Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias



  “Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.”

– Carl Sagan, citado em “Manchete”, Edições 2309-2317 – página 128, Block Editores, 1996

Intitulei o post com essa famosa frase de Carl Sagan,  cientista, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico norte-americano que dispensa mais apresentações. Se você ainda não leu nada de Carl Sagan, sugiro que procure seus livros. Aqui no Meteorópole eu resenhei apenas Contatomas eu mencionei outros livros em diversas ocasiões.

Se você está dizendo que o aquecimento global não existe (contrariando os 97% de consenso da comunidade científica), então prove o que diz!
Cortesia de Shutterstock

Eu sempre indico Carl Sagan para os adolescentes com quem tenho contato pois é o tipo de escritor que transforma sua vida. Ele certamente vai ensinar a pensar com um bom nível de ceticismo, vai ajudar em questões práticas da vida (como não ser enganado por falsa ciência ou por charlatães em geral) e vai despertar um desejo maravilhoso dentro da gente, que é a vontade de querer aprender cada vez mais para desvendar as belezas e mistérios do Universo. Carl Sagan foi uma pessoa cujo legado nos inspira a ser alguém melhor, sem sombra de dúvidas. E para quem quiser saber mais sobre o escritor, sugiro também esse ótimo post do meu amigo Vinícius, do blog Monolito Nimbus.

Bom, depois de falar um pouco sobre uma pessoa que admiro muito com o intuito de inspirar meus leitores (e assim enrolar um pouco para começar o assunto real), vamos falar sobre o assunto real desse texto: negacionismo do clima.  Pois é, leitores, vou mais uma vez falar de pseudociência na Meteorologia, assunto já tratado outras vezes aqui no blog.

Tem um famoso professor que leciona para o curso de Geografia da USP que é um proeminente negacionista do clima. Ele já teve a oportunidade de conceder entrevistas em importantes programas de TV. Ele é carismático e bonito, qualidades que a TV aprecia. Além disso, os jornalistas de um modo geral não compreendem como a ciência se desenrola e acabam dando espaço para esses enganadores com a impressão de que dessa maneira estarão dando a oportunidade para que “o outro lado” dê a sua opinião. E é assim que uma figura dessas consegue espaço na TV.

Há alguns anos, esse professor apareceu no programa do Jô Soares e muitos meteorologistas e outros cientistas da área de Climatologia ficaram indignados com os absurdos ditos por ele, escreveram textos e se posicionaram. Na mesma época ele apareceu também em outros programas de TV e seu discurso ganhou força porque eu tenho a impressão que alguns indivíduos da direita brasileira consomem tudo o que a direita americana propagandeia. É foi assim que surgiu o “medo do comunismo” e o “negacionismo do clima” em terras tupiniquins. Embora o discurso desse professor especificamente não pareça alinhado a nenhum “lado” da discussão política, é evidente que admiradores de um certo astrólogo-filósofo por exemplo também passem a admirar as ideias propagandeadas por esse professor. E isso fica muito claro quando explico as razões de ter escrito esse post, em que coloco que o aquecimento global (assim como outros fatos científicos) não tem lado político.

Se eu não me engano, foi o Prof. Alexandre Costa   (que recentemente escreveu um ótimo texto intitulado De onde saiu tanto negacionismo?) que disse em uma ocasião que molécula de CO2 não é de esquerda e nem de direita. Achei a colocação bastante simples, direta e muito boa!

O Maurício Tuffani escreveu esse texto e recomendo que todos leiam. Ele faz um pequeno dossiê a respeito do mencionado professor em questão e fala de suas mais recentes peripécias. Tuffani inclusive menciona os ótimos vídeos do Pirula a respeito do tema. Em um dos vídeos mais antigos sobre o tema, o Pirula inclusive visitou o Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP e entrevistou os professores. Um excelente vídeo, praticamente um documentário sobre o tema.

Eu sou da opinião de que não vale a pena debater pessoalmente com pessoas como esse professor em questão. Porque quem está convencido que de fato não há um aquecimento global e de que o ser humano não pode interferir  negativamente nos ecossistemas, vai continuar concordando e aplaudindo o tal professor. Eu acredito que é o mesmo fenômeno que acontece em igrejas, com líderes religiosos em geral. Até a ultima hora, aposto que teve gente que concordou com Jim Jones. E apesar de todas as evidências negativas sobre o uso do dinheiro dos fiéis, há quem continue frequentando determinadas igrejas e defendendo os líderes religiosos. Então, fica difícil debater com fanáticos de qualquer área. Você pode apresentar as melhores e mais bem documentadas evidências, porém o sujeito ainda vai continuar preso naquela ideia fanática.

