Será que eu estou exagerando com o uso do celular?

Você provavelmente conhece alguém que não desgruda do celular. Talvez você mesma seja uma dessas pessoas. Nesse post, vou fazer algumas observações pessoais para tentar discutir esse assunto. Claro que é apenas meu ponto de vista, mas eu espero que a gente possa refletir sobre esse tema para aprendermos a usufruir das tecnologias com sabedoria. Falo como mãe e como educadora, acho que até os adolescentes podem aproveitar minha opinião de “tia”.

Será que a vida está acontecendo bem diante de nossos narizes e estamos ignorando tudo, pois estamos presos na tela de um celular?
Cortesia de Shutterstock

Quando eu era criança, lá pelos anos 80 e 90, o tédio existia. E a gente inventava atividades para espantar o tédio.

Valia qualquer coisa.

Essas atividades podiam ser a leitura de livros, revistinhas e enciclopédias (tem doida pra tudo) ou até mesmo sair pela vizinhança apertando a campainha das casas (e depois tinha que correr como o Usain Bolt). Quem tinha dinheiro, tinha videogames, alugava cartuchos e jogava. Mas até mesmo jogar videogame cansava e era comum ver crianças, muitas crianças, todas brincando pelas ruas da vizinhança. Era um mundo bem diferente.

Lá em casa, assinamos a internet quando eu era adolescente, por volta de  1998/1999. E ainda assim, era diferente do que é hoje. Só podíamos usar de madrugada, sábado após as 14h ou domingo ao longo do dia todo, quando as ligações telefônicas eram mais baratas (os tais dos “pulsos”). Não havia a enorme quantidade de sites e de conteúdo disponíveis hoje e não existiam redes sociais. As pessoas interagiam por meio de salas de bate-papo, fóruns ou através de servidores do IRC. Como havia bate-papos e fóruns temáticos, acabávamos encontrando pessoas com interesses comuns e era assim que as amizades virtuais daquela época se desenvolviam. Existia o ICQ e era possível conversar com seus colegas de escola que também estivessem cadastrados no serviço. Como ninguém ficava online o tempo todo, o ICQ era usado mais esporadicamente. As conversas aconteciam pessoalmente ou por telefone. Quando mandávamos um e-mail para alguém, era comum que a resposta demorasse alguns dias. Não havia o imediatismo de hoje.

Era um mundo completamente diferente. Talvez eu fale com algum saudosismo, mas meu principal objetivo aqui é mostrar como as coisas mudaram nos últimos 20 anos. E eu diria que talvez nos últimos 5 anos, elas mudaram dramaticamente com a popularização dos smartphones. Eu tenho parentes na roça, no interior da Bahia, que estão totalmente conectados com seus celulares. Ou seja, o alcance do uso desses aparelhinhos é realmente muito amplo. As pessoas não tem um PC ou um Notebook, mas tem um celular ou um tablet.

E é claro que isso tem um lado bom muito grande. As pessoas conseguem manter contato com amigos e familiares queridos que moram longe e não pagam caro por isso (ligações telefônicas eram caríssimas). As pessoas podem ter acesso a notícias, livros, textos, informações, ideias, etc, que seria muito mais difícil de chegarem até elas se não fosse essa tecnologia. Eu diria que esses dois pontos são os principais benefícios.

Por outro lado, passamos a ter contato com pessoas e informações que são totalmente irrelevantes, não fazem diferença em nossa vida e podem até causar angústia, ansiedade e outros sentimentos negativos. Saber que seu primo é fã do Bolsonaro e fala um monte de bobagem na Internet realmente é algo que eu não precisaria saber. E saber que aquela ex-BBB Fulana de Tal engordou vários quilos e agora luta pela aceitação também não é o tipo de informação que transforma vidas.  E talvez você nem tenha interesse em reality shows, mas as informações simplesmente chegam até você, porque o seu vizinho com quem você nem troca um bom dia compartilhou através das redes sociais ou porque o Google recomendou essa notícia para você (e como você estava em um momento de tédio, esperando sua vez na fila do banco, acabou clicando na notícia apenas porque ela estava ali).

O gemidão do WhatsApp é engraçado? Talvez seja. Mas será que ele substitui uma piada ou um causo engraçado contado em uma mesa de bar, em meio a um grupo animado de amigos? Muitas vezes deixamos de organizar encontros de amigos, usamos a correria cotidiana como motivo, mas ficamos pendurados no celular, repassando versões virtuais de causos e piadas.

E quantas vezes você já não ficou pendurado no celular tendo acesso a informações irrelevantes? Simplesmente passando o dedo para trocar de telas, sem ter acesso a nada realmente produtivo. E quantas vezes ficamos pendurados em nossos celulares e não damos atenções aos nossos companheiros, filhos, pais, amigos, irmãos, etc, que estão diante de nós? Já fui em reuniões em que as pessoas ficavam TODAS em seus celulares, sem conversarem entre si. Os professores tem reclamado MUITO dos celulares, já que tem aluno tão sem limites e tão dependente do aparelho que não o dispensa nem durante as aulas.

