Delicadeza na transmissão de informações: o cuidado com as pessoas



Meteorologistas adoram furacões, tornados e tempestades de um modo geral. Tempo severo é uma área que chama a atenção e a qualidade da previsão a curtíssimo prazo (nowcasting) tem aumentado nos últimos anos. Além disso, é possível acompanhar em tempo real os dados meteorológicos e as imagens que mostram toda a força da natureza e dos estragos causados por ela.

Fenômenos naturais são belos e muitos alunos decidem estudar meteorologia porque são fascinados por essa beleza. Mas precisamos nos lembrar das vítimas desses fenômenos e atentar para a nossa maneira de se comunicar. Cortesia de Shutterstock

Além dos meteorologistas, conheço pessoas de outras áreas que gostam muito do assunto e acompanham, leem a respeito e possuem um ótimo conhecimento geral sobre o tema. A questão é que com as redes sociais, na minha opinião, a gente acaba se empolgando um pouco e corre o risco de ser insensível ou desrespeitoso com quem vive nas áreas afetadas pelo fenômeno e perdeu pessoas queridas e bens materiais.

Eu acredito que risco semelhante correm os geólogos e geofísicos que acompanham notícias sobre terremotos e tsunamis. A gente corre um risco enorme de ser insensível e esse risco é aumentado com a velocidade da transmissão de informação. Eu tenho acompanhado o desenvolvimento dos furacões no Atlântico ao longo do ano de 2017, com o objetivo de explicar para as pessoas como o fenômeno se forma. Tenho observado que muitos brasileiros que moram nas áreas afetadas têm me seguido no Twitter.  E por causa disso, passei a refletir sobre a necessidade dessa sensibilidade.

Acompanho vários perfis de meteorologistas no Twitter, assino fanpages de instituições de ensino e pesquisa ligadas à Meteorologia, além de acompanhar órgãos e empresas que fazem o acompanhamento das condições meteorológicas. Eu tenho percebido que certas atitudes não cabem. Ficar comemorando recorde de precipitação, por exemplo, pode soar péssimo.  Claro que recordes devem ser informados, até para a população ter uma ideia da dimensão do problema. Mas temos que tomar cuidado com a maneira que nos comunicamos, porque a gente não sabe o estado emocional e físico de quem precisa daquela informação.

Usando como exemplo o caso dos furacões no Atlântico (mas poderiam ser chuvas intensas em áreas tipicamente sujeitas a deslizamentos de terra), fico pensando como já fica o estado emocional de quem vive em uma daquelas cidades banhadas pelo Golfo do México. Por mais que as pessoas fiquem “acostumadas” com a temporada de furacões, é claro que é algo que preocupa e traz a memória situações muito tristes de outros anos.

Por isso, a gente precisa ter muito cuidado com a escolha das palavras. A informação precisa ser direta e fácil de entender, sem dar margens a dúvidas. Uma vez uma famosa repórter me deu uma dica valiosa: explique para as pessoas como se você fosse explicar para a sua avó. Acho que é exatamente por aí que pessoas que trabalham dando informações sobre o tempo devem conduzir as explicações.

Ao meu ver, é melhor ser cauteloso em um informe do que nada dizer e depois o pior acontecer. Previsões do tempo tem uma margem de erro e, claro, muitas vezes uma chuva intensa é prevista em um local, porém a chuva intensa não se concretiza. Mas ao meu ver é melhor alertar sempre ressaltando as limitações da previsão do tempo e exaltando a importância da previsão do tempo na prevenção de mortes.

Eu já vi (não para o caso dos furacões) perfil da área de previsão do tempo se valendo de memes e de informações espalhafatosas/exageradas e clickbait. Eu sei que a gente quer que a Meteorologia seja conhecida, valorizada e reconhecida em sua importância. Mas agir com seriedade para mim é a melhor alternativa, porque atinge todos os públicos e evita potenciais palavras desrespeitosas. Ser sério não significa ser sisudo, dá para ser sério e simpático e sério e muito humano, pensando nos problemas que as vítimas de catástrofes naturais enfrentam.