E não foi surpresa nenhuma de minha parte quando soube que o tal professor concedeu uma entrevista a um youtuber adorado pelos fanáticos de direita. Esse youtuber em questão é um sujeito que só ganhou inscritos porque nosso zeitgeist faz com que seja fácil ser “dono da razão”: basta comprar um lado da discussão, falar um pouco mais alto como uma criança que quer um ovo Kinder no supermercado e a mãe já disse que não, acrescentar alguns palavrões e então de repente você se tora um importante representante de uma ideologia. É isso mesmo o que eu quis dizer: você não precisa ter bons argumentos e bom repertório, basta falar alto como uma criança mimada. Esse youtuber em questão adora fazer escândalo e induzir seus minions a ofenderem pessoas que o criticam. E o fato de ter minions já mostra o poder de convencimento que essa pessoa tem, o que é lamentável e preocupante, pois mostra que infelizmente as pessoas de um modo geral não são suficientemente instruídas para terem senso crítico.

Em um vídeo recente, esse youtuber sugere que um rapaz pode passar a gostar de mulheres trans se começar a apreciar as músicas do Pabllo Vittar, uma total ausência de lógica e uma total presença de preconceito (aquele preconceito sólido que ultrapassou as barreiras da simples ignorância). Bom, mas esse vídeo não é o assunto principal e mencionei só para vocês entenderem essa coalizão nem um pouco surpreendente: youtuber famoso escandaloso adorado por fanáticos de direita e professor negacionista.

O título desse post foi escolhido porque quero chamar a atenção a um fato também mencionado pelo Tuffani. O currículo do tal professor é muito modesto para quem praticamente vive a vida acadêmica para contestar o Aquecimento Global. Menciono aqui um trecho do texto do Tuffani, com algumas observações minhas entre chaves e na cor vermelha:

 Não bastasse, em desabono de [nome do professor], essa revista [no caso, Fórum Ambiental da Alta Paulista, que Tuffani mencionou anteriormente no texto] ter classificações baixíssimas na plataforma Qualis Periódicos, da Capes, para as áreas de Geografia (B4) e Ciências Ambientais (B5) – respectivamente equivalentes a 2 e 1 em uma escala de 0 a 7 – [ou seja, uma revista de baixo impacto, de maneira bem simplista, é um periódico que não é muito referenciado], o climatologista foi membro de seu conselho editorial de 2010 a 2014 [opa!]. Seu nome não aparece mais entre os integrantes do conselho no site da publicação, que até o ano passado indicava as composições anteriores da equipe. (Confira em página de 10/ago/2016 registrada pela Internet Wayback Machine.)

Em outras palavras, era para o tal professor estar fazendo altos vôos e publicando suas importantes descobertas em periódicos científicos de alto impacto. Claro que ele e seus asseclas irão se valer da história da “perseguição”, pois assim como outros “gênios da ciência”, ele é incompreendido e ridicularizado por seus contemporâneos. Nesse post, explico o que é um artigo científico e acredito que ficará mais claro como esse argumento é falacioso.

Ou seja, cadê as provas extraordinárias, caro professor? Você não consegue apresentá-las. Estamos aguardando. Infelizmente apenas as alegações dele já fazem com que ele ganhe espaço na mídia, já que parte da imprensa adora essas polêmicas infundadas.

Desqualificação e desinformação

Muitos contestam teorias científicas em geral, mesmo que sem nenhuma evidência concreta para contestar a teoria escolhida. Por exemplo, há quem conteste a teoria da evolução e use argumentos religiosos e dogmáticos em seu discurso.  O problema de tal professor, que foi muito bem colocado pelo Tuffani, é que além de contestar, o tal professor desqualifica seus colegas científicas e propaga desinformação. O uso de argumentum ad hominem   é uma constante na fala do tal professor. Debochado, ele desqualifica direta ou indiretamente os trabalhos de excelentes pesquisadores, que possuem artigos publicados em ótimas revistas científicas. Tuffani destaca uma fala do tal professor:

Eu acho uma coisa antinatural combater o CO2, porque se você tira o CO2 da atmosfera, se fosse possível, imaginar, remover o CO2 da atmosfera, você acaba com a vida no planeta Terra. Então você tem que ter, sim, o CO2 na atmosfera para os oceanos utilizarem o CO2, para as plantas utilizarem o CO2, para a gente ter comida.

