supernanny. Crianças mal educadas terão dificuldade em aprender todo o conteúdo apresentado pelos professores e atrapalharão o andamento da aula para todas as outras crianças também.

Ao meu ver, é papel dos pais olhar o que os filhos estão aprendendo na escola. Ver o caderno e tomar a lição (como diziam as avós antigamente). Ver se a criança está aprendendo direitinho e analisar a avaliação dos professores. Verificar se há asseio e organização nos cadernos. Toda professora fala isso na reunião escolar! E as professoras ficam felizes quando notam que há pais que estão acompanhando o aprendizado, ajudando a fazer a lição de casa e até dando visto nos cadernos. Por isso pais e professores devem trabalhar juntos para que ocorra sucesso no aprendizado, sempre lembrando que cada qual tem suas atribuições.

E não adianta reclamar da escola pública se você nem sabe o nome da professora do seu filho. Se você não sabe quais são os problemas da escola e quais os desafios que as professoras enfrentam diariamente. Os pais devem participar da comunidade escolar: participar das reuniões, das festas e até pensar em meios para melhorar a escola.

Eu observo que os pais que tem filhos em escolas particulares são mais participativos (mas não é regra, claro). Talvez porque tenham uma melhor noção do quanto estão pagando e talvez porque compreendam melhor a respeito da importância dos estudos. As escolas públicas enfrentam problemas de cunho socioeconômico, de modo que os professores acabam atuando como psicólogos e até como assistentes sociais. É uma sobrecarga psicológica muito grande para uma professora ter que pensar no bem estar de crianças que são filhas de presidiários, que passam fome, que enfrentam enchentes, etc.

Os pais precisam entender que é importante acompanhar os filhos em todas as tarefas escolares. Infelizmente isso não é regra, pois muitas professoras já me confidenciaram que há pais que parecem que usam a escola para “se livrar” dos filhos por algumas horas e não ressaltam a importância e o significado de frequentar uma escola.

Sob esse aspecto, toda criança de certo modo é educada em casa (no sentido aqui de educação formal), pois o acompanhamento dos pais atua como complemento ao apresentado na escola. A questão aqui é: podemos excluir totalmente o elemento escola e permitir que toda educação formal seja feita em casa?

Aprendendo para ensinar

Pais que acompanham os filhos em sua vida escolar muitas vezes acabam tendo que aprender para ensinar. Ou pelo menos acabam relembrando algum conteúdo que viram há muito tempo para ajudar seus filhos nas tarefas escolares.

Como educadora, isso já me aconteceu em algumas ocasiões. Ao preparar uma aula, já tive que aprender ou relembrar para poder transmitir o conteúdo com segurança. E para isso, eu acredito que a internet ajuda muito. Há diversos sites, como a Khan Academy que permitem que a gente aprenda ou relembre conteúdos. Eu já recebi relatos de professores e de pais que leram material do meu site para ajudar uma criança e uma tarefa escolar ou que mostraram algum de meus textos para seus alunos.  Materiais assim permitem também um complemento escolar: a própria criança pode usar o material para complementar ou reforçar o que viu em sala de aula.

Ou seja, se você pretende ensinar algum conteúdo ao seu filho, saiba que você também terá que ser um estudante. E esse aprendizado é em tudo, não apenas no que tange à educação formal. Nós precisamos aprender sobre nós mesmos, nos autoconhecer e melhorar nossas virtudes para que possamos também ensinar essas “coisas da vida” a partir do exemplo.

Um educador, antes de qualquer coisa, deve ser uma pessoa humilde. O observe, aqui não falo apenas do educador profissional, o professor da escola. Pais também são educadores.

As exceções

Eu acredito que o convívio familiar é de extrema importância. Vamos aqui pensar em uma família que precisa sempre viajar, uma família de artistas circenses, por exemplo. As crianças dessa família não vão conseguir frequentar a mesma escola por muito tempo e eu acho que institucionalizar essas crianças ou colocá-las sob cuidados de familiares é algo fora de cogitação. Em um caso específico assim, talvez o homeschooling seja a solução.  Os órgãos competentes (Ministério da Educação, por exemplo) poderiam fornecer apostilas, material didático e outras diretrizes para que o homeschooling aconteça com sucesso.

Mas os movimentos de homeschooling, pelo menos a maioria deles pelo o que li, não estão lutando para que o homeschooling seja aplicável apenas em casos de exceção. Eles querem que seja acessível para todos. E eu tenho muitas críticas com relação a isso.

Protegendo os filhos da ‘doutrinação’ e más influências: os pais como doutrinadores

Nós não somos donos dos nossos filhos. É uma afirmação um tanto óbvia, porém esquecida por muitas pessoas. Seu filho não é você: seu dever é passar valores para ele, porém acho que também é nossa responsabilidade como pais permitir que a criança tenha uma vivência com pessoas e situações diferentes da do seio familiar.

