Sim, você deve vacinar o seu filho: por que os anti-vaxxers prejudicam seus próprios filhos e a comunidade



Vacinar seus filhos é um ato de amor. Felizmente o Brasil tem um calendário que evoluiu bastante ao longo dos anos. As vacinas são pagas com o dinheiro dos nossos impostos, temos que aproveitar essa oportunidade e sempre atentar para que a caderneta de vacinação de nossos filhos esteja em dia. Cortesia de Shutterstock

Assim como o movimento homeschooling, o movimento anti-vaxxer (antivacina) tem ganhado força no Brasil. Mais uma vez, na minha opinião, é o caso de mais uma porcaria que importamos dos Estados Unidos. Eu tenho a impressão que algumas pessoas simplesmente acreditam que “se está sendo discutido/consumido na gringa, então deve ser bom” e dessa maneira acabam seguindo certo preceitos baseados em pura desinformação.

Antes de mais nada, se você não está por dentro dessas discussões, vou explicar brevemente do que se trata.  Anti-vaxxer é um neologismo inglês para designar uma pessoa que se opõe a vacinação, termo tipicamente utilizado para se referir a pais que são totalmente contra vacinar as crianças. As alegações dos anti-vaxxers são as mais diversas, como por exemplo:

  • eles questionam a eficácia e a segurança das vacinas;
  • questionam o interesse do governo por trás das campanhas de vacinação;
  • dizem que o fato de o governo obrigar as pessoas a se vacinarem viola os direitos individuais;
  • alguns ‘naturebas’ argumentam que as vacinas, assim como outros medicamentos e até alimentos transgênicos, são um ‘veneno’ para o corpo e que o próprio corpo tem condições de se “auto-curar”, desde que a pessoa siga uma dieta apenas com produtos orgânicos;
  • alguns argumentam que vacinas podem “causar doenças”;
  • outros mencionam os efeitos colaterais das vacinas (que existem e em geral são bem raros, além de que os benefícios da vacinação são infinitamente maiores).

Entretanto, as evidências mostram que a vacinação evita mortes por doenças infecciosas (muitas facilmente transmissíveis) e possuem efeitos adversos muito raros. Os programas de imunização (como as campanhas de vacinação contra poliomielite no Brasil) dependem muito da confiança do público em sua eficácia. Por isso campanhas de divulgação científica com a participação de médicos e outros profissionais de saúde são tão importantes. Quando ouço alguém como o respeitado médico Drauzio Varella falar diretamente contra o movmento anti-vaxxer, dá um certo alívio e uma esperança.

O absurdo é perceber que muitos dos anti-vaxxers (ou antivacinas) brasileiros são membros da classe média alta. Eu andei procurando alguns grupos brasileiros no Facebook a respeito do tema e percebi que não são pessoas realmente pobres. A propósito, nesse texto da equipe do Dráuzio Varella, essa aparente paradoxalidade é comentada:

”Se você for procurar quem não se vacina, são, na maioria das vezes, indivíduos de classe mais alta do ponto de vista socioeconômico. A população de classe mais baixa está muito bem vacinada e participa de todas as campanhas, faça chuva ou sol”, afirma Guido Levi ( vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e autor do livro “Recusas de Vacinas – Causas e Consequências”)

Ou seja, são pessoas (pais e mães) que provavelmente tem algum diploma universitário e um padrão de vida bom, porém sucumbiram a desinformação. Certamente o diploma universitário dessas pessoas não deve ser na área de Ciências Biológicas. E mesmo se forem pais e mães com diplomas na área de biológicas, os modismos e essa “onda natureba” tem realmente capturado as pessoas. Eu até gostaria de ler mais sobre isso para compreender esse fenômeno aparentemente paradoxal.

