O que as nuvens lenticulares podem nos mostrar?



Eu falei sobre nuvens lenticulares nesse post e antes de continuar no tema principal do post de hoje, vou dar uma breve pincelada no sistema de classificação de nuvens. Peço que meus leitores mais interessados não deixem de conferir os links que menciono ao longo do texto.

Figura 1: Altocumulus lenticularis em Kamchatka, Rússia, na região dos vulcões Flat Tolbachik e Ostry. Cortesia de Shutterstock

Classificação de nuvens

As nuvens possuem nomes. A classificação que usamos até hoje foi inicialmente desenvolvida por Luke Howard, no início do século XIX. Esse sistema de classificação foi se aperfeiçoando, novos nomes foram propostos e a Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization) possui um material padronizado chamado Atlas Internacional de Nuvens, que é um guia de referência para técnicos de estações meteorológicas de todo o mundo.  Esse material também é referência para apreciadores de nuvens, os meteorologistas amadores que tanto gostam de fotografar nuvens e discutir o assunto.

Inicialmente, as nuvens são divididas em 3 tipos (altas, médias e baixas). São divididas também em 10 gêneros. Os tipos e os gêneros estão indicados na figura a seguir, uma figura que é conhecida por muitos amantes de nuvens e também já foi várias vezes referenciada aqui no blog:

Figura 2 – Tipos (com indicativo de suas alturas) e gêneros das nuvens. Fonte: Meteorology Today, Ahrens D. Adaptado por mim para o Meteorópole.

Mas a classificação de nuvens não é limitada apenas nos 10 gêneros. Os 10 gêneros seriam os “nomes próprios” das nuvens, porém elas podem ter também sobrenomes.

Além dos gêneros, as nuvens também possuem variedades, espécies e nuvens anexas que funcionam como “nome e sobrenome(s)” das nuvens. O Vinícius, do Monolito Nimbus apresentou nesse post uma excelente tabela resumindo cada uma das variedades e espécies. Outro material muito bom para quem deseja se aprofundar no tema é a própria fonte: a versão online do Atlas Internacional de Nuvens mais recente.

Sendo assim, usando esse sistema uma nuvem pode se chamar, por exemplo Cumulus congestus flammagenitus, como a que destaquei nesse tweet:

O nome Cumulus congestus flammagenitus é constituído pelas seguintes partes:

  • Cumulusgênero da nuvem, conforme indicado na Figura 2
  • congestusespécie da nuvem. Os nomes podem conter apenas uma espécie
  • flammagenitusvariedade. A variedade da nuvem e as nuvens anexas (ou características anexas, caso haja alguma identificável) podem se apresentar em vários nomes para constituir o nome completo da nuvem.

Ou seja, como sempre brinco, o nome Cumulus congestus flammagenitus  seria o nome completo da nuvem: nome próprio e seus sobrenomes. Observe também que os nomes que correspondem às espécies, variedades e nuvens anexas aparecem em letras minúsculas, lembrando um pouco o sistema de Classificação dos Seres Vivos.

Para quem quer se aprofundar mais no sistema de Classificação de nuvens, além dos links que já indiquei até aqui no texto, recomendo também a Moment a seguir, que está em crescimento constante. Todas as vezes que eu vejo algum link que na minha opinião acrescenta na compreensão das nuvens, eu costumo acrescentá-lo nessa Moment. Essa é uma das Moments que criei, sempre com finalidade educacional ou de divulgação científica. Recentemente escrevi um post sobre esse recurso.

A espécie lenticularis

Mas como esse post é para falar de nuvens lenticulares, vou falar da espécie lenticularis, principalmente do Altocumulus lenticularis.

A espécie lenticularis pode estar relacionada com outros gêneros de nuvens.  Conforme indicado na tabela do Vinícius, a espécie lenticularis pode estar associada com os gêneros de nuvens Stratocumulus, Altocumulus e Cirrocumulus. Claro, o gênero vai depender da altura dessa nuvem (ver Figura 2), mas em geral o que mais vemos por aí são Altocumulus lenticularis.

Em maio deste ano, escrevi um post sobre Altocumulus lenticularis que se formaram nos céus de São José dos Campos (mas poderia ter sido qualquer lugar, destaquei esse caso apenas porque foi amplamente noticiado). As nuvens Altocumulus lenticularis são algumas vezes confundidas com UFO’s (OVNI’s), devido sua aparência peculiar (Figura 2). Como o nome sugere, a espécie lenticularis é para classificar uma nuvem que tem uma aparência bem característica que lembra uma lente.