Eu acho essa discussão bastante complicada. Porque quando estamos falando de anti-vaxxers, pais que tratam seus filhos com homeopatia, testemunhas de Jeová que impedem que as crianças recebam transfusão sanguínea,  dentre outras aberrações, é bastante claro que não estamos falando com pessoas de bom senso. Como lidar? Alguém precisa cuidar do bem estar das crianças. Um dos órgãos que cuida disso aqui no Brasil são os Conselhos Tutelares e os outros países tem órgãos com responsabilidades parecidas.

A questão é: onde fica o limite do que pode ser considerado cultura familiar? Como o Estado pode interferir nessas questões sem interferir nos valores daquela família? Podemos falar que trata-se de uma questão de bom senso, mas acredite: bom senso está em falta por aí! Eu sinceramente, não sei como resolver esse impasse.

Ocorre que muitos pais falam que querem educar seus filhos em casa pois querem protegê-lo de doutrinações ideológicas. Há todo um movimento chamado Escola sem Partido, por exemplo, que se preocupa com isso. Acho que trata-se de uma preocupação legítima e acho ótimo (para não dizer maravilhoso) ver pais se interessando pelo o que seus filhos aprendem na escola. No entanto, será certo educá-los em casa para evitar essa doutrinação? Além disso, não corre o risco dos pais acabarem doutrinando seus  filhos?

Acredito que a melhor solução são pais atentos ao que os filhos veem na escola e pais dispostos a lerem e aprenderem para ajudar a criança a construir sua própria identidade e suas próprias opiniões. O que vejo por aí são pessoas raivosas, que acabam se agrupando pela internet e parecem uma manada perdida. Estão insatisfeitos com o quadro atual, porém metem os pés pelas mãos ao proporem algo diferente.

Vou fazer um comentário a seguir e vai ser um rant. Vou até deixar destacado e eu sei que pessoas com boa vontade vão entender:

Eu estudei em uma boa universidade e sou uma pessoa culta. É claro que não sou nenhum gênio excepcional, mas eu sei que sou mais inteligente que a média para várias questões que envolvem o caráter lógico. Mesmo com essas características, eu digo para vocês: EU SERIA INCAPAZ DE EDUCAR MEU FILHO EM CASA. Eu não tenho formação pedagógica e eu sei que não tenho suficiente conhecimento em algumas áreas, como História o Literatura. Além disso, a escola proporciona uma convivência (falarei disso adiante, embora eu já tenha pincelado) que eu sozinha e até mesmo minha família toda somos incapaz de proporcionar.

Noto que há gente que não pode sequer ser considerada culta (não chega nem perto disso!) achando que pode educar seu filho em casa. Tomem vergonha nessas suas carinhas! Alguns dizem que a internet ajuda. Ajuda sim, amigo, mas você nem conhece fontes adequadas de pesquisa. Além disso, você está dessa maneira você está simplesmente ajudando seu filho a pesquisar, coisa que é seu papel como pai ou mãe.

Muitos dos defensores do homeschooling estão inclusive, ao meu ver, desvalorizando o trabalho do professor. Uma professora (seja uma pedagoga ou alguém com licenciatura em outra área) estudou pelo menos 4 anos para aprender a ensinar. Teve acesso a disciplinas organizadas de tal maneira a se concatenarem, fazerem sentido, para que ela pudesse ensinar o seu filho. Ou seja: se você não tem essa formação, você provavelmente não sabe fazer isso!  Claro que há profissionais ruins, como em qualquer área. Por isso você como pai/mãe tem que ter o constante trabalho de ficar de olho e de participar da vida escolar da criança.

A importância da convivência e conclusão

Isso me parece óbvio: na escola, a criança também aprende a conviver. Aprende noção de regras de vida em sociedade, como a de esperar a vez do outro. Em outras palavras, aprende noções de respeito. Claro que os pais tem que dar essas noções em casa, mas a vivência prática disso acontece na escola. A escola também oferece (ou deveria oferecer) uma infraestrutura para estimular as crianças que é muito difícil termos em casa.

Minha conclusão é de que o homeschooling só deveria ser empregado em casos muito específicos, como famílias de artistas circenses ou pessoas que morem em áreas muito isoladas, por exemplo. Não acho certo privar a criança do convívio com sua família, por isso acho que nesses casos específicos deveria haver uma maneira de permitir o homeschooling, porém apenas até certa idade (talvez até o Ensino Fundamental I, por exemplo? Não saberia dizer).

Mesmo crianças com deficiência tem o direito de participar da vida escolar. Justificativas para o homeschooling apenas para “evitar doutrinação” ou “evitar más influências” são bobagens. Em algum momento a criança precisará conviver na sociedade e a escola é uma excelente maneira de prepará-la para isso. Claro que não é a única maneira: o convívio com a vizinhança, com a igreja, com o clube, etc, também é importante. Entretanto, acredito que a escola é a principal maneira de convivência.