Por que somos tão julgadas? Por que julgamos tanto? Por que nos cobramos tanto?

Por que somos tão julgadas? Por que julgamos tanto? Por que nos cobramos tanto? Ao longo do texto, farei algumas reflexões sobre essas perguntas. Esses temas são uma constante na minha vida, porém um acontecimento bem recente (que narrarei a seguir) me fez pensar em alguns aspectos e escrever esse texto.

A leoa e seu filhotinho. Cortesia de Shutterstock

Recebi uma notícia que me chateou um pouco: fui demitida do meu freela. Mas a verdade é que eu já imaginava que isso iria acontecer. Esse acontecimento me fez refletir sobre minha vida, sobre as coisas que realizo e sobre a maternidade e sobre ser mulher. Parece algo trivial, porém o acontecimento realmente me fez pensar em várias coisas.  Eu vou tentar colocar minhas reflexões nesse post, para que alguém se identifique ou para que alguém discorde, mas meu objetivo principal é despertar um sentimento de empatia para com as mães. Se eu conseguir tocar o coração de uma pessoa, eu já me sinto feliz.

Eu fazia freela para uma empresa. Na verdade, eu era cadastrada em uma base de dados com mais outros profissionais que também prestavam serviço. O serviço era lançado em uma plataforma para quem o aceitasse primeiro. Acontece que há quase 1 mês eu não tenho conseguido aceitar nenhum trabalho. Como são muitos profissionais, as vezes simplesmente não dava tempo de sinalizar o aceite (pois alguém aceitava o trabalho primeiro).  E em outras situações, eu simplesmente não aceitava o trabalho pois eu não tinha tempo de fazê-lo (e naturalmente outro profissional ia lá e aceitava).

Além disso, vocês repararam que eu não escrevo por aqui já tem alguns dias. E eu vou explicar a razão e mostrar como isso tem relação com a notícia acima. Eu estava de férias do meu emprego. Meu filho estava de férias também e eu estava curtindo momentos ótimos com ele. Além disso, quando as mães estão de férias elas trabalham muito, um trabalho extremamente gratificante e feito com muito amor, mas que não deixa de ser cansativo. Durante as férias, preciso pensar em todas as refeições de meu filho, em seus momentos de lazer e entretenimento e dar toda atenção e carinho que ele merece. Até porque, na minha opinião as férias escolares são para aumentar o vínculo e a convivência familiar.

Quando eu estou de férias (e mesmo antes de ser mãe!) eu não gosto de ficar pendurada no celular. Prefiro aproveitar para curtir. Gosto de tirar fotos, mas não faço posts em tempo real ou lives. Em um dos passeios que fiz nas férias, observei como as pessoas estão ficando bestas com esse negócio de tirar selfies e fotos para postar, mas isso é assunto para outro texto. Durante as férias eu quero também ficar um pouco desvinculada da tal “vida digital” e apreciar ainda mais a natureza, a vida familiar e as novas experiências que tenho durante meu merecido período de férias.

Antes de ser mãe, eu me engajava em várias atividades ao mesmo tempo: cursos, freelas, trabalhos, etc. Quando fiquei grávida eu sabia que eu teria que reduzir esse ritmo. E foi o que fiz, inclusive reduzi o total de horas de trabalho. Só que eu não reduzi o suficiente e só pude perceber isso quando fui ‘demitida’ do tal freela.

Eu sou tão inquieta que  vez ou outra me vejo olhando cursos que eu desejaria fazer ou atividades que eu gostaria de realizar. E se já não era possível fazer tudo antes, imagine então agora! Simplesmente não tenho tempo para me dedicar a nada. Se eu pegar qualquer outra coisa para fazer, eu não vou fazer direito e isso vai me consumir. Por isso, foi até bom ser “demitida” do freela: a angústia de não conseguir aceitar os trabalhos que a empresa disponibilizava na plataforma estava me consumindo.

Sendo assim, eu entendo totalmente as mães que decidem parar de trabalhar fora de casa. Não é uma decisão fácil, principalmente para quem sempre veio desse esquema estudar-trabalhar-etc, como é o meu caso. Claro que é uma decisão que envolve recursos financeiros e não é todo mundo que simplesmente pode deixar de trabalhar fora de casa. Mas àquelas que optam por isso conscientemente, olha, todos os meus elogios. É necessário muita bravura e força de espírito, porque ficar sem o conforto financeiro e ainda ter que ouvir comentários maldosos não é algo fácil de suportar.

