Boatos são perigosos!



Vocês certamente já ouviram boatos. Boatos sobre qualquer assunto. E na minha opinião, eles são extremamente perigosos.

Hoje vamos falar sobre boatos. Cortesia de Shutterstock

Como uma pessoa que gosta muito de ciências, eu procuro aplicar elementos do método científico em meu dia a dia. Claro que nem sempre isso é possível. Eu sou uma pessoa que tem uma certa fé e que leva em conta alguns instintos como a intuição em consideração, desde que eu considere algo “racional”. Eu sei, muitos vão achar (e com certa razão) que usar as palavras fé, intuição e razão na mesma frase pode parecer sem sentido e ilógico. Mas eu acho que eu consigo administrar as coisas de maneira razoável.

Por exemplo, no momento em que escrevo esse post estou vivendo umas situações um pouco complicadas na minha vida. Sabe o ditado, a vida tem altos e baixos? Então, vamos dizer que estou em um momento de baixo. E quando a gente está deprimida ou nervosa, tendemos a agir e maneira irracional, tomando decisões precipitadas passíveis de arrependimento. Quando eu estou assim, tento usar a fé para me consolar e para me tranquilizar. E eu uso a intuição e o conhecimento para ver se algo naquela situação está me machucando e se eu posso fazer algo para mudar aquilo. Em outras palavras, eu procuro usar o melhor dos dois mundos: do mundo físico e do mundo metafísico.

Mas voltemos a questão dos boatos. Boatos não são fatos, isso precisa ficar muito claro. Quando alguém te diz um boato, normalmente termina com:

– Mas não conta pra ninguém que eu te disse, não envolve meu nome.

E a pessoa não te apresenta nenhuma prova concreta para validar aquilo que ela está dizendo. Ela se baseia em fofocas, em ‘fulano contou que beltrano contou’. Ela mesma está repassando o boato, pois “fulano e beltrano não teriam motivos para mentir”. No entanto, nem fulano e nem beltrano querem seus nomes envolvidos, porque eles também não tem provas. E assim fica difícil chegar a qualquer conclusão lógica. No entanto, dependendo da natureza dos boatos, ficamos com muito medo e tomamos atitudes desesperadas. Porque alguns boatos mexem com medos terríveis que carregamos dentro da gente.

Alguns talvez se lembrem do caso da Escola Base. Nesse exemplo lamentável de péssimo jornalismo e péssima conduta de um delegado, eu observo que boatos foram amplificados, muito amplificados e foram mal investigados. O resultado foi uma destruição da reputação dos donos da escola, que até hoje não conseguiram se re-erguer (dois inclusive faleceram sem ver sua honra ser totalmente limpa).

Eu conversei com algumas amigas a respeito de boatos dos quais elas foram vítimas. Vou resumir cada história, sem expor detalhes:

Amiga 1

Foi transferida de departamento, em seu local de trabalho. Antes mesmo de se instalar no novo departamento, sua fama de barraqueira já estava consolidada, graças a fofocas de uma colega de trabalho que não gostava dela. Isso dificultou sua adaptação no novo local. Levou um tempo para verem que de fato ela era uma ótima colega: muito profissional e uma pessoa muito agradável.

Amiga 2

Foi trabalhar em uma empresa, para substituir uma pessoa que estava de licença. Ela foi tão bem na empresa que em apenas 3 meses recebeu uma promoção. Então começaram a espalhar boatos de que ela tinha um caso com o chefe. Eu diria que esse boato da “fulana tem um caso com o chefe” é clássico e atinge principalmente as mulheres, lamentavelmente. E eu tenho uma conhecida que viveu uma situação muito parecida com a dessa amiga.

Amiga 3

Foi acusada pela sogra de ter criado uma situação para difamá-la. A situação ficou tão complicada que minha amiga quase foi parar na delegacia com o namorado, com o sogro e com sogra. Minha amiga casou-se com esse namorado e até hoje ela não fala com a sogra, pois ficou magoada com essa situação e com outras que ela viveu.

Amiga 4

Foi vítima de boatos virtuais, que diziam que ela havia criado um perfil fake para perseguir uma outra pessoa. Algumas das pessoas que espalharam os boatos se diziam amigas dela (ou apenas a acompanhavam porque gostavam dela). Isso é interessante, porque mostra uma interessante característica da internet: um dia estão endeusando uma pessoa e basta ela cometer algum pequeno deslize para que logo ela se torne ‘a pior pessoa do mundo’. Na internet os julgamentos são muito rápidos e precipitados, tenho a impressão que as paixões se inflamam mais rapidamente.

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Nas situações que apresentei, os boatos que envolviam minhas amigas eram mentirosos. Quem espalha boatos em geral é covarde, porque como eu disse anteriormente, não quer seu nome mencionado. Eu aprendi que o correto é apresentar fatos: ou seja, traga provas para provar que o que você está dizendo é verdade. Se não há provas concretas, apenas fofocas e informações desencontradas, então é boato.

E ainda com provas, podemos ter boatos. Provas podem ser fabricadas ou ‘pinçadas’ apenas para comprometer alguém. Eu já fui vítima disso. Uma pessoa pegou uma fala minha, tirou de contexto e quase me prejudicou. Claro, eu pude provar que eu estava sendo vítima de um problema de interpretação. A questão é que quem já tinha formado uma opinião sobre mim não estava disposto a ouvir meu lado.

Eu acredito que esse cuidado em saber discernir o que é boato do que é fato é algo que deriva do método científico. A gente precisa estabelecer algumas regras que nos ajudam a perceber o mundo a nossa volta e então tomar decisões usando como base aquilo que percebemos e aquilo que refletimos acerca do que percebemos. Pois nossa ignorância, fanatismo e preconceito podem fazer com que tenhamos uma péssima percepção do mundo.

Essa discussão inclusive nos ajuda a entender notícias em geral e conseguir perceber quando alguma informação transmitida pela mídia é fake news. Há notícias realmente mal construídas, mas há notícias construídas a partir de apenas um dos lados da história. Precisamos ser vigilantes para perceber esses detalhes.

Acho interessante mencionar também que muitas vezes boatos são alimentados pelo nosso preconceito. No caso da história da Amiga 2, por exemplo, ela é uma mulher bonita. Para muitos, uma mulher bonita não pode ser inteligente. Logo, o fato de ela ter crescido na empresa só pode ser consequência de um suposto envolvimento com o chefe.

E de maneira análoga, o trabalho científico de um pesquisador pode ter sua qualidade comprometida por suas visões prévias do mundo e pelo seus preconceitos. Uma pessoa criada dentro de um cenário de fanatismo religioso poderá ter problemas ao se deparar com alguns fatos científicos, como ocorre por exemplo com os criacionistas.

Despir-se totalmente de preconceitos é algo muito difícil, mas é um exercício diário que precisa ser refeito. Acredito que essa é a única maneira de não acreditar em boatos logo de cara.