O iceberg A-68 que tem chamado a atenção da comunidade científica

 

Hoje vamos falar de icebergs! A imagem acima, que serve como destaque para o texto, não se trata do iceberg A-68. Vamos falar desse colossal iceberg ao longo do texto. 
Cortesia de Shutterstock

Recentemente algumas notícias sobre  icebergs tem ganhado muito destaque. A principal dessas notícias menciona um iceberg de 5800km² que se desprendeu de uma geleira permanente na Antártica (as notícias são de 12 de julho de 2017, mais ou menos a data em que houve o desprendimento). Para vocês terem uma ideia, essa área corresponde a 4x a área da Cidade de São Paulo ou 2x a área de Luxemburgo. Seu peso estimado é de 1 trilhão de toneladas. Trata-se de um dos maiores icebergs já registrados e seu futuro é difícil de prever, de acordo com o glaciologista Adrian Luckman, coordenador do projeto Midas (projeto que dentre outras atividades, monitora icebergs na Antártica).  Ele pode se fragmentar em vários icebergs, pode ir em direção ao norte e pode ser um perigo para a navegação. E essa fragmentação de fato ocorreu, conforme iremos narrar nos próximos parágrafos.

Esse colossal iceberg foi chamado de A-68 pelos cientistas. Ele se desprendeu de uma região chamada Larsen C, que é parte da Plataforma de Gelo Larsen, que fica na Península Antártica. Os pesquisadores “subdividiram” a Plataforma de Gelo Larsen usando letras, para dessa forma facilitar os estudos. Abaixo, um mapa de Larsen e de suas subdivisões:

Mapa da Península Antártica, onde destacaremos especialmente a Plataforma de Gelo Larsen e suas subdivisões. Fonte: Wikipedia 

Parte da Larsen A colapsou em 1995 e parte da Larsen B colapsou em 2002. Dessa maneira, os olhos dos glaciologistas são totalmente direcionados para toda a região, com a finalidade de monitorar o surgimento de rupturas e icebergs. E foi dessa maneira que os cientistas passaram a observar a Larsen C e puderam ver o ‘nascimento’ desse enorme iceberg mencionado anteriormente e que foi nomeado A-68.

Recentemente, uma imagem de 20 de julho de 2017 registrada pelo satélite Landsat 8 mostra esse enorme iceberg, mostrando que ele se rompeu.  A imagem foi divulgada pelo Earth Observatory, da NASA. Destaco a imagem abaixo e um “close”, que mostra alguns detalhes importantes:

Quando um iceberg se solta e fica a deriva no oceano, ele fica a mercê das correntes marítimas, do ciclo das marés e dos ventos. E quando o A-68 se soltou da Larsen C, não poderia ser diferente: essas forças fizeram com que A-68 se quebrasse, tornando-se em 2 icebergs maiores denominados A-68A e A-68B, além de outros pedaços menores que ainda não foram nomeados.

Nas semanas após o rompimento do A-68, as imagens de satélite passaram a documentar o movimento dos icebergs resultantes. O movimento dos icebergs resultantes acabou causando choques entre os fragmentos, que geraram ainda mais “mini icebergs”. As imagens de satélite foram obtidas entre 20 e 21 de julho de 2017 pelo sensor TIRS (Thermal Infrared Sensor), que está a bordo do satélite Landsat 8. Como trata-se de um sensor que captura imagens no infravermelho, temos então a assinatura termal da região. As partes mais escuras das imagens correspondem às regiões mais frias e as partes mais clara correspondem às regiões mais quentes (comparativamente, claro). O oceano é comparativamente mais quente que os icebergs, por isso vemos esses “rios” mais claros entre os fragmentos.

O que me parece ter chamado a atenção no caso do A-68 (e de seus fragmentos resultantes) é que a “quebra” da Plataforma Larsen e o consequente surgimento dos icebergs aconteceu em pleno inverno do Hemisfério Sul. Os cientistas não podem afirmar de maneira categórica que o desprendimento desse iceberg tem a ver com as mudanças climáticas, pois são necessários mais dados e mais estudos.

No entanto, de acordo com Martin O’Leary também glaciologista do projeto Midas, o rompimento coloca a Larsen C em situação muito vulnerável, podendo fazer surgir mais rupturas e o surgimento de outros icebergs. De acordo com o geólogo espanhol Jerónimo López, ex-presidente da SCAR (principal órgão internacional de pesquisa sobre a Antártida), o desprendimento do  A-68 enfraquece a barreira de gelo, que atua como muro de contenção. Ainda de acordo com o geólogo, esse gelo pode vir a derreter e então aumentar o nível do mar.

Bibliografia