Star Trek – Voyager e a Fundação Cacique Cobra Coral

Esse será mais um daqueles posts em que eu apresento minhas teorias malucas, mas que fazem todo sentido na minha cabeça. Como eu nunca tive vergonha de PASSAR POR MALUCA, venho compartilhar um pouco com vocês.

Os povos indígenas são desrespeitados de todas as maneiras desde que os europeus chegaram no Continente Americano. Após seu quase total extermínio, ainda tem suas crenças, sua cultura e seu estilo de vida constantemente desrespeitados. Cortesia de Shutterstock

Em primeiro lugar, não pretendo com esse post desrespeitar nenhuma etnia indígena ou as crenças desses povos. Tenho um profundo respeito pelos povos indígenas e se eu fizer algum comentário inadequado, peço que meus leitores me avisem para que eu possa aprender mais e me retratar.

Pois então, se você é meteorologista já deve ter ouvido falar da tal fundação esotérico-científica chamada Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC). Eu falo com mais detalhes sobre essa fundação nesse post, mas resumidamente, eles misturam mediunidade com Meteorologia e prometem absurdos como ‘desviar frentes frias’. Pseudociência pura e simples.

Apenas para contextualizar e tornar a questão mais direta para quem não tem familiaridade com Meteorologia, vou fazer um paralelo com a Medicina. Alguns dos tópicos anticientíficos com os quais os profissionais da medicina estão familiarizados são: anti-vaxxers, pessoas que dizem que o vírus do HIV não existe, homeopatia, quiropraxia, dentre outros. Já os tópicos anticientíficos com os quais os meteorologistas estão familiarizados são: negadores do aquecimento global, teorias da conspiração envolvendo o HAARP, no caso do Brasil temos a FCCC, dentre outros temas.

Acho que fazendo esse paralelo, consigo mostrar para vocês a “importância anticientífica” da FCCC. Bom, há uma ou várias pessoas na FCCC que afirmam ter poderes de mediunidade e que através desse poder, conseguem obter contato com o espírito de um indígena americano (não sei qual povo indígena e nem sei dizer se seria de algum povo indígena que habita ou habitou o território brasileiro especificamente). Esse espírito possibilitaria um certo controle (?) das condições meteorológicas,  de modo que ele pudesse intervir na ocorrência de fenômenos extremos. O nome desse indígena seria Cacique Cobra Coral, daí o nome da fundação.

Imagem que ilustra o site da FCCC, com uma ilustração representando o rosto do Cacique Cobra Coral (?).

Bom, agora vamos viajar na maionese, algo que adoro fazer. Eu adoro Star Trek e alguns de meus leitores já sabem disso. Uma série dos anos 1990 que assisti pouco foi a Star Trek – Voyager. Acho que foi porque logo em seguida nós paramos de assinar TV a cabo (rios de dinheiro!). Eu lembro que entre 1995 e 2002 (por aí), assisti Star Trek: TNG e Star Trek: DS9, além da série clássica (que eu já assistia quando era criança).

No início dos anos 200 eu ingressei na Universidade e não tinha muito tempo para me dedicar à minha franquia favorita. Cheguei até a baixar alguns episódios via torrent, mas a internet era super lenta e eu realmente não tinha tempo. Como atualmente todas as série da franquia Star Trek são disponibilizadas no Netflix, ficou fácil assistir.

Estava eu toda tranquila no meu sofá assistindo as peripécias de Capitã Janeway e sua turma quando assisto o episódio Tattoo, que é o nono episódio da segunda temporada. O episódio nos conta parte da história do Comandante Chakotay e vou resumir simplificadamente, até porque nem todos meus leitores são trekkers.

Chakotay é descendente de um grupo de nativos americanos que optaram por imigrar para um planeta da Federação na fronteira cardassiana. Apesar de imigrarem para outro planeta, eles continuaram seguindo os ideais de seus antepassados. Quando Chakotay era adolescente, ele viaja com o pai para a América Central, na Terra, em uma expedição para conhecer seus primos (indígenas que compartilham o mesmo antepassado, porém não imigraram para outro planeta). Quando o pai de Chakotay encontra os primos, há em um primeiro momento um estranhamento. Porém ao perceberem que falam a mesma língua e reconhecem o mesmo símbolo, são todos bem recebidos. Chakotay tem dificuldade de aceitar as crenças de seu grupo e seu pai fica decepcionado, embora sempre o tenha encorajado a estudar sobre outras culturas. Nosso personagem acaba entrando para a Frota Estelar e passa a ter um relacionamento distante com seu pai, embora após a morte do mesmo, Chakotay passe a lutar a mesma luta do pai (tornou-se um rebelde do grupo dos Maquis, para defender o seu planeta) e inclusive passa a usar a tatuagem característica que o pai usava em celebrações com seus primos, como uma maneira de honrá-lo.

 

Sim, ele é muito gato

Perdido no Quadrante Gama e fazendo parte da tripulação da Capitã Janeway, acabam encontrando um planeta que possui recursos naturais que podem ajudá-los em sua volta para casa. Chakotay no entanto acaba encontrando os descendentes de seus antepassados: seres alienígenas que visitaram a Terra numa das eras glaciais e encorajaram os humanos que tinham profundo respeito pela terra a atravessar o Estreito de Bering, de modo a se deslocarem cada vez mais para as proximidades da região equatorial, dando origem assim aos nativos americanos.  Chakotay e seus “primos distantes alienígenas” se reconhecem pelo idioma (embora Chakotay saiba pouco), por um símbolo característico e pela tatuagem.

