O sonho da razão engendra monstros



El Sueno De La Razon Produce Monstros, by Francisco Goya (1746-1828), 1868. – Los Caprichos. Cortesia de Shutterstock

Hoje nós vamos falar de arte sem necessariamente colocar meteorologia no contexto. Vou falar de uma série de gravuras de Goya que tive conhecimento recentemente, destacando principalmente a da imagem acima: O sonho da razão engendra monstros.  Essa gravura faz parte de uma série de 80 gravuras do pintor espanhol, que representa uma sátira à sociedade espanhola do século XIX, principalmente àqueles que estavam num estrato mais elevado da sociedade: a nobreza e o clero. A série foi intitulada Los Caprichos.

Na primeira metade apresentou as gravuras mais realistas e satíricos criticando à luz da razão o comportamento dos seus congêneres. Na segunda parte abandonou a racionalidade e representou gravuras fantásticas nas quais, mediante o absurdo, mostrou visões delirantes de seres estranhos {x}.

A gravura O sonho da razão engendra monstros é a de número 43. É a capa dessa série da gravuras e aqui o significado (pelo menos para mim) é muito interessante e claro e foi o que chamou minha atenção para escrever reflexões a respeito. Enquanto a razão dorme, os monstros aproveitam. E já pararam para refletir que é assim que acontece em nossas vidas? Diante de situações de stress ou nervosismo, quando a razão fica adormecida, as paixões e as fúrias podem ser despertadas. Acredito que temos de ser sempre vigilantes em nossas vidas, para não permitir que a razão durma e que os monstros “façam a festa”. Ok, talvez ela possa dormir só um pouquinho as vezes, tirar um breve cochilinho, porém com muita cautela. Eu ando preferindo que ela realmente nem durma, pois ela não precisa de descanso.

Quando vejo esses movimentos anticientíficos, como os negadores do aquecimento global, antivaxxers, homeopatia, cura por cristais e outras alegações fantásticas sem nenhuma evidência igualmente fantástica, fico pensando que a razão tem dormido bastante. E isso me preocupa. E quem como eu gosta de ciências e tenta eventualmente divulgar o conhecimento, acaba falhando em acordar a razão.

Recentemente o astrofísico e comunicador Neil deGrasse Tyson foi “entrevistado” pela Katy Perry. A Katy Perry é mais uma daquelas celebridades que não tem muito a oferecer em termos intelectuais, vamos ser honestas. Tudo bem, ela não tem a obrigação de oferecer qualquer coisa nesse sentido, apenas fiz uma constatação. Vi o vídeo da tal conversa entre os dois e fiquei encantada com a postura de Neil deGrasse Tyson. Ele maravilhou Katy Perry, tirou o véu de seus olhos e provavelmente ela saiu dessa conversa alguém mais curiosa. Ele não a humilhou por seu desconhecimento, inclusive soube começar uma conversa com ela, procurando pontos que eles tem em comum.

Eu não deixei de pensar em uma frase do genial Mario Sergio Cortella:

 O conhecimento serve para encantar as pessoas, não para humilhá-las.

E infelizmente, vejo muitos cientistas e divulgadores ainda com essa aura de arrogância e superioridade. Talvez até eu em algum texto aqui do blog deva ter agido assim e me desculpem por isso. Acreditem, as vezes não é intencional. Ocorre que a academia acaba encorajando alguns comportamentos nefastos, na minha opinião. A arrogância, por exemplo, é um deles. Quando você vive em uma bolha de pessoas que no mínimo sabe as mesmas coisas que você, você acaba perdendo noção da realidade. Quando comecei a conviver com pessoas de fora da academia, vi que o que era óbvio para mim não era nem um pouco óbvio para os outros. E claro, aqui me refiro à coisas relativas à minha área.

Concluindo, acho que se queremos acordar a razão e enxotar os monstros, a gente tem que agir com muito carinho e cuidado. É como acordar uma pessoa que você ama. Não vai chegar arrancando os cobertores, abrindo as janelas e fazendo balburdia. Temos que chegar com carinho, porém incisivamente. O Neil deGrasse Tyson foi um exemplo de postura, e sinceramente, não esperava algo diferente dele.