O tempo está passando mais rápido?

A persistência da memória, de Salvador Dalí (MoMA, NY). Esse quadro é provavelmente um dos mais conhecidos do Surrealismo e talvez um dos quadros mais conhecidos do século XX. É um quadro que nos faz refletir muito sobre o tempo e como trata-se de uma obra surrealista, na minha modesta opinião de não-especialista, é excepcionalmente aberto a interpretações pessoais bastante variadas. Como nesse post vou mencionar algumas obras de arte, decidi postá-lo na terça-feira, que é quando eu falo de Arte e Ciência.

Atualmente vivemos um fenômeno de excesso de informação. Conseguimos ler qualquer coisa pela internet com muita facilidade. E é qualquer coisa mesmo, nem sempre o que lemos tem boa qualidade. Na verdade, estamos vivendo um tempo em que a disseminação de desinformação e anticiência é geral, até porque o veículo da informação e da desinformação é o mesmo, a internet.

É como um Uber: James Randi ou Uri Geller podem pedir um Uber, pois não há nada que impeça um ou outro de solicitar o serviço. Eles podem até compartilhar um Uber, o que seria muito curioso.

O que quero dizer é que a anticiência pode pegar carona na divulgação científica de qualidade. Fazendo um cherry picking adequado, o divulgador de anticiência pode convencer seus leitores de que ele está falando algo verídico. Além disso, o público geral é analfabeto científico, então fica fácil empurrar conceitos errôneos para pessoas que tem base muito fraca (ou não tem).

Outro dia, em uma palestra, eu estava falando sobre a definição de frequência. Era necessário falar sobre essa definição pois eu falava sobre o Espectro Eletromagnético para meus interlocutores, público-geral que veio assistir a palestra. Durante a apresentação, um homem que se expressava muito bem veio me perguntar sobre Ressonância Schumann. Confesso que até aquele momento eu não fazia ideia do que esse termo se tratava e educadamente expliquei ao homem que eu não sabia o que era. Foi quando ele me disse que é o fenômeno que explica porque o tempo está passando mais rápido. Foi quando me acendeu uma luz de alerta:

Esse acontecimento então me fez pesquisar sobre Ressonância Schumann e já adianto que ela existe sim, mas não do jeito que os hippies-vendedores-de-cristais-nova-era divulgam. E eu já vou chegar lá. Mas antes a gente precisa definir o que é tempo e fazer algumas considerações.

Isso de que o tempo está “passando mais rápido” é apenas uma questão de percepção subjetiva

Nós utilizamos períodos naturais para medir o tempo: rotação da Terra em torno de si mesma (duração do dia) e translação da Terra em torno do Sol (duração do ano). E não existe nenhum tipo de variação nesses movimentos. Eles são bem estabelecidos e conhecidos desde a Antiguidade. Portanto, fisicamente o tempo não está passando mais rápido ou mais devagar, está tudo como sempre foi.

Agora em termos de percepção pessoal e subjetiva, isso depende muito. Depende da idade do indivíduo e de seu estilo de vida.  Para uma criança, o que aconteceu há um ano atrás parece que foi há muito tempo. Claro, para uma criança de 3 anos, 1 ano atrás corresponde a mais de 30%  deu sua vida. Eu estou na casa dos 30 anos, as vezes me pego lembrando vividamente de coisas da época da faculdade e quando me dou conta de que essas coisas aconteceram há mais de 10 anos, me dá um enorme assombro.

E claro, depende do estilo de vida de cada um porque uma pessoa que mora no campo, que depende da agricultura e tem acesso a poucas distrações eletrônicas, certamente não tem a impressão de que o tempo passa depressa. Pelo contrário, pode achar que tudo passa devagar: nada muda ao seu redor.

Porém, para um morador da cidade grande, que passa o dia inteiro dentro de um escritório e que depois vai para a academia,  para a faculdade e que passa o tempo todo conectado na internet por meio de um celular, o dia passa realmente muito rápido. Imagine só o dia inteiro cheio de ocupações sem conexão com os “ciclos naturais” (nascer e pôr-do-sol), dormindo tarde e dependendo de luz elétrica. Na minha opinião, isso “bagunça” a noção de tempo dentro da mente do sujeito. Além disso, as coisas ao seu redor estão em constantes mudanças. Veja em São Paulo-SP, por exemplo. Um estabelecimento comercial abre, fecha, muda de dono, muda de ramo. Uma obra nova, uma demolição, construção de uma nova estação de metrô, etc. Eu acredito (e aqui trata-se de minha opinião pessoal) que essas rápidas mudanças no ambiente ao redor favorecem nessa percepção de que o tempo está indo mais depressa.