Recentemente visitei o lindo parque Amantikir, em Campos do Jordão. Observei quanta gente estava mais preocupada em tirar fotos produzidas do que em realmente apreciar o lindo local, com jardins maravilhosos e paisagens lindas. Notei que muitas moças iam extremamente arrumadas, algumas até com salto (lá é um parque!), apenas para tirar fotos que certamente tinham como maior objetivo ter muitas curtidas. Visitando lugares lindos como o Amantikir, sempre noto como as pessoas não olham para os lados, elas deixaram de apreciar: ficam apenas no celular, tirando foto, postando, verificando curtidas, etc.

Não é de hoje que algumas pessoas buscam fama a qualquer custo (mesmo sem demonstrarem nenhum tipo de talento) e a internet ajuda muito nesse sonho da fama. Noto que algumas pessoas estão mais preocupadas em visitar lugares lindos, restaurantes requintados e hotéis de luxo apenas para tirarem fotos. Levam várias roupas, fazem pose, etc. Algumas pessoas usam até seus lindos filhinhos como modelo, atrapalhando as brincadeiras dos pequenos apenas para fazerem inúmeros cliques. Tudo muito lindo, arrumado, perfeito e com o melhor filtro do Instagram. Não parece aquele episódio Nosedive, de Black Mirror, em que todos vivem para manter uma aparência perfeita e serem bem avaliados?

Fazendo todas essas observações, cheguei a conclusão que sim, eu estou exagerando no uso do celular. Então eu passei a carregar um livro (para ler em momentos inevitáveis de tédio e espera) e passei a bolar brincadeiras com meu filho para evitar o uso exagerado de celular ao lado dele. Penso que ficar o tempo todo no celular enquanto estou com meu filho pode ser perigoso (veja esse vídeo, um importante alerta), além de ser extremamente rude e transmitir uma mensagem de que eu não preciso me importar com o que ele está fazendo.

Além disso, acho que alguns hábitos que muitos de nós realizamos atrapalham tarefas vitais para nossa saúde. O uso do celular na cama (que atrapalha o sono), o uso do celular durante as refeições (que faz com que não percebamos como estamos comendo), o uso do celular na academia (muitos nem fazem os exercícios direito), etc. Outro dia, eu poderia ter atropelado um rapaz que simplesmente atravessou uma rua movimentada enquanto ouvia alguma coisa em seu celular (um áudio do whatsApp, provavelmente). Se eu não estivesse atenta, eu o teria atropelado! Acredito que muitos motoristas já passaram por algo semelhante (sem contar os motoristas que checam o celular enquanto estão dirigindo). Ainda em minhas aventuras no volante, outro dia eu precisava estacionar o carro em um supermercado e o moço estava parado bem no meio (BEM NO MEIO) de uma ótima vaga, distraído falando ao celular.

É evidente que discordo quando ‘demonizam’ os celulares ou as redes sociais. Essas tecnologias são excelentes, claro que depende de como a usamos. E esse tipo de discussão não é nada nova. Quando surgiu o rádio e depois quando surgiu a TV, as discussões foram muito semelhantes. Especialistas opinaram, religiosos opinaram, o público geral opinou, etc. E tem igreja que proíbe até hoje que os fiéis assistam TV e eu me pergunto o que eles fazem com relação a Internet. Gostaria de perguntar isso para algum membro de uma dessas igrejas, mas ainda não tive oportunidade.

Os mais sensatos sempre ressaltaram o uso do bom senso. Eu participo de alguns grupos de mães cristãs e há pessoas que movidas pelo desconhecimento ou que influenciadas por líderes religiosos extremistas e ignorantes acabam proibindo que seus filhos acessem a internet. Proibir isso é proibir o acesso ao conhecimento e isso é um absurdo inominável. Na minha modesta opinião, acho que o ideal é participar junto com a criança/adolescente e procurar saber do que eles gostam e o que eles acessam, para então por limites cabíveis.

Crianças podem aprender através de aplicativos e vídeos que são divertidos e educacionais. No entanto, será que estamos dando mau exemplo para as crianças, ficando tempo demais no celular, deixando de realizar outras atividades?
Cortesia de Shutterstock

E por falar em limites, nós mesmas precisamos encontrar os limites. Usar o celular sem que isso prejudique seu relacionamento com familiares e amigos, sem que isso te traga angústia e ansiedade e se que isso atrapalhe sua capacidade de apreciar a beleza da natureza e companhias agradáveis. Temos que nos esforçar para sermos exemplos para nossos filhos e outras crianças sob a nossa influência (alunos, sobrinhos e afilhados).

Update

Depois de ter publicado esse post, assisti um vídeo ótimo da Bárbara Cavalcante e que gostaria de recomendar para vocês: