Almagestum Novum: por que essa publicação é tão importante para a História da Ciência?



Vou publicar esse texto na terça-feira (e eu me propus a falar sobre arte nas terças-feiras), devido as lindas ilustrações do Almagestum Novum, principalmente a de seu frontispício (vou falar adiante).  Mas vocês vão perceber que trata-se majoritariamente de um post a respeito de história da ciência. Vamos falar do Almagestum Novum. 

Ilustração de Almagestum Novum que mostra as caraterísticas observadas na Lua. Não foi, no entanto, o primeiro mapa da lua: Selenographia, sive Lunae descriptio é uma importante publicação de 1647, de autoria de Johannes Hevelius. No trabalho de Hevelius, temos os primeiros mapas da Lua.

Mencionei o Almagestum Novum nesse post que narra um breve histórico a respeito das primeiras observações ou sugestões a respeito do Efeito Coriolis. No entanto, vale a pena falar um pouco mais sobre essa importante publicação.

O autor de Almagestum Novum é Giovanni Battista Riccioli, padre católico da ordem jesuíta que nasceu em Ferrara em 1598. Ele entrou para a Companhia de Jesus com apenas 16 anos.  Estudou filosofia e teologia entre 1620 e 1628 em Parma. Nesse período, acabou tendo contato com Giuseppe Biancani (1565–1624), outro conhecido padre jesuíta que era professor em Parma na época. Biancani aceitava ideias que eram novidade na época, como a existência de montanhas na Lua. Biancani acabou sendo professor de Riccioli, que depois o menciona com muita gratidão e admiração.

O Almagestum Novum foi escrito em latim, que era o idioma utilizado em trabalhos científicos no passado. Na atualidade, se um cientista deseja que seu artigo científico seja lido por um maior número de pessoas, ele deve publicar esse artigo em inglês e em uma revista científica de ótima reputação. No passado, se o cientista desejasse o mesmo, teria que escrever em latim. E foi o que Riccioli fez. Observe que o Almagestum de Ptolomeu foi escrito em grego, pois no início da era cristã esse ainda era o idioma da ciência.

Riccioli se considerava teólogo, até pela sua formação. No entanto, seu crescente interesse em astronomia fez com que ele se dedicasse cada vez mais ao assunto, a ponto de seus superiores notarem isso e dessa maneira passassem a dar a ele tarefas relacionadas a pesquisas astronômicas. Ele construiu um observatório astronômico em Bologna, totalmente equipado com os melhores equipamentos da época: telescópios, quadrantes, sextantes, etc. Seu interesse em astronomia fez com que ele se naturalmente acabasse se interessando e pesquisando em outras áreas correlatas: geografia, cronologia, física, aritmética, óptica, etc.

Em seu tempo, Riccioli correspondeu-se com vários outros astrônomos proeminentes da época, como HeveliusHuygens, Cassini, e Kircher. Ele colaborou com outros cientistas, como o também jesuíta Francesco Maria Grimaldi (1618–1663). Seus esforços científicos foram reconhecidos enquanto ele era vivo. Ele galhou um prêmio das mãos de Luís XIV da França como reconhecimento por suas atividades e relevância para a cultura contemporânea.

Riccioli morreu em Bologna, aos 73 anos de idade. Até a sua morte, ele continuou escrevendo e publicando nas áreas de teologia e astronomia.

O significado de Almagestum Novum

Almagestum Novum siginfica Novo Almagesto, como uma alusão ao trabalho escrito por Cláudio Ptolomeu no século II e que se chamava Almagesto. A obra foi escrita em grego e adotava um modelo geocêntrico para o Sistema Solar, além de conter um catálogo estelar. Foi um texto científico muito influente, talvez um dos mais influentes de todos os tempos, tendo sido autoridade no Império Bizantino, na Europa Ocidental e até no mundo árabe. Sua influência perdurou por mais de mil anos, já que apenas no século XVI, quando surgiu o heliocentrismo de copérnico, um novo modelo para o Sistema Solar foi pensado.

Claro que nesse intervalo entre o século II e o século XVI vários pensadores propuseram outros modelos, mas apenas no século XVI surgiu um terreno mais fértil e mais receptivo para que a ideia de um sistema heliocêntrico fosse mais bem bem-vinda. Ptolomeu inclusive propôs uma solução para explicar o movimento retrógrado dos planetas (que é incompatível com os modelos iniciais de geocentrismo), usando um modelo com o que ficou chamado de epiciclos ptolomaicos. Ptolomeu foi também duramente criticado, já que muitos disseram que seu trabalho era basicamente um plágio do trabalho do matemático grego Hiparco.