Ao longo de boa parte do episódio, antes de encontrar seus primos alienígenas, Chakotay tem essa mesma visão várias vezes:

Visão do Chakotay (veja aqui o trailer do episódio Tattoo).

E a tripulação da Voyager tem dificuldade de usar o teletransporte, pois a cada acionamento do mecanismo surge uma tempestade no planeta. A própria  Voyager é “engolida” por um ciclone. Chakotay, ao entrar em uma caverna, precisa desviar de descargas atmosféricas. Alferes Kim e o Tenente Comandante Tuvok ficam confusos com os dados meteorológicos estranhos do planeta: as oscilações são muito grandes e eles tem dificuldades de prever o tempo do local. Quem “manda” nas condições meteorológicas do planeta são esses alienígenas que são primos distantes de Chakotay. E eles criam essas condições meteorológicas extremas para proteger o seu mundo.

Ou seja: o Cacique Cobra Coral é um alienígena!

Fui investigar e descobri que há notícias das supostas peripécias meteorológicas da FCCC desde os anos 1990. O episódio Tattoo foi ao ar em 6 de novembro de 1995 nos EUA (possivelmente, um pouco depois aqui no Brasil). Eu gostaria de acreditar que existe um roteirista da série que estava e viagem pelo Brasil e ficou sabendo da FCCC. Ou que um brasileiro entediado viu o episódio em questão e decidiu inspirar-se nele para criar uma instituição que transformou minha profissão em motivo de chacota. Mas a verdade é que a explicação é evidentemente muito mais simples e muito mais sem graça.

Uma das artimanhas do charlatanismo é usar de supostos ‘conhecimentos ancestrais perdidos’. Muitos charlatães utilizam-se dessa artimanha, como os tais canalizadores, charlatães que fizeram muito sucesso décadas atrás (e vez ou outra ainda aparece algum que alega certos poderes). O próprio James Randi organizou uma enorme pegadinha, que envolveu seu amigo (que hoje é seu marido) José Alvarez. Alvarez se fez passar por um canalizador chamado Carlos, que conseguia receber um espírito de vários milênios de idade. Randi e Carlos conseguiram enganar muitas pessoas na Austrália, com aparições de ‘Carlos’ em programas de TV e em teatros. Para saber mais sobre essa pegadinha proposta por Randi, recomendo que vocês assistam o excelente documentário que menciono nesse post.

O canalizador (ou médium, profeta, etc: o nome não importa de fato) é um indivíduo que afirma receber um espírito ancestral. Ele pode dizer que esse espírito viveu em ouros planetas, que era membro proeminente de uma civilização extinta, que viveu na Atlântida, etc. Na verdade, observo que quanto mais exótica e inverificável a origem desse espírito, mas credibilidade (?) e sabedoria (?) ele tem.

Além disso, as crenças indígenas tem uma forte ligação com a natureza. Muitos povos em diversas partes do continente acreditaram que podiam mudar as condições meteorológicas, seja através de danças rituais ou sacrifícios. Essa ligação com a natureza é um fato bastante óbvio, até porque muitos desses povos eram (e ainda hoje são) caçadores e coletores e dessa maneira dependem da natureza para sobreviver.

Sendo assim, o ‘fenômeno’ Cacique Cobra Coral é uma mera consequência da união desses pontos apresentados. Há sim quem acredite e até quem contrate os serviços dessa instituição, que inclusive já fez convênios com setores do governo.

E há algo muito perverso na FCCC, ao meu ver. Eles contam com ao menos um meteorologista nessa fundação. E pelo o que sei, é um meteorologista muito experiente e muito bom. É evidente que as previsões e os boletins terão uma base científica, mas eles não deixam de acrescentar aspectos metafísicos (falei disso aqui). Ou seja, vamos supor que a FCCC tenha sido contratada para “espantar” a chuva de um grande evento musical ao ar livre. Quando a previsão do tempo é feita para um determinado dia, podemos dizer que há a probabilidade de chover naquele local (se os resultados dos modelos meteorológicos assim nos indicarem). No entanto, estamos falando em probabilidade: pode não chover. E em se tratando do período de verão nos trópicos, pode chover muito em sua cidade e estar completamente seco na cidade vizinha, pois o fenômeno de convecção pode ser bem localizado.  Em suma, a FCCC possivelmente se aproveita dessas incertezas para dizer que algo inexplicável ou sobrenatural fez com que não chovesse naquela localidade. E é evidente que tal afirmação não condiz com o método científico.

Claro que provavelmente não há relação entre a FCCC e esse episódio de Star Trek: VOY. No entanto, o episódio me fez lembrar da FCCC e de como vez ou outra ela aparece na mídia, causando o furor e a indignação de parte da comunidade meteorológica brasileira.

Infelizmente, programas de TV e meios de comunicação de um modo geral dão espaço para pseudocientistas de diversas áreas. Observo que existe sim uma falta de conhecimento científico por parte de vários profissionais da comunicação. Muitos acreditam que estão sendo comunicadores imparciais ao mostrarem “os dois lados” de uma questão, por exemplo trazendo uma pessoa que nega o aquecimento global e outra que afirma que ele existe. No entanto, não percebem que dessa maneira estão apresentando desinformação para sua audiência.