Desrespeito ao profissional: ofertas de trabalho com pagamentos baixíssimos



Hoje vamos falar de mercado profissional em Meteorologia. Sendo assim, quase tudo o que eu falar abaixo vai ter relação especificamente com as vagas para Meteorologia. Preciso deixar bastante claro que não sou nenhuma “guru” ou “coach profissional”, até porque tenho várias reservas com esses termos. Eu estou aqui apenas como uma profissional de cerca de 10 anos de experiência e como uma mulher de mais de 30 anos dando minha opinião sobre alguns acontecimentos recentes. Ou seja, “ouçam a voz da experiência”, claro, experiência essa que tem seus limites.

Hoje vamos falar sobre o mercado profissional de Meteorologia e sobre duas vagas assustadoras que vi recentemente. Imagem: Cortesia de Shutterstock

Recentemente me deparei com duas vagas de trabalho para minha área profissional. Eram bolsas de pesquisa, fornecidas por agências de fomento em projetos envolvendo a iniciativa privada ou Instituições de ensino/pesquisa.

A primeira vaga era para trabalhar em uma startup, com salário de R$597,80. Era necessário ser formado, a carga horária era de 20h semanais e além de ser formado, o candidato precisava ter experiência no uso de um modelo meteorológico específico.

Na segunda vaga, o trabalho era em um projeto que envolvia várias instituições, incluindo uma universidade federal de prestígio. Era necessário já ter se formado em Meteorologia (ou outras áreas relacionadas) e ter dedicação exclusiva (ou seja, não pode ter outro emprego ou outra bolsa paralelamente a esse trabalho). O valor da bolsa era de R$550,00.

Gostaria de deixar um aspecto de minha opinião bastante claro: receber uma bolsa de pesquisa no lugar de um salário não é o ideal, mas também não é de todo ruim. Eu já trabalhei recebendo bolsa, porém o valor pago era razoavelmente justo. O local de trabalho era bom também: tinha refeitório, ambulatório, clube, etc. O ambiente também era ótimo, bons colegas e chefe justo.

Claro que o ideal é receber um salário justo e com todos os direitos garantidos para quem é contratado no regime CLT, mas nem sempre isso é possível. Tanto que muitas vagas hoje em dia são no regime PJ (Pessoa Jurídica) e não há nenhum problema em trabalhar como PJ, desde que a pessoa tenha a cabeça no lugar e saiba se organizar financeiramente, sempre pensando em formas de investir parte de seu dinheiro pensando no futuro (a gente fica doente, desempregada, grávida, idosa, etc então é preciso sempre ter uma reserva pensando nisso e pagar um plano de previdência, se possível).

O que quero dizer aqui é que merecemos ser pagos justamente por nosso trabalho, independentemente se esse pagamento é feito através de bolsa, PJ ou uma linda vaga CLT. Nosso saber e nossa experiência precisam ser valorizados. No caso dos meteorologistas, temos uma regulamentação salarial (leia mais sobre isso nesse post) e portanto espera-se que recebamos pelo menos o piso salarial, mas infelizmente não é o que ocorre na prática. Na prática, as empresas pagam menos que o piso. Só que essas duas vagas em particular me assustaram muito, já que o valor está muito menor que o piso. As duas vagas exigem que o profissional já seja formado, ou seja, querem pagar menos do que o que se pagaria para um estagiário para um profissional graduado.

Não culpo somente os responsáveis pelas vagas. Culpo também as agências de fomento, que abrem brechas para que essas ofertas de bolsas de valores baixíssimos sejam criadas. A realidade do profissional de Meteorologia é a de que muitas vezes ele precisa deixar sua cidade de origem para trabalhar em outro lugar e evidentemente esse salário não paga aluguel, passagens aéreas/rodoviárias, alimentação, etc. Constituir uma família então, nem pensar! Pessoalmente eu teria vergonha de anunciar uma vaga com a desses dois casos mencionados. Se eu tivesse uma empresa, eu sinceramente preferiria ter trabalho adicional e fazer tudo sozinha do que anunciar uma vaga dessas e só contrataria alguém quando meu negócio tivesse condições de pagar um salário digno para um profissional.

Há quem defenda esse tipo de vaga, dizendo que é uma ‘oportunidade de crescimento’. Discordo disso! Bom, só se for oportunidade de crescimento para a empresa ou para o responsável do projeto. Claro que a gente aprende em qualquer trabalho que realizamos, só que precisamos de uma contrapartida justa. Ainda não sei de um meteorologista que faça fotossíntese e os boletos chegam. A gente amadurece, sente vontade de morar sozinho ou de constituir família. Trabalhar é a maneira de realizar esses sonhos, então do que adianta aprender tudo sobre programação em uma vaga de trabalho e não ter dinheiro para pagar o aluguel?