Imagine aquele pai ou mãe que trabalham muito e pouco participam da vida de seus filhos. É evidente que em um momento esse pai/mãe vai olhar para o lado e se assustar ao ver o quanto o filho cresceu. Ou aquela pessoa tão desconectada com si mesma que de repente olha no espelho e nota que envelheceu. Embora esse assombro ao notar o passar dos anos e ao perceber a inexorabilidade do tempo seja uma percepção comum e antiga, eternizada por meio da arte de diversas formas, eu acredito que a maneira com que vivemos hoje está amplificando e generalizado esse sentimento.

Time waits for nobody
Time waits for nobody
We all must plan our hopes together
Or we’ll have no more future at all
Time waits for nobody
Queen – Time

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não pára
Cazuza – O Tempo Não Para

Vaidade terrena e Salvação Divina, de Hans Memling. No período barroco, o memento mori (a certeza da morte) era tema recorrente na arte. Na minha opinião, isso pode ser traduzido também como a implacabilidade do tempo, um ‘sujeito’ cruel que não espera ninguém.

Além desses pontos apresentados, ainda tem aquela questão de que a percepção do tempo passar rápido ou devagar vai depender da qualidade daquele momento. Pessoas que passam por experiências traumáticas, como um assalto, vão te dizer que o tempo que passaram diante da mira das armas do assaltante foi uma eternidade. No entanto, se câmeras de segurança gravaram a cena, essas pessoas podem ficar surpresas ao constatarem que aquele momento durou apena 10 segundos. Por outro lado, experiências positivas (um passeio agradável ou uma viagem) podem parecer que duraram pouco, pois sempre queremos mais um pouco daquele momento.

Ou seja, nosso cérebro nos ‘engana’ o tempo todo e definitivamente ele é um péssimo relógio. A passagem do tempo, para nosso cérebro, parece ser uma questão de percepção e de ponto de vista, dependendo do evento.

Analogia: temperatura x sensação térmica

Vou até fazer uma analogia desse tema com definições que usamos muito em Meteorologia: temperatura e sensação térmica. A primeira é uma grandeza física que pode ser medida usando um termômetro e reflete o grau de agitação das moléculas de ar (ou de qualquer outro meio, mas aqui estamos falando de Meteorologia). Já a sensação térmica é uma SENSAÇÃO, que vai depender da temperatura medida, mas também vai depender do vento, umidade relativa, nebulosidade, idade do indivíduo, características particulares de cada indivíduo, espécie do indivíduo (humanos e diferentes tipos de animais tem sensações térmicas diferentes), saúde do indivíduo, etc. Embora a gente possa calcular a sensação térmica empiricamente usando alguns índices, não chegaremos em um valor universal e definitivo já que seu cálculo depende de muitas questões subjetivas e co-dependentes. Ou seja, haverá ocasiões em que uma pessoa considerada friorenta estará toda agasalhada e ao mesmo tempo e no mesmo local haverá um outro indivíduo usando shorts e regata, já que tratam-se de indivíduos diferentes.

Ou seja, podemos medir o tempo, já que conhecemos muito bem os ciclos naturais que determinam o tempo. Mas não podemos medir a sensação de que o tempo está passando mais rápido ou mais devagar, já que por se tratar de uma sensação, é algo único.

Acho que o recado principal aqui é que para entender alguns conceitos, precisamos nos despir de todo egocentrismo. Temos esse costume de querer medir o mundo ao nosso redor com todas as nossas réguas, quando na verdade as pessoas muitas vezes tem percepções e opiniões diferentes sobre o mesmo tema. Depois que deixamos um pouquinho de lado o egocentrismo, fica mais fácil compreender que o objetivo da ciência é buscar bases “universais”, ou seja, conceitos e definições que podem ser aplicados e que funcionam em qualquer lugar do mundo, independentemente da religião ou cultura do local. Em outras palavras, conceitos como o de tempo e o de temperatura são universais, embora os conceitos de “sensação de que o tempo está passando pais rápido” e “sensação térmica” sejam conceitos mais pessoais e subjetivos. Porém, mesmo sendo conceitos pessoais e subjetivos, podemos estudá-los para entender o que faz as pessoas terem essa ou aquela percepção.

Afinal, o que é Ressonância Schumann?

Essa eu realmente tive que pesquisar. Li bastante coisa (deixo todos os links abaixo, na Bibliografia e também ao longo do texto). Em primeiro lugar, vamos explicar o que é ressonância. Bom, eu vou tentar explicar. Se algum colega puder explicar melhor e se algum amigo físico notar que eu falei alguma bobagem ou imprecisão, me avise nos comentários.

Gosto sempre de deixar super claro que eu não me importo em ser criticada de maneira educada e de maneira que acrescente no conteúdo. E felizmente tenho ótimos leitores que sempre fazem ótimas colocações e críticas super construtivas.