E para quem pensa que anti-vaxxer ainda é coisa de Estados Unidos, onde há leis na maioria dos Estados que permitem que as pessoas deixem de vacinar seus filhos por motivos religiosos, está realmente enganado. Além dos grupos de Facebook que mencionei (que evidentemente não irei linkar aqui), há estatísticas alarmantes. Segundo esse texto, o aumento no número de crianças com coqueluche (tosse comprida) no Brasil, por exemplo, vem chamando a atenção dos especialistas: no ano de 2012, houve 5.295 registros da enfermidade, que corresponde a 135% a mais que em 2011. Coqueluche é uma doença que pode ser prevenida através de vacina própria, que está disponível na rede pública.

Surgimento da controvérsia 

Apesar de movimentos antivacina e pró “vida natureba” estarem presentes por aí desde a década de 1970, acontecimentos recentes tem chamado a atenção. Desde 2012-2013 tem chamado a atenção na mídia internacionais vários casos de epidemia de sarampo nos Estados Unidos. São aquelas “epidemias locais”, por exemplo, um grupo de crianças de um determinado local não é vacinada e isso gera uma epidemia. A vacina do sarampo inclusive é o maior exemplo utilizado pelos anti-vaxxers, e vou tentar explicar o porquê.

Em 1987 o renomado periódico científico da área de saúde Lancet publicou um artigo que associou o aumento do número de crianças autistas com a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, rubéola e caxumba). O autor desse artigo foi o médico inglês Andrew Wakefield. Então imagine, um texto da revista Lancet, que é tão renomada. Logo o conteúdo do artigo deixou a revista científica e foi para colunas de divulgação científica de jornais e revistas de variedades. Logo o assunto foi debatido na TV, provavelmente com muita superficialidade. Isso foi o suficiente para deixar pais e profissionais de saúde alarmados.

Depois desses resultados, vários grupos de pesquisadores da área médica de instituições de todo o mundo decidiram colher dados para verificar se obteriam  os mesmos resultados de Wakefield. E nenhum grupo obteve os mesmos resultados. Anos depois, descobriu-se que Wakefield recebia pagamentos de advogados em processos por compensação de danos vacinais. Ele acabou forjando vários dos dados apresentados em seu artigo, o que foi descoberto por cientistas e jornalistas científicos, e essa história é considerada a maior fraude da ciência moderna. A Lancet teve que se retratar e “despublicar o artigo”, mas o estrago já estava feito e até hoje há ainda quem mencione essa ligação infundada entre vacina tríplice viral e autismo.

Esse caso da revista Lancet mostra que infelizmente podem ocorrer graves falhas no processo de publicação de um artigo científico. E também mostra que os cientistas são pessoas, e que infelizmente podem ser corruptíveis como qualquer um. Wakefield teve sua licença médica cassada no Reino Unido, porém o estrago provocado pelo seu artigo mentiroso ainda persiste.

Por que vacinar o seu filho?

No passado, quando as vacinas ainda eram novidade, o medo dos possíveis efeitos das vacinas era compreensível. Na atualidade, depois de tantos estudos científicos e melhorias na produção das vacinas, esse medo é completamente infundado. Na imagem de 1801, o cartunista britânico James Gillray retratou a vacinação contra varíola em um hospital em St. Pancras. No fundo, podemos ver pessoas completamente deformadas como consequência de terem tomado a vacina. Edward Jenner em 1796 reparou que as mulheres que retiravam o leite das vacas não apanhavam varíola e descobriu que a sua imunidade devia-se à infecção não perigosa com cowpox (vaccinia ou varíola das vacas, da palavra em Latim para esse animal, vacca). Ele propagou a prática de usar para inoculação o próprio vírus da vaccinia descobrindo a vacina contra a varíola, que foi a primeira vacina criada. Esse método de imunização ainda se denomina hoje vacina devido ao vírus vaccinia {x}. Portanto, na época em que Jenner fez essa descoberta, alguns acreditavam  que as pessoas imunizadas poderiam sofrer todo tipo de efeito adverso, como por exemplo ganhar características físicas bovinas. Fonte: Wikimedia Commons

Repetindo  o que mencionei nos parágrafos anteriores: NÃO EXISTE NENHUMA LIGAÇÃO ENTRE AUTISMO E VACINAÇÃO. Simplesmente não existe pois nenhum grupo de cientistas conseguiu obter os mesmos resultados de Wakefield e também porque descobriu-se a fraude em seus dados.

Acredito que mais uma vez preciso ressaltar que seu filho não é a sua propriedade: é a sua responsabilidade e aqui uso o mesmo argumento que usei no caso do homeschooling. Ser pai e mãe, ao menos na minha opinião, implica em algumas situações ter que fazer coisas que você não concorda e/ou que o seu sentimento não permite, porém são ações para o bem estar de seu filho.

O que quero mostrar aqui é que ao deixar de vacinar o seu filho, você não estará comprometendo apenas a imunização dele: você estará comprometendo a imunização de toda comunidade, compostas por bebês e até mesmo adultos que ainda não tomaram as vacinas, pessoas que estão com algum problema no sistema imunológico (em decorrência de infecção ou de quimioterapia, por exemplo), pessoas cuja vacina tomada não teve eficácia (foi mal acondicionada, por exemplo), etc.

Vamos supor uma criança que não foi imunizada contra sarampo (por exemplo). Essa criança vai acabar sendo “protegida” de pegar sarampo  porque as pessoas que convivem com ela certamente foram vacinadas.  Porém, basta uma pessoa que convive com essa criança ter seu sistema imunológico prejudicado e ter contato com o vírus do Sarampo. Apenas é é suficiente para que essa criança pegue sarampo.

E por falar em sarampo, em um caso de 2011, em uma creche no Butantã (bairro de São Paulo) foram registrados 10 casos de sarampo. Essa epidemia estava associada com grupos contrários à vacinação.

É importante observar aqui que a creche deve pedir aos pais a apresentação da carteira de vacinação no ato da matrícula. A escola que meu filho estuda pediu e inclusive tirou uma cópia. Entretanto, nos grupos brasileiros de anti-vaxxers vi pessoas irresponsáveis e corruptas orientando outros adeptos da prática a mentirem para a direção da escola, contando que perderam a caderneta de vacinação, dentre outros “jeitinhos” absurdos para driblar essa exigência.

Então percebam que vacinação é política pública e a imunização da população só dá certo se todas as pessoas se vacinarem, se todos os pais forem atentos ao calendário e vacinação e às campanhas. Usando como exemplo a própria varíola (veja ilustração acima que fala sobre essa doença). A varíola foi erradicada porque as campanhas de vacinação por todo o mundo foram eficazes, de modo que o último caso de varíola que se tem notícia foi em 1977, na Somália.

Aqui no Brasil temos também o exemplo da poliomielite: não há registros da doença no Brasil há 25 anos. Quando eu era criança, lembro de uma moradora da minha vizinhança que já era uma jovem adulta adulta e tinha as sequelas da doença: ela tinha parte do corpo paralisado. Entretanto, a poliomielite não está completamente erradicada, embora a OMS preveja a erradicação muito em breve. Ainda há registros de poliomielite no Paquistão e no Afeganistão. Dessa maneira, basta que uma criança não-imunizada contra a poliomielite tenha contato com alguém oriundo desses países para essa criança se contamine. E embora esses países pareçam geograficamente distantes, lembre-se que muitos dos anti-vaxxers brasileiros são pessoas de classe média alta, que tem condições de viajar para o exterior. Imagine a tragédia que pode acontecer caso uma criança não-imunizada faça uma viagem com os pais e acabe tendo contato com pessoas desses países.

Imagine se toda hora estourar uma epidemia de sarampo simplesmente porque os pais se recusaram a vacinar os seus filhos. Isso tem um enorme dano econômico, ou seja, trata-se de um problema de saúde pública e portanto é um problema de todos. Como mencionou o Yuri nesse vídeo, se você quer viver em comunidade e se você quer ser pai ou mãe, há pré-requisitos que você precisa cumprir, o que é muito além de suas crendices e ideologias. Vacinar seus filhos é um desses pré-requisitos e infelizmente esses pais anti-vaxxers estão agindo com extrema ignorância e egoísmo. Egoísmo contra seus próprios filhos e egoísmo contra toda a sociedade.