Como já disse em um post recente, o saber precisa ser valorizado. Precisamos respeitar as competências do outro, seus anos de estudo e dedicação. Infelizmente, vagas assim atraem interessados por que há poucas vagas em nossa área profissional e o indivíduo fica realmente preocupado, não quer ficar parado e acaba aceitando condições absurdas. Candidatar-se ou não uma vaga dessas, vai de cada um, porque eu realmente não estou na pele do outro para saber sobre seu nível de preocupação, desespero, cobrança familiar, etc. No entanto, acho que criticar esse tipo de vaga e discutir essa desvalorização profissional é importante. Se nós não valorizarmos e enaltecermos nossa profissão desde a graduação, pode ser que esse tipo de oferta de trabalho seja mais recorrente.

Uma amiga mencionou algo interessante: não oferecem esse tipo de vaga aviltante para engenheiros. É verdade, mas se você for observar, eles já são treinados a valorizar a profissão desde a graduação. A própria sociedade em geral valoriza mais um engenheiro do que um meteorologista, talvez porque nem compreenda o que faz um meteorologista (espero que esse blog esteja ajudando de alguma maneira nesse esclarecimento). Por isso cabe também a nós meteorologistas falarmos sobre nosso trabalho, valorizarmos nossos anos de estudo, nosso saber e até ajudarmos na divulgação científica de nossa área, para que compreendam a importância de nossa profissão.

Não seja enganado com migalhas

Agora vou falar um pouquinho de vagas de outras áreas profissionais. A fanpage Vagas Arrombadas  mostra casos de vagas de trabalho desrespeitosas em várias áreas, principalmente para áreas de trabalho mais ligadas aos setores de marketing e publicidade. A gente lê sobre casos absurdos de permuta, salários totalmente abaixo dos valores comumente pagos pelo mercado, exigências absurdas ou ridículas, etc. Seja qual for sua área profissional (meteorologista ou não), você já deve ter se deparado com uma vaga arrombada.

Observo que um dos pontos em comum na maioria das vagas denunciadas na fanpage é a tentativa de enganar o candidato com migalhas. Eu soube de vagas que oferecem como “benefício” assinatura de Netflix ou Spotify. Gente, com uns R$60,00 por mês você assina esses dois serviços, então onde isso é benefício? Benefício é vale refeição, alimentação, plano de saúde, plano odontológico, etc.

Há também as bestajadas, que são oferecidas para os adultos que são eternamente crianças: doces a vontade, videogames, sala com puffs coloridos, etc. E tem também aquelas coisas para adulto hipster: cerveja artesanal,  máquina de café não-sei-das-quantas, poder ir trabalhar de bermuda, etc. Há quem seja ludibriado por essas coisas e aceite trabalhar com um salário incompatível com o total de horas de trabalho semanal.

Outra migalha comumente oferecida é o home office. Profissionais muito jovens parece que não compreendem totalmente que trabalhar em casa e trabalhar no escritório é a mesma coisa. Sim, você pode trabalhar com sua camiseta esburacada do Iron Maiden que você usa para dormir e isso é confortável, mas é trabalho da mesma maneira: você vai ter que estar a disposição de seu chefe ou cliente. E embora você não precise gastar com roupas elegantes ou gasolina, você vai ter que ter uma pequena estrutura que te permita trabalhar em casa (internet de qualidade, notebook, etc) e isso custa dinheiro! Portanto, no final das contas trabalhar em casa e trabalhar no escritório é a mesma coisa, porque é trabalho do mesmo jeito. Claro que dependendo de seu estilo de vida ou necessidade, você vai preferir um ou outro mas é tudo trabalho do mesmo jeito.

Cuidado com essas migalhas. Valorize-se como profissional. Eu tenho um enorme problema em “dar o meu preço” e acho que isso é comum em diversas áreas profissionais. Os meteorologistas pelo menos tem um ponto de partida, que é essa resolução do CREA e acredito que devemos trabalhar em cima disso. Se a empresa não paga o piso salarial do CREA, porém chega muito perto disso e oferece bons benefícios, acho que você pode considerar que é uma vaga justa também. Conversar com colegas que já estão trabalhando e procurar saber o quanto se paga em outras vagas de trabalho semelhantes também ajuda. Outra coisa: sempre se atualize. Leia sobre o mercado profissional, faça cursos, participe de workshops, planeje uma pós-graduação, etc. A gente tem que valorizar nosso currículo com saber para depois valorizar o tempo investido na consolidação desse saber através da exigência de um salário justo.