Para quem você produz conteúdo?



Você que produz conteúdo para a internet, principalmente conteúdo de divulgação científica, já parou para pensar quem são os consumidores desse conteúdo? Eu estive pensando nisso nos últimos dias.

Cortesia de Shutterstock

Sei que há ferramentas ou maneiras indiretas de saber quem consome aquilo que é publicado. Quem tem um canal Youtube ou um blog acaba sabendo de algumas coisas empiricamente, através dos comentários.

Eu escrevo um blog, o Meteorópole, que está no ar desde 2012 e eu não ligo muito para números. Veja bem, claro que eu quero audiência, mas eu não fico vendo os indicadores de audiência o tempo todo. A Jaqueline (minha amiga e parceira, que cuida do layout hospedagem do blog) outro dia mencionou um número e que segundo sua experiência, é um número significativo para um blog como o meu. Ela inclusive disse que alguns blogs “famosos” não tem a mesma visibilidade. Eu sou tão desligada com isso que eu nem lembro qual era o número.

Bom, vamos falar dessa experiência empírica com os comentários do meu blog. Eu categorizei os comentários da seguinte maneira (em ordem de relevância e quantidade):

1) comentários legais (elogios, críticas construtivas, adendos ao post, dicas de leitura adicional, etc): esses são a maioria dos comentários que recebo.

2) gente procurando respostas para a lição de casa: isso mesmo, tem gente que faz perguntas que claramente vieram de sua lição de casa e esperam encontrar a resposta prontinha apenas esperando ser copiada e colada.

3) malucos da teoria da conspiração: sim, eles aparecem. São os negacionistas da ciência, gente que acha que o aquecimento global não está acontecendo, que a Terra é plana, etc. Muitos negacionistas até são educados, mas tem aqueles que também estão na categoria de ‘gente grosseira’.

4) gente grosseira que não gosta de ser contrariada (e quer que o mundo tenha sua mesma opinião)

O que eu percebo, pelo menos aparentemente, é que a maioria das pessoas que chega até meu blog já esperava encontrar o tipo de informação que eu publico aqui. Seja porque corresponde ao conteúdo da lição de casa ou do TCC, por exemplo. Ou porque elas se identificam com o que escrevo sobre minhas experiências pessoais e opiniões. Muitos dos meus leitores gostam muito de divulgação científica. Em outras palavras, aqui no Meteorópole esses queridos leitores encontram quase que exatamente o que estavam procurando.

Agora vamos fazer um recorte e falar especificamente de textos de divulgação científica onde me posiciono de maneira clara e contrária à divulgação anticientífica. Um caso emblemático e bastante recente em minha vivência é um texto sobre a “teoria” da Terra Plana. Pois bem, a maioria daqueles que leram o texto em questão certamente concorda que a ideia de uma Terra Plana é absurda. Entretanto, recebi um comentário maluco (categoria 3 das listadas acima). Ou seja, para um sujeito que por alguma razão decidiu enfiar na cabeça que a Terra é plana, sinceramente não há o que fazer. Intervenção, talvez.

Talvez eu mostre uma face totalmente pessimista no que vou afirmar, mas às vezes acho que material de divulgação científica (livros, textos em blogs, revistas, vídeos para o YouTube) interessam mais àqueles que já gostam de ciência. Não há nada de errado nisso, adoro dialogar com quem gosta de ciência. No entanto, eu (assim como a maioria dos produtores de conteúdo nessa linha) gostaria de atingir quem tem ideias anticientíficas. Não sejamos hipócritas: acho que a maioria das pessoas gostaria de mudar o mundo. Sim, a gente quer vender nossa “filosofia de vida”. Eu apenas me pergunto como tornar isso possível ser ser inconveniente e me assemelhar a uma religiosa.

Claro que eu escrevo algumas coisas com o objetivo de transformar a mente daqueles que acham que a Terra é plana ou que vacinas são desnecessárias. Ocorre que eu duvido que uma pessoa que já esteja entranhada nas ideias anticientíficas realmente leia algum texto de divulgação científica com boa vontade. Esse sujeito vai ler apenas material de pessoas que concordam com seus pontos de vista. Uma pessoa dessas é inclusive capaz inclusive de me criticar antes mesmo de ler meu texto, apelando para argumentos ad hominem. Certamente vão dizer que sou burra e feia ou coisa do tipo. Eu já passei por isso, assim como tantos outros produtores de conteúdo.