Vamos imaginar algo que vibre periodicamente. Uma corda, por exemplo. E essa corda vibra sempre com a mesma frequência, resultando numa amplitude de vibração constante. Agora vamos supor que eu estimule a corda dando um chacoalhão (manualmente ou com uma máquina). Ou seja, um estímulo esterno. E vamos supor que esse chacoalhão seja dado na mesma frequência de vibração que a corda vibrava inicialmente. Isso vai fazer com que a corda vibre de modo a aumentar cada vez mais a sua amplitude de vibração. O nome desse fenômeno é ressonância e essa frequência característica ‘natural’ da corda é chamada de frequência de ressonância. A ressonância acontece tanto em ondas mecânicas (como o caso da corda ou como o deslocamento de uma massa de ar, por exemplo) quanto em ondas eletromagnéticas (luz).

Oscilação forçada: quando a força externa é contínua e periódica e possui a mesma frequência da oscilação livre do sistema, haverá um efeito de ressonância que aumentará a amplitude do deslocamento do bloco. Fonte: Wikimedia Commons

Agora que compreendemos a definição de ressonância, acho que fica mais tranquilo seguir adiante. Vamos pensar no nosso planeta: o espaço entre a superfície da Terra e a ionosfera consiste em um caminho fechado que chamaremos de guia de ondas. As dimensões limitadas do nosso planeta fazem com que esse espaço entre a superfície da Terra e a ionosfera aja como uma cavidade de ressonância para ondas eletromagnéticas de baixas frequências, que na literatura são chamadas de ELF (extremely low frequencies), que estão entre 3 Hz e 60Hz. Por isso, na literatura muitas vezes fala-se em “ressonâncias Schumann”, já que a ressonância pode acontecer em diversos valores entre essa faixa de 3Hz e 60Hz.

Os relâmpagos que ocorrem no planeta atuam como a principal fonte destas ondas ELF, na faixa estabelecida acima. Deste modo, um aumento da atividade global de relâmpagos também poderia ser monitorado por meio do monitoramento da intensidade da radiação existente no guia de onda formado pela Terra e a ionosfera nas frequências de Schumann. {x}

Por essa peculiaridade, a Ressonância Schumann é de interesse quase que exclusivo dos meteorologistas, que as usam para monitorar de maneira indireta o nível global de incidência de descargas elétricas na atmosfera {x}.

Dessa maneira, entendi porque o senhor que assistiu minha palestra pensou que eu soubesse alguma coisa sobre esse fenômeno, pois ele tem aplicações na minha área. No entanto, não sou especializada em Eletricidade Atmosférica, embora eu tenha feito uma disciplina optativa nessa área. Infelizmente, se eu vi esse tema nessa disciplina, eu não me lembro dele. Bom, a conversa com ele despertou meu interesse e pesquisar a respeito, o que é ótimo.

Na imagem abaixo, uma animação didática mostrando um modelo de propagação de ELF na atmosfera e a consequente ressonância Schumann.

Ressonância Schumann e pseudociência.

Como as frequências de ressonância Schumann são definidas pelas dimensões da Terra, muitos proponentes da Nova Era e defensores da medicina alternativa têm vindo a considerar as frequências de ressonância Schumann como uma espécie de “frequência da Mãe Terra”, afirmando a crença de que o fenômeno está relacionado com a vida na Terra.

A mais difundida de todas as ficções populares que cercam a ressonância Schumann é a que a correlaciona com a saúde do corpo humano. Há um grande número de produtos e serviços vendidos para melhorar a saúde ou humor, citando a ressonância Schumann como a ciência fundamental.

Muitos comerciantes de jóias terapêuticas falam de benefícios e citam a ressonância Schumann como “a ciência por trás de sua suposta eficácia”, pois alegam que essas jóias vibram nas frequências de ressonância Schumann. Aqui no Brasil não cheguei a ver tais jóias, mas há sites internacionais que as vendem.  De acordo com alguns fabricantes, “quando a pulseira é colocado dentro do campo de energia natural do corpo, a ressonância iria “redefinir” o seu campo de energia para essa frequência”, fazendo com que de alguma forma você ficasse em “harmonia com a Terra”. É preciso considerar que 7,83 Hz (a frequência do primeiro modo de ressonância Schumann) tem um comprimento de onda de cerca de 38000 km. Não há nenhuma coisa tão pequena quanto uma jóia que possa ter essa frequência de ressonância. E o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao corpo humano: nosso corpo é pequeno quando comparado a 38000km.

Quando comecei a pesquisa a respeito de pseudociência e Ressonância Schumann eu fui atrás dessa história de que o fenômeno teria relação com o “tempo indo mais depressa”. Curiosamente, acabei encontrando essa historia de joias e outros materiais que supostamente vibrariam a essa frequência.