Falta empatia no mundo e não é todo mundo que compreende o que é ser mãe. Sempre fomos vítimas de julgamentos, mas acredito que hoje em dia os julgamentos ficaram ainda piores, por uma série de motivos e inclusive vou até listá-los abaixo:

  • muitas mulheres  definem que não querem ser mães e se dedicam muito ao mercado de trabalho: eu entendo que muitas mulheres que não optaram pela maternidade conseguem ter empatia conosco, mas tantas outras não conseguem e elas são grandes algozes. Algumas amigas já me relataram enormes crueldades por parte de chefes e colegas de trabalho que não são mães e não compreendem que precisamos nos ausentar para cuidar de filho doente ou resolver assuntos escolares;
  • o “pensamento modinha” do “eu odeio criança”: sim, há essa corrente de pensamento de gente que se considera “moderna e descolada” e detesta criança. Nunca entendi isso, pois todos fomos crianças um dia. Para mim, quem pensa assim consegue ser mais imaturo que as próprias crianças;
  • o excesso de cobranças que recaem sobre as pessoas, principalmente sob as mulheres: temos que ser boas profissionais, temos que estar belas, temos que ser boas mães, etc. A tal figura mítica da supermulher que dá conta de tudo, porém poucos compreendem os sacrifícios, frustrações e as dificuldades que nos submetemos para tentar atingir esses altos padrões de expectativas;
  • a internet é um veículo para crueldade: com alguns caracteres e cliques, fica fácil julgar. Além disso, a aparente “distância” que a tela do computador ou do smartphone proporciona faz com que as pessoas se expressem de maneira que jamais fariam se fosse cara a cara;
  • a imaturidade e as equivocadas interpretações do feminismo: tem gente que fala muita besteira nesse ‘meio feminista’, pessoas que não em experiência de vida e querem opinar como outras mulheres devem ou não organizar sua vida e seu lar.
  • as mudanças das relações familiares fizeram com que mais mães, por razões da vida ou por opção, acabassem sendo mães solteiras. E as mães solteiras, além de terem um apoio reduzido (muitas não podem contar com o pai da criança), ainda são vítimas de julgamentos cruéis.

Enfim, listei apenas algumas das coisas que observo conversando com conhecidas ou amigas, ou mesmo observando as dinâmicas em canais do youtube, blogs, etc.  Há quem julgue com mera ignorância pueril (não há maldade, apenas ignorância mesmo). E há quem seja cruel e arrogante, que age como especialista em família e educação.

Eu tenho quase que a certeza que toda mãe foi ou será julgada um dia. A impressão que tenho também é que algum aspecto cultural do brasileiro possibilita esse tipo de julgamento. Por aqui, parece comum que as pessoas se intrometam na vida dos outros, procurando algum motivo banal e insuficiente para justificar esse intrometimento.

Outro dia uma pessoa criticou minha ‘ausência de vaidade’, pois realmente não tenho tempo para me cuidar no nível brasileiro da coisa (cabelo perfeito, unhas perfeitas, maquiagem, etc). Eu passo protetor solar e penteio o cabelo, serve? E já acho que assim estou conseguindo fazer muita coisa! E outra, apoiar-se só na aparência é futilidade, disso a gente já sabe.

Do mesmo modo, há quem critique as mães que deixaram o mercado de trabalho: são acomodadas, sucumbiram ao machismo, são madames, etc. Esses julgamentos são cruéis e superficiais. Se você não sabe o dia a dia do outro em detalhes, não tem como emitir uma opinião proveitosa. E normalmente quem aponta o dedo para por defeitos raramente ajuda de alguma maneira. Como dizem por aí: adoram criticar, mas não pagam meus boletos.

Veja, ao escrever essas palavras não estou reclamando do fato de ser mãe ou não indicando a maternidade para ninguém. Pelo contrário, eu amo ser mãe e sempre estive ciente dos desafios. O que me entristece é justamente a falta de empatia das pessoas e todas as mães são vítimas dessa falta de empatia. Se você trabalha fora, você é uma desalmada que deixa seu filho “com os outros”. Se você não trabalha fora, você é uma folgada/madame/etc e que vai se ferrar quando seu marido arrumar uma amante e te largar (amigas que não trabalham fora já me contaram terem ouvido isso!). Nós somos vítimas de todo tipo de grosseria, comentário indelicado e pitaco desnecessário em nossa vida. Se você pratica amamentação prolongada, te criticam. Se as circunstâncias fizeram com que você não amamentasse, também te criticam. E por aí vai, eu poderia dar inúmeros exemplos.