Eu não domino a arte do convencimento e pensando bem, eu não gostaria de convencer ninguém. Esse negócio de convencer alguém me soa algo do tipo líder religioso e eu não acho isso legal. Mas sim, eu gostaria de ajudar a transformar a vida de uma pessoa que está obtendo desinformação, que acredita em qualquer coisa que lê. Eu gostaria que o blog fosse um ponto de partida. Gostaria que as pessoas lessem e questionassem o que escrevi, debatessem ideias. E buscassem mais informação a respeito daquele tema, sempre procurando informações de qualidade. Como mencionei nesse post recente, eu gostaria de maravilhar as pessoas. E sem dúvidas, pessoas que dentre outras qualidades são encantadoramente gentis e educadas como o Neil DeGrasse Tyson são uma inspiração para mim.

A questão é que pela minha experiência, como mencionei anteriormente no texto, acho que quem acessa meu blog já tem uma ideia do que é ciência e muitos dos meus leitores inclusive são especialistas em várias áreas e me ensinam muitas coisas. Vários leitores queridos como a  Jaqueline, Sybylla, o Vinícius e o Humberto já me deram ideias para posts e através dos escritos deles e através de conversas. Essa troca de ideias com amigos é maravilhosa, mas eu me pergunto: será que eu estou transformando a vida de alguém que antes era ávido consumidor de pseudociência e hoje está transformando sua vida? Será que meu conteúdo chega a outras pessoas que não são meus amigos e/ou leitores que já gostam de ciências ? Infelizmente tenho minhas dúvidas.

Relato Pessoal

Vou aproveitar para contar um pouco de minha experiência com a pseudociência. Eu sempre fui muito curiosa, desde pequena. Eu lia enciclopédias, livros e revistas de divulgação científica. Gostava de quadros do Fantástico que falavam de ciência. Apesar de frequentar igrejas desde criança, até uns 18 anos as questões decorrentes disso não atormentavam minha mente. Provavelmente porque minha experiência com religião estava mais na base da “experiência pessoal”, já que por muito tempo eu frequentei igrejas pentecostais e a gente estuda pouco da bíblia nas igrejas em que se canta e ora em demasia.

Foi quando percebi que as experiências nessas igrejas já não me contemplavam mais e decidi procurar uma igreja protestante tradicional, igual a que eu frequentava quando era criança. Eu queria estudar a bíblia, o que é feito de maneira muito séria nas igrejas mais tradicionais. E foi quando eu me envolvi com pseudociência, especificamente com o Criacionismo. Lembro que fui a duas palestras do Adauto Lourenço, tirei cópia do livro de uma amiga que tratava do assunto (o livro em questão era E disse Deus…, de Farid Abou-Rahme, um clássico do Criacionismo), comecei a estudar sobre o assunto com o material escasso que havia na internet. Até moderadora de grupo no Orkut sobre Criacionismo eu já fui.

Eu já estava na faculdade e vocês me perguntam: como você caiu nisso? Pois imagine uma pessoa com crise existencial, que em seguida saiu de um relacionamento abusivo e ruim e que queria agradar a família de qualquer jeito (e por família, entendam aqui principalmente tios, tias, avó, primas…). Muitos talvez não entendam, mas eu sou muito próxima de minha família “estendida”, eu os amo muito. Eu achava que nada que eu fazia para agradá-los era o suficiente: sempre fui a melhor aluna, passei num importante vestibular, sempre tentei agir de maneira correta, etc. Sempre tentei tratar os outros com cortesia e carinho, claro que como qualquer ser humano eu falhei nisso em diversas ocasiões.

Infelizmente eu sempre tive a impressão horrível de ser julgada por estar namorando ou por deixar de frequentar a igreja. E eu acreditava que se eu quisesse ser igual a eles, eu precisava dançar conforme a música perfeitamente, com todos os passos certinhos. Eu achava que para ser aceita, eu precisava ser cristã, protestante, criacionista, etc. Tudo direitinho.

Eu tentei. Juro que tentei. Quando mais eu lia, mais eu percebia o tipo de incoerência na qual eu estava me metendo, apenas para ser aceita. No final percebi que eu não ia ser aceita nunca, que provavelmente eu teria que amá-los (e eu os amo) e esperar otimisticamente  pela aceitação deles e entender que talvez essa aceitação nunca viria. Percebi que eu não poderia levantar certas discussões com alguns primos e tios, pois jamais me entenderiam.

Foi assim que a minha febre criacionista passou, felizmente. Foi uma febre breve, deve ter durado 1 ou 2 anos. Mas passou. Eu estava tentando enganar a mim mesma para assim conseguir enganar os outros. O engano começa dentro da gente.