Sendo assim, nomear seu trabalho de Almagestum Novum foi algo bem audacioso da parte de Riccioli, embora o trabalho de fato tornou-se uma das obras mais importantes da ciência. A ideia era mesmo substituir o Almagesto, propondo um trabalho muito mais completo.

Curiosamente, apesar do Almagesto ter sido escrito em grego, a palavra Almagesto vem do árabe e significa ‘O Maior’. Eu já vi a palavra almagesto sendo utilizada para designar um importante trabalho de referência, por exemplo, embora o termo seja considerado bem audacioso.

O Almagestum Novum

Em 1651 Riccioli publica o seu trabalho mais famoso: o Almagestum Novum. São 1500 páginas com o formato 38cm x 25cm, com textos tabelas e ilustrações. Uma das ilustrações é a que abre esse post, mostrando um mapa da superfície lunar.

Frontispício de Almagestum Novum, mostrando figuras mitológicas observando os céus com um telescópio e “pesam” a teoria heliocêntrica de Copérnico contra a versão modificada do sistema geo-heliocêntrico de Tycho Brahe, em que o Sol, a Lua, Júpiter e Saturno orbitam a Terra enquanto Mercúrio, Vênus e Marte orbitam o Sol. A velha teoria geocêntrica ptolemaica é descartada no chão, tornada obsoleta pelas descobertas do telescópio (e já dando uma ideia de que o Almagestum Novum veio para substituir o Almagesto de Ptolomeu). As ilustrações no topo da ilustração incluem fases de Vênus e Mercúrio e uma característica de superfície em Marte (esquerda), luas de Júpiter, anéis de Saturno e a Lua (direita). A ilustração dá a pista de que Riccioli era defensor do sistema geo-heliocêntrico de Tycho Brahe, que provavelmente era uma solução que mais agradava a Igreja (e que não deixava ele tão mal com os cientistas da época).
Almagestum Novum, imagem da cópia da Airy Library. Mais informações aqui.

O trabalho foi tão completo e tão bem recebido que logo se transformou em uma espécie de livro de referência para astrônomos por toda a Europa: John Flamsteed (1646–1719), astrônomo inglês que seguia a linha de Copérnico e era Protestante usou o livro em suas aulas;  Jérôme Lalande (1732–1807), astrônomo do Observatório de Paris o citou várias vezes e já era um livro relativamente ‘velho’ em seu tempo; a Enciclopédia Católica de 1912 o considera como trabalho literário jesuíta mais importante do século XVII.

Em outras palavras, os exemplos mencionados no parágrafo anterior mostram como o Almagestum Novum agradou astrônomos que seguiam outras linhas e tinham outras ideologias. O trabalho foi super bem aceito e o critério e a organização de Riccioli serviram de padrão para outras publicações futuras.

Os assuntos tratados no Almagestum Novum são os seguintes:

  • A esfera celeste: movimentos celestes, o equador celeste, a eclíptica, as equações do zodíaco, etc. Pelo o que pude folhear, muitas das coisas que eu vi na matéria Astronomia de Posição que fiz com o Prof. Roberto Boczko. Inclusive recomendo esse livro, de autoria do Prof. Boczko.  Parte do livro pode ser encontrada aqui (parece que já faz uns 20 anos que esse livro não é publicado novamente).
  • A Terra e o seu tamanho, gravidade, movimento pendular, etc
  • O Sol, o seu tamanho, sua distância, observações, etc
  • A Lua e suas fases, seu tamanho, sua distância, etc (nesse capítulo, chamam muito a atenção os detalhados mapas mostrando detalhes da superfície da Lua, observados através de telescópios)
  • Eclipses solares e lunares
  • As ‘estrelas fixas
  • Os planetas e os seus movimentos (com ilustrações e representações de cada um, de acordo com o que foi observado pelo telescópio)
  • Cometas e novae (nascimento de novas estrelas)
  • A estrutura do universo: teorias heliocentricas e geocentricas, etc.
  • Cálculos relativos a astronomia.
Um fato interessante é que Francesco Maria Grimaldi (outro padre jesuíta que trabalhou com Riccioli) colaborou com o Almagestum Novum. Essas ilustrações do que foi chamado de Selenografia (estudo descritivo da Lua, contrapondo Geografia é que o mesmo para a Terra). Aqui podemos ver mapas com os acidentes selenográficos da Lua, mostrando crateras e vales. Certamente o trabalho anterior de Hevelius (1647) os ajudou. Riccioli mantinha correspondência com Hevelius, como mencionamos anteriormente. A imagem faz parte do acervo do Museo Galileo.