Alguns ainda alegam que o “campo de energia do corpo humano” poderia ser influenciado pelas frequências de ressonância Schumann. Corpos humanos não têm um campo de energia, de fato não há sequer qualquer coisa como um campo de energia. Os ‘campos’ de energia são construções em alguma direção ou intensidade é em cada ponto medido: a gravidade, vento, magnetismo (campo magnético da Terra, a magnetosfera),etc. Energia é apenas uma medida: ela não existe por ‘si mesma’, como uma nuvem ou um campo.

Há uma enorme confusão na definição de energia. O que percebo, ao meu ver, é que confundem o termo energia usado de maneira popular com o termo científico. É comum dizermos por exemplo que estamos sem energia, porque estamos exaustos. Ou dizermos que uma criança é cheia de energia, porque ela é ativa. Essa energia nada tem a ver com o conceito físico de energia.

Outra coisa: não há nenhuma evidência de que as ressonâncias Schumann estejam afetando na duração do dia ou do ano. Ou seja, elas não tem impacto suficiente para afetar os movimentos de rotação e translação. Dessa maneira, elas não afetam na duração do tempo.

 

Concluindo

Quando comecei minha pesquisa, eu não imaginava que existiam ‘jóias’ ou ‘produtos’ que alegavam vibrar nas frequências de ressonância Schumann. Entretanto, não fiquei surpresa quando descobri e decidi falar sobre isso no texto. Penso que caso essas coisas comecem a aparecer no Brasil, esse texto pode ser um ponto de partida para quem queira se informar a respeito.

É evidente que essa jóia é mais uma maneira encontrada pelos charlatães para ganhar dinheiro, por isso não me surpreendo. A desinformação é uma enorme fonte de renda: consultas com videntes e outros ‘mestres psíquicos’, algumas igrejas que prometem curas e milagres financeiros mediante doações milagrosas, venda de produtos que possuem fantásticas alegações de cura e melhoria da saúde, etc.

Nomes aparentemente pomposos de fenômenos físicos banais (como ressonância Schumann) chamam a atenção, algumas pessoas agregam credibilidade quando algo carrega nomes estrangeiros ou palavras pouco usadas. Há anos atrás falei sobre a placa energética púrpura e a jarra azul, vendidas por aí e que prometiam benefícios para a saúde e é evidente que não há nada comprovado para nenhum dos casos, porém o nome placa energética púrpura (roxa não, púrpura!) chama a atenção. O vendedor chega com aquela conversa de convencimento que só quem trabalha com vendas tem, apresentando em seu discurso palavras pomposas e assertividade, claro que o público em geral que não possui muito conhecimento cientifico acaba se interessando pela ideia.

Interessante aproveitar o post para falar também como algumas coisas são vendidas como benéficas e tem em seus nomes a origem dessas coisas, para garantir que trata-se de algo exclusivo ou de uma “sabedoria oculta” que saiu de uma localidade remota ou notória e chegou até aqui. Exemplos: dieta de Beverly Hills (aquelas celebridades, tão magras, agora sabemos seu segredo), sal rosa do Himalaia (aqueles monges, tão saudáveis), colar de âmbar do Báltico (aquelas crianças com bochechas rosadas), etc. Quando vejo algo com a designação geográfica tão ressaltada, fico também super alerta, pois pode tratar-se de pseudociência.

Portanto, palavras pomposas, termos pouco conhecidos pelo público, nomes estrangeiros e origens remotas podem ser um alerta para a pseudociência!

A ressonância Schumann é de interesse quase que exclusivo de meteorologistas e físicos que estudam descargas atmosféricas. Entretanto, algum charlatão aparentemente gostou do nome e misturou com toda essa ‘maluquice’ da Nova Era. E deu nisso: gente ganhando dinheiro com coisas desnecessárias.

Agora eu fico também imaginando que como o fenômeno ocorre devido a presença de nossa ionosfera (como expliquei anteriormente no texto), que junto com a superfície da Terra atuam como um ‘caminho’ por onde as ondas podem se propagar, fico pensando também que alguns adeptos e criadores de teorias da conspiração possam misturar esse fenômeno com as pesquisas feitas pelo HAARP. Prato cheio para conspiracionistas!

Se você acha que sua vida está passando rápido de mais, provavelmente é você é quem deva desacelerar. Faça passeios ao ar livre, reduza a quantidade de atividades que realiza diariamente, evite atividades repetitivas e que você pouco interaja (como assistir TV ou ficar muito tempo na internet). Você então notará uma mudança e uma reconexão com os ciclos naturais. E quando falo em “reconectar com ciclos naturais” não estou falando aqui de coisas místicas ou do tipo. Eu me refiro a desacelerar para melhor sentir a natureza e eu acredito que todos nós devamos passar por esse processo de parar, respirar e observar.

 

Bibliografia