Valorize o saber alheio



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Outro dia eu soube de um diálogo muito interessante, que me fez pensar nesse post.

Um colega me contava que um renomado professor de uma Universidade não gostava de ser chamado de professor. Esse professor notou que muitos funcionários da Universidade que não eram docentes o chamavam de professor como um sinal de respeito, como um título mesmo, como se ele fosse o Papa ou um Rei. E ele não concordava com esse uso. Segundo esse professor, esse status era injusto, porque todo mundo tinha alguma coisa para ensinar.

Claro que os professores merecem muito respeito e reconhecimento, coisa que infelizmente pouco tem na sociedade brasileira. Mas não era é isso que está em questão. O que esse professor quis dizer é que todos nós temos algo a ensinar. Pode não ser algo que se aprende em uma Universidade. Mas pode ser algo que só a vida ensina. Pode ser algo, que talvez quem tenha tido o privilégio de cursar uma Universidade não pôde aprender, já que pessoas privilegiadas muitas vezes são protegidas de certas mazelas e terrores dessa vida.

As experiências na vida de cada indivíduo são únicas. Até irmãos, criados da mesma maneira e com as mesmas oportunidades terão experiências diferentes. Cada um observa uma mesma situação (um passeio em um parque, por exemplo) com seus olhos únicos, com sua personalidade única e cada um terá percepções completamente diferentes. Percepções que poderão depois ser compartilhadas. É por isso que eu gosto de debates. Gosto quando as professoras organizam debates sobre uma determinada obra literária, por exemplo: cada aluno vai ter uma percepção sobre aquela leitura e se todos tiverem a oportunidade de compartilhar suas percepções poderão ajudar no aprendizado do grupo como um todo.

Nós precisamos valorizar também esse saber adquirido com a vida, que podemos chamar de experiência e sabedoria. Quando penso no termo sabedoria, não penso em conhecimento técnico ou conhecimento acadêmico. Quando penso na lendária sabedoria do Rei Salomão, eu imagino uma sensibilidade aliada à inteligência emocional. Imagino também uma percepção aguçada sobre o mundo e sobre as relações interpessoais. Sabe aquelas pessoas raras que sabem lidar com todo tipo de situação, sabem contornar situações aparentemente impossíveis e até lidar com pessoas difíceis? Quando penso em sabedoria, penso nisso. E nenhuma Universidade do mundo vai ensinar isso. Bom, talvez o dia a dia da vida universitária pode até ensinar, já que em todos os espaços de convivência a gente aprende coisas sobre o ser humano. Mas eu acredito que é bastante provável que um vendedor, um porteiro, uma dona de casa, um líder comunitário, etc, saberão lidar melhor com indivíduos do que um cientista, que talvez tenha passado tempo demais em meio aos livros ou em laboratórios.

Não pensem que estou desprezando todo o saber que adquirimos na Universidade. Não é isso. Só quero dizer que ele não é único e não é essencial. Em um mundo ideal, talvez as pessoas pudessem ter a oportunidade de desenvolver várias habilidades. O fato é que sabedoria sobre a vida não tem a ver com saber técnico-científico. E por isso a gente nunca deve fazer pouco do saber dos outros, pois além de extremamente rude, estaremos perdendo a oportunidade de aprender e trocar com o outro.

Só que não é apenas esse tipo de sabedoria sobre a vida que é muitas vezes desprezada. As vezes desprezamos o conhecimento técnico do outro. Vou narrar uma situação que talvez já tenha acontecido com você ou com alguém que você conhece. Vamos supor que seu carro quebra, sofre uma pane inesperada e você não tem a menor ideia do que possa ter acontecido, você não faz ideia de qual possa ser a fonte do problema. Então um mecânico chega, analisa seu carro e constata que o problema é em uma pequena peça. Entre a análise e o conserto o tempo transcorrido é de 30min. Então a conta chega até você: R$300,00. E então você vai pensar (ou dizer):

– Tudo isso por apenas meia hora de trabalho e por trocar apenas essa peça pequena?

Quando a gente pensa assim, estamos desvalorizando o saber alheio. Para ele adquirir a expertise de poder dizer qual era o problema e solucioná-lo em menos de uma hora, levou um tempo de aprendizado e de experiência prática. Em outas palavras, ele tem uma bagagem acumulada que você não tem. Por isso pague os R$300,00 e agradeça pela competência e honestidade dele (estou aqui imaginando um profissional honesto e que cobra preços justos).

Veio a minha cabeça essa história do mecânico, mas já ouvi histórias semelhantes sobre dentistas, técnicos em informática e outros prestadores de serviço. É fácil para um leigo dizer “nossa, mas era só isso”, quando o profissional te informa e te explica sobre o problema. Entretanto, você sozinho talvez fosse incapaz de encontrar o problema que agora parece simples e claro, resolvê-lo.

Sendo assim, eu escrevi esse post para que eu e todos os meus leitores possamos refletir sobre o assunto. Será que estamos desprezando o saber alheio. Vamos compartilhar e trocar. E vamos aprender também a manter certos julgamentos apenas presos em nossas mentes. Certas coisas são juízos de valor e não devem ser ditas. Quando a gente mantém algo apenas preso em nossas mentes, ainda há tempo de refletir sobre aquilo e aproveitar ou não aquela ideia. Por outro lado, quando a gente expõe certas coisas, acabamos magoando as pessoas e depois fica mais fácil de reparar e de se explicar.