Conforme mencionei nesse post, Riccioli foi um dos primeiros (talvez o primeiro) a sugerir o que hoje chamamos de Efeito Coriolis. E além dessa curiosidade e dos detalhados mapas da Lua, o que chama a atenção no Almagestum Novum é que Riccioli era um cuidadoso adepto do empirismo. De acordo com Meli (2006):

As experiências precisas de Riccioli foram amplamente conhecidas durante a segunda metade do século [dezesseis] e ajudaram a forjar um consenso sobre a adequação empírica de alguns aspectos do trabalho de Galileu, especialmente a regra do número ímpar e a noção de que os corpos pesados caem com acelerações e velocidade semelhantes e não proporcionalmente ao seu peso.

Mas não pensem que Riccioli era “melhor amigo” de Galileu. Na verdade Riccioli chegou a colocar o texto da condenação de Galileu em seu trabalho e o próprio fato de Riccioli ser simpatizante do geo-heliocêntrico de Tycho Brahe (o que fica claro já no frontispício de Almagestum Novum), já deixa claro que ele discordava de Galileu em um ponto muito central. Riccioli certamente estava muito mais preso aos dogmas da Igreja do que Galileu, afinal, era a Igreja que possibilitava que Riccioli estudasse, publicasse e realizasse seus experimentos.

Fato de destaque é que Riccioli elaborava seus experimentos com muito cuidado. A partir da Torre de Asinelli, em Bologna, Riccioli realizou diversos experimentos de queda livre.  Ele verificou que os corpos caindo seguiam a regra do “número ímpar” de Galileu, de modo que a distância percorrida por um corpo caindo aumenta em proporção ao quadrado do tempo da queda, o que indica uma aceleração constante.  De acordo com Riccioli, um corpo em queda livre viaja 15 pés romanos (29,57 cm) em um segundo, 60 pés romanos em dois segundos, 135 pés romanos em três segundos, etc. Segundo outros jesuítas, essa foi a primeira vez que essa regra foi rigorosamente demonstrada.  Seus resultados mostraram que, embora a queda de corpos geralmente mostrasse uma aceleração constante, havia diferenças determinadas pelo peso, tamanho e densidade. Riccioli argumentou que se dois objetos pesados ​​de peso diferente caírem simultaneamente da mesma altura, o mais pesado desce mais rapidamente, desde que seja de igual ou maior densidade. Se ambos os objetos forem de igual peso, o mais denso desce mais rapidamente.

Por exemplo, ao levantar bolas de madeira e chumbo de mesmo peso, Riccioli descobriu que, após a bola de chumbo ter atravessado 280 pés romanos, a bola de madeira percorreu apenas 240 pés. Uma tabela é apresentada no Almagestum Novum contendo esses dados e além da tabela, há todas as especificações sobre o experimento, sobre a estrutura da Torre de Asinelli e outros detalhes que possibilitaram que ele fosse reproduzido várias vezes por várias pessoas em qualquer lugar do mundo.

Os valores obtidos por Riccioli são muito consistentes com a compreensão moderna a respeito dos corpos em queda livre e sob a influência do arrasto aerodinâmico. Acho que as pessoas mais ou menos da minha idade lembram-se do fantástico programa O Mundo de Beakman em um episódio em particular onde uma demonstração de objetos em queda livre acontece. Uma folha de papel demora mais para cair do que uma bolinha de papel feita a partir de uma folha exatamente igual.  Apesar de terem o mesmo peso (a folha de papel e a bolinha de papel), a folha está mais sujeita ao arrasto.

Essa questão do empirismo, na minha opinião, é um interessante destaque do Almagestum Novum e na minha opinião é um dos trabalhos que ajudou a considerar a importância dos experimentos para a Física. O fato de tudo ser bem documentado também é algo de destaque, pois ajudou a fixar a ideia da importância de se poder reproduzir um experimento.

No entanto, o que mais chama a atenção no Almagestum Novum são os capítulos diretamente relacionados com astronomia, como os mapas selenográficos que apresentei anteriormente. Há no entanto observações de planetas e estrelas, com destaque por exemplo para os desenhos a seguir:

Desenhos mostrando as variações na aparência de Saturno em diferentes observações. Imagem do Almagestum Novum

Os desenhos acima mostram como Riccioli era criterioso com sua rotina de observações e com a documentação dessas observações através de desenhos. Os desenhos mostram como a aparência de Saturno varia, com o posicionamento aparente de seus anéis. O mesmo pode ser dito com relação aos desenhos da topografia da Lua, que ele fez com a colaboração de seu colega Grimaldi.

Enfim, eu poderia tratar todo conteúdo do Almagestum Novum (e eu teria que criar um blog temático apenas para dissecar esse trabalho importantíssimo). No entanto, meu conhecimento de latim é limitadíssimo e eu estou me baseando em traduções para o inglês e para italiano. Acredito que é importante revisitarmos esse tipo de trabalho clássico, para compreendermos o estado da arte atual do desenvolvimento científico.

Bibiliografia