Meu breve rant

Sinceramente me dá NOJO ver certos pais usando os filhos como estandarte para suas próprias ideias políticas, muitas delas motivadas por modismos e desinformação. Eu fico preocupada quando vejo pais deixando de vacinar seus filhos e ainda contando isso em blogs. Há um tempo atrás me deparei com o relato de uma mãe norte-americana que não vacinou seus filhos (se eu não me engano, eram 3 crianças) contra coqueluche. Ela era a favor de “terapias naturais” e suas crianças (uma delas era um bebê de menos de 1 ano) devem ter sofrido muito com a tosse que durou semanas e segundo ela, foram curadas com “remédios naturais” e “pelo próprio corpo”. Lembro no relato que essa mulher inclusive discutiu com membros de sua família, que pediam encarecidamente para que as crianças fossem levadas ao médico.

E aqui entra minha queixa sobre algo que considero gravíssimo. Um dos motivos (foram vários) que me fez deixar de participar de grupos feministas é a burrice e a pseudociência. Desculpem aqui pela palavra pesada, mas só posso classificar certos comportamentos como burrice.

Está cheio de ‘fulana desconstruída’ que com um pouco de convencimento, e pode acabar sim sendo sim anti-vaxxer e acreditando em todo tipo de movimento perigoso. E o pior, se alguém questionar os métodos dessa mulher (alguém da família, o pai da criança) é capaz de ela aparecer com esse discurso superficial de empoderamento. E sim, eu já li em grupos de anti-vaxxers mulheres orgulhosas dizendo que mentiram para os pais das crianças. Isso é um absurdo!

Veja, eu não estou criticando o feminismo como um todo e nem todas as feministas. Quem tem boa vontade e já leu outros posts do meu blog, vai compreender isso. Se você gosta de ciência como eu gosto, certamente está sem paciência com essas ‘empoderadas desconstruídas do zodíaco’. Eu estou farta! E se esse pequeno rant atrair haters, infelizmente não tenho o que fazer. Bom, posso bloqueá-los rs.

E por que eu falo sobre essas coisas?

Tenho percebido que a anticiência invadiu muitos blogs do ‘universo da maternagem’. Várias digital influencers acabam sucumbindo a modismos e desinformação. Colar de âmbar do báltico, homeopatia e homeschooling são alguns exemplos de pontos que considero alarmantes. Por isso, quero atuar como divulgadora científica nesses temas que cercam o universo da maternagem. Quero tentar, de algum modo, fazer a diferença.

Eu me considero uma mamãe nerd ( já disseram que eu sou um ‘tia muito nerd’, embora eu ache o rótulo estranho). Até análise nerd sobre pomadas de assadura eu já fiz!

Além de gostar de algumas “coisas nerds” da cultura pop, gosto muito de me informar. Gosto de consumir conteúdo de qualidade, divulgado por especialistas e por pessoas que como eu gostam muito de estudar. Foi até por isso que criei a série “Cientista” grávida, no período em que eu estava grávida de meu filho. Foram 20 episódios, em que falei de ciência e de minha vida cotidiana naquele momento.

Eu sou Meteorologista e claro, mais informações sobre a vacinação de seus filhos você deve obter com médicos e outros profissionais da área de saúde. Entretanto, por ter uma formação na área científica, aprendi que precisamos de evidências claras e bem estabelecidas para chegar a conclusões e tomar um partido. E com esse post, pretendo ajudar a esclarecer mães que tenham dúvidas genuínas a respeito de vacinação.

Como disse recentemente, com relação àqueles que já criaram dogmas acerca de um tema (ferrenhos defensores da antivacinação, por exemplo), eu realmente não tenho esperanças. Esses vão continuar lendo apenas textos de pessoas que também são contra as vacinas. Se a pessoa quer fechar os olhos para o óbvio, infelizmente não há muito o que fazer.

Bibliografia e mais informações