Eu também não acho que temos que ter regalias por sermos mães. Ou seja, não acho que eu deveria escrever para a empresa que faço freela e pedir para que me readmitissem porque eu tenho um filho. Eu acho sim que a estrutura do mercado de trabalho deveria ser modificada, para que as mulheres pudessem trabalhar sossegadas. Além da presença de creches e a possibilidade de ausências quando necessário, as pessoas deveriam ser mais compreensivas. O que quero dizer no meu caso específico é que eu tenho o costume errado de me engajar em várias atividades ao mesmo tempo e isso não é mais possível. Nunca foi, na verdade. Cansei de sacrificar meu corpo fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo e essa “demissão do freela” fez com que eu me conscientizasse disso. E eu quero passar essa mensagem para você: ser mãe é abdicar de várias outras atividades, não vejo uma outra maneira. Por mais que você tenha uma rede de apoio bacana, com pessoas queridas ao seu redor, certas atividades vão depender unicamente de você. Por essa razão, não se cobre tanto e concentre-se no que é mais importante: no cuidado com seus filhos.

Uma conhecida minha uma vez disse que ser mãe é fácil, o que é difícil é ter que ouvir pitacos e comentários grosseiros. Eu acho que concordo. Se você está mentalmente saudável e o bebê é planejado e amado, eu tenho certeza que você vai conseguir ser uma boa mãe. Vai aprender e errar, mas vai conseguir. O que vai te atrapalhar é sem sombra de dúvidas a interferência destrutiva de algumas pessoas.  Por isso eu digo, minhas queridas: uma das habilidades que todas nós mães precisamos de desenvolver é a do filtro. Ignore boa parte das coisas que você ouve e só se concentre em palavras carinhosas (crie a tal ilha de tranquilidade que mencionei aqui). Quem quer ensinar, não dá pitaco e muito menos dá ‘lição de moral’ na frente dos outros. Você provavelmente vai aprender com amigas íntimas, primas próximas, irmãs, mães, tias, avós, etc. Vai aprender com pessoas que conhecem seu cotidiano e vão te ensinar com amor. Se você manter a calma, também vai poder aprender com bons livros e textos de qualidade.

Saiba de uma coisa: você vai continuar ouvindo e lendo coisas que não te agradam. Ou porque são grosseiras mesmo ou porque você não está mentalmente saudável naquele momento para ouvir ou ler aquela informação. Não tem como se blindar completamente e eu sinceramente acredito que “ouvir o que não se quer” faz parte do aprendizado, pois aprendemos a ser fortes e aprendemos a dar valor a pessoas e informações que realmente importam. Até conseguirmos construir uma ilha de tranquilidade perfeita, vamos ter que passar por várias provações. Eu acho que já contei aqui no blog que conheço uma pessoa que por motivos de convivência eventual acha que pode dar palpite em minha vida e na criação de meu filho. Eu já me irritei muito com essa pessoa. Hoje aprendi a ignorar. E em breve vou conseguir dar lindos tapas de luva de pelica nessa pessoa, porque sinceramente não sou obrigada (e ninguém é) a escutar certas coisas calada. Eu acho que vou conseguir encontrar um equilíbrio entre “dar uma voadora” e ficar completamente em silêncio. E o mais bacana quando eu conseguir acertar o tom é que não vou ficar guardando aquele ressentimento de ter ouvido uma grosseria: a sementinha do ressentimento vai ser eliminada a partir do momento que eu conseguir dar a merecida resposta para o ser grosseiro e intrometido em questão.

Além do filtro, aprenda que você não precisa ter tudo perfeito. A prioridade é cuidar do seu filho, garantir boas refeições, dar amor, carinho, ensinar, etc. Se sua casa não está muito arrumada, se as raízes do seu cabelo precisam de retoque ou se você não conseguiu tirar nota 10 naquele curso que você está fazendo, você não precisa ficar desesperada. Sua vida mudou e não vai dar para fazer tudo o que fazia antes, não será possível fazer uma total entrega para outras atividades. Você vai precisar de ajuda e de colaboração: familiares, diaristas, babás, escolinha, etc. E não há problema em terceirizar atividades, desde que haja um equilíbrio e um bom senso nisso (pois sim, há quem nos critique até por contratar uma babá ou colocar o bebê na escolinha).

Ser mãe é constantemente aprender a ser forte. Sabe a figura da leoa que protege os filhotes? Pois então, é muito mais do que proteger os filhos. E desenvolver o instinto de autopreservação, de não permitir que as pessoas te desestabilizem e de se cercar de pessoas que te respeitam e te amam. Sabe a amiga (e aqui pode ser mãe, prima, avó, etc) que te dá uns chacoalhões carinhosos, sem precisar te expor ou te humilhar? Então, você precisa de gente assim ao seu lado. Porém, é impossível bloquear todos os comentários que ouvimos, vez ou outra vamos ouvir algo que nos chateia e é por isso que eu menciono acima a questão do filtro e da ilha de tranquilidade. Não nascemos prontas, ser mãe é um aprendizado.