Figura 2: As nuvens lenticulares (usando o termo em latim para o gênero, lenticularis) chamaram atenção de moradores do Vale do Paraíba (Foto: Rodrigo Alves/ Vanguarda Repórter)

O que a presença desse tipo de nuvem no céu indica? A atmosfera é um fluido e assim como o oceano, apresenta ondas. Enquanto no oceano o efeito das ondas é visível pela movimentação da água e pela presença de espumas quando elas arrebentam, na atmosfera o efeito dessas ondas pode ocorrer através da presença de algumas nuvens específicas e os Altocumulus lenticularis é uma delas.

As ondas na atmosfera podem ser nomeadas e classificadas de acordo com seu mecanismo de formação, periodicidade e amplitude. Por exemplo, as ondas tropicais que desencadeiam a formação de furacões (falei aqui nesse post) tem esse nome devido ao local em que se formam.

Se a gente pudesse ver todas as ondas que percorrem a atmosfera, veríamos algo bem ‘caótico’ como o que a gente vê na superfície de um oceano. Só que a atmosfera não tem uma “tampa”, um limite como o que temos no oceano (que é a interface entre o oceano e a atmosfera), então não é sempre que a gente consegue ver as ondas.

As ondas associadas às nuvens lenticulares são as chamadas ondas de gravidade, um dos vários tipos de ondas encontrados na atmosfera. É importante reforçar que ondas de gravidade podem acontecer em qualquer fluido onde empuxo ou a força da gravidade tentam restaurar o equilíbrio. Quando a gente joga uma pedra em um lago, estamos criando ondas de gravidade. E mais uma vez, a gente vê essas ondas na superfície do lago porque o lago tem uma “tampa”, um limite. A atmosfera não tem tampa, então as ondas de gravidade tendem a se propagar cada vez mais pra cima.

Quando as ondas de gravidade na atmosfera finalmente quebram, como as ondas do oceano quebrando em uma costa, essas ‘ondas de ar’ liberam sua energia para a atmosfera superior. Isso pode forçar os ventos a soprar em diferentes direções e aumentar a circulação na atmosfera.

As ondas de gravidade  na atmosfera são também chamadas de lee wavesSão ondas estacionárias e sua forma mais comum são as ondas associadas a montanhas.  Por essa razão, essas ondas são comuns em regiões montanhosas. De acordo com pesquisadores da University of Bath, as chances de ondas de gravidade ocorrerem na região dos Andes é em torno de 10x maior do que no restante do mundo.

O fenômeno das ondas de gravidade não deve ser confundido com o das ondas gravitacionais, que são fenômenos que ocorrem no espaço.

Imagine um pequeno seixo em um riacho. A água sobe por esse seixo e escorre para o outro lado. Quando a água cai do outro lado do seixo, ela cai porque ela é atraída pela gravidade. Na superfície, a água move-se para cima e para baixo, oscilando sob a gravidade e criando um efeito ondulante duradouro. Isso também acontece na atmosfera, mas, em vez de uma água que flui sobre um seixo, o ar flui sobre as montanhas.

 

Se houver umidade suficiente nesse ar que está fluindo sobre as montanhas, o vapor d’água pode condensar-se quando subir e encontrar temperaturas mais baixas. Dessa maneira, temos a formação de nuvens que são ‘esculpidas’ pelo movimento do ar, dando o característico formato de lente.

Os Altocumulus lenticularis portanto possibilitam uma rara possibilidade de ao menos vermos “parte” das ondas de gravidade na atmosfera. Elas dão o indício de que essas ondas estão lá. As ondas de gravidade causam movimentos em toda a atmosfera, já que elas se formam na troposfera e o movimento vertical segue até as camadas mais altas da atmosfera.

Figura 3 – Grande Altocumulus lenticularis no Monte Shasta, na Califórnia. Fonte: NASA

Compreender completamente o mecanismo das ondas de gravidade ajuda a entendermos mais sobre os movimentos na atmosfera, o que pode melhorar os modelos de previsão do tempo e do clima. Nesse recente atigo de divulgação científica, pesquisadores da University of Bath falam de seus esforços em tentar compreender essas nuvens, com o objetivo de entender qual o efeito delas no tempo e no clima.

Bibliografia (além dos links citados)