Eu já tinha essa curiosidade desde criança pelas coisas relacionadas às Ciências Naturais, História, Sociologia, etc. Por isso, eu não consegui ser Criacionista. Não deu certo pra mim. Pensei que um dia talvez a igreja Presbiteriana (igreja que minha família frequenta) fosse compreender que a bíblia não pode ser interpretada de maneira literal. Não podemos sequer dizer que há uma coerência entre Antigo Testamento e Novo Testamento. Não há coerência nem dentro do Novo Testamento. Mas eles não querem abrir mão disso. Porque dizer que o Gênesis é um livro que não pode ser tido ao pé da letra talvez abra precedentes para questionarem outras histórias e dogmas, penso que essa é a explicação. Você pode trazer qualquer evidência histórica, arqueológica, biológica, meteorológica, geológica, etc: o sujeito está disposto a acreditar no dogma e morrer por ele, não vai deixar de acreditar.

No começo de 2017 achei que eu poderia frequentar a igreja novamente, com o objetivo de matricular meu filho na Escola Dominical. Eu guardo lindas lembranças da Escola Dominical, pensei que eu pudesse transmitir o mesmo para ele. Foi quando decidi assistir um culto e o pastor fez uma pregação Criacionista do início ao fim. Passaram-se mais de 15 anos desde minha experiência com o Criacionismo e notei que isso piorou! A igreja tem experimentado um enorme medo do novo e do pós-moderno e acredito que esse seja um medo geral na sociedade, mas na igreja ele é amplificado. E o medo do novo faz com que os valores antigos sejam retomados com certa nostalgia. Então observei falas bem retrógradas, que culpam as mulheres que trabalham fora de casa, que critica pessoas apenas por suas orientações sexuais, que criticam a Ciência, que generalizam negativamente todos os políticos de esquerda, etc. Isso tudo me deixou com medo e percebi que não quero ser parte disso.

Claro, há gente bem intencionada e com um coração enorme dentro da igreja. Eu mesma tenho a felicidade de conhecer pessoas assim. No entanto, essa minha curiosidade pelo conhecimento fez com que eu me afastasse do ambiente eclesiástico. Alguns infelizmente interpretam errado, pois acham que eu me afastei de Deus. E não se trata disso.

Também questiono muitas coisas da pós-modernidade com as quais não concordo (ou que simplesmente ainda não sei o que opinar, pois tudo é muito rápido). Mas eu quero questionar, debater e até ignorar. Não quero apenas rechaçar, como fazem nas igrejas.

Tá, o que minha história tem a ver com isso?

Eu tenho a impressão que apenas quem teve contato com ciência desde pequeno vai conseguir filtrar tudo o que ouve, podendo classificar algumas coisas como desinformação e pseudociência. Eu fui uma criança muito estimulada quando era criança, meus pais sempre me incentivaram.

Costumo dizer que o jeito que sou ‘me faz sofrer’. Isso daria um texto enorme, mas guardo essas coisas para seções de análise. Eu prefiro esquecer esse ‘sofrimento’ no dia a dia e simplesmente viver.  Aprendi a viver com isso e não espero a simpatia de ninguém com relação às minhas angústias, isso é algo que eu preciso resolver.

Eu gostaria que minha família estendida gostasse de mim do jeito que sou sem a necessidade de máscaras. Também gostaria que eles considerassem alguns conceitos e aprendessem a ver beleza do conhecimento científico. Mas tudo bem, não quero transformar isso em um cabo de guerra, onde eles me empurram a bíblia e eu empurro a Ciência, pois não acho que esse seja o caminho.

O que sei é que procuro ensinar para o meu filho tudo aquilo de belo que vi na igreja: a crença na união e na irmandade. A crença de que temos Jesus como nosso mestre. Mas eu procuro mostrar para ele a beleza da Ciência, pois quero que ele se maravilhe.

Infelizmente, meu pessimismo persiste. Acho difícil que um adulto,  que não foi exposto à Ciência quando criança, mude de opinião. Quem mergulha em teorias da conspiração parece tender a afundar cada vez mais nesse lamaçal de desinformação. A mudança de opinião no entanto não é impossível e acho que o caminho justamente está no carisma, na humildade, na acessibilidade e no respeito demostrando por divulgadores científicos como o Neil DeGrasse Tyson ou até mesmo como o Pirulla (usando um exemplo bem local, brasileiro). O Pirulla é educado e explica super bem. A educação e o respeito com o próximo são facilmente observáveis principalmente quando o Pirulla participa de vídeos em outros canais. Temos que maravilhar as pessoas com o conhecimento e nunca humilhá-las. Já chega de divulgador de ciência arrogante, que se acha o ‘suprassumo’ e humilha quem tem dúvidas ou questionamentos honestos e educados.