Nenhum cientista quer combater a presença natural do CO no planeta. E claro, mesmo pessoas sem formação científica de nível superior sabem que as plantas precisam do CO2   para realizarem fotossíntese. Ao falar isso, o tal professor distorce os propósitos das pesquisas na área de Climatologia e Aquecimento Global e ao mesmo tempo apresenta ao público um argumento mentiroso, mas que pode parecer válido na medida que ele o fecha falando de um assunto que a maioria das pessoas tem conhecimento (fotossíntese).  Pura picaretagem e falácia, ao meu ver! Está no mesmo nível de argumentação de alguns pastores evangélicos que dizem que se Deus quisesse que existissem homossexuais, teria criado Adão e Ivo e não Adão e Eva (os pastores gringos adeptos dessa lógica falam Adam and Steve).

E o tal professor recebeu algum tipo de punição?

Sim. O Tuffani menciona isso em seu texto, inclusive. O professor teve sua tese de livre docência recusada e a FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde o professor realiza suas atividades de docência e pesquisa) já se posicionou contra ele. Além disso, pesquisadores que foram ofendidos por ele (o tal professor adora um ataque pessoal, geralmente coisa de quem é arrogante e possui bons argumentos) também se posicionaram contra ele.

E ele teve seu salário da USP substancialmente reduzido, sanção que pode acontecer com qualquer pesquisador que não tiver o mínimo de produtividade e não atender requisitos da própria USP ou agências de fomento. E claro, ele sugere que seu salário foi cortado por perseguição. Infelizmente vários sites de notícias informaram esse corte no salário de maneira totalmente equivocada e sem pesquisar os motivos desse corte, dando razão ao argumento da perseguição.

Claro que além de tudo isso, seu nome é motivo de descrédito por parte da comunidade científica. Mas parece que com isso ele não se importa, já que chama pesquisadores sérios de pseudocientistas e se auto-intitula um “cético do clima”.

Finalizando

Eu tenho um enorme orgulho de ter estudado no IAG-USP. A USP proporcionou oportunidades para a minha vida que eu jamais sonhara. Não gosto de ficar “repetindo a história da menina pobre”, mas eu sou grata aos meus pais que sonharam algo muito melhor para mim. Eu vim da periferia de São Paulo e a primeira vez que eu passei na Av. Cidade  Jardim foi indo para a USP e eu nem imaginava que existiam lojas de carros tão caros na minha cidade. Com o tempo entendi que aqueles carros nem eram importantes. A USP me abriu várias portas e elas não foram apenas portas materiais.

Sendo assim, é constrangedor saber que existe um indivíduo como esse, também filho da minha alma mater. Da mesma maneira também é constrangedor saber que existe ex-professor da mesma instituição que defende que a Terra é plana.

No entanto, precisamos lembrar que na USP e em tantas Universidades brasileiras existem cientistas sérios e muito comprometidos. Muitos vivendo de bolsa de pesquisa, com um futuro incerto, sem férias, com vida pessoal comprometida, sem verbas para fazer viagens de campo ou comprar materiais  importantes para o andamento de suas pesquisas, dentre outros problemas e desafios muito difíceis. São pessoas que apesar das dificuldades, obtém conquistas enormes e reconhecimento nacional e internacional. E felizmente o número de cientistas sérios e dedicados é muito maior do que o de fanfarrões polêmicos. A questão é que infelizmente esses sujeitos fanfarrões acabam ganhando mais destaque em várias ocasiões, porque a mídia adora uma controvérsia, mesmo que sem fundamento.

Sugiro mais uma vez que vocês leiam o excelente texto que me inspirou a escrever essa postagem (e que mencionei várias vezes ao longo do texto). Vejam também os vídeos do Pirula que mencionei anteriormente (principalmente esse em que ele responde ao professor mencionado). E leiam, sempre leiam! Lembrem-se sempre que: alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Essa frase e outros escritos de Carl Sagan que já li, mudaram a minha vida.

E vocês repararam que procurei não mencionar certos nomes no meu post. É um ideal que procuro seguir (não sei se estou ‘certa’ ou se isso é eficaz), mas eu não quero atrair certas pessoas para o meu blog. Meus leitores usuais certamente compreendem a que tipo de pessoas me refiro: gente que adora teoria da conspiração, que ‘idolatra’ esses tipos polêmicos e que normalmente gosta de causar balbúrdia no blog ou canal dos outros. E também porque não quero dar audiência para quem merece total ostracismo. Por outro lado, faço questão de mencionar trabalhos de pessoas que ao meu ver são extremamente sérias, comprometidas com a ciência e competentes, por isso fiz algumas menções ao longo do texto.