O que eu tenho a dizer sobre o Furacão Harvey



Se você chegou até meu blog agora, deixe-me apresentar. Sou meteorologista formada pela Universidade de São Paulo (e não falo isso como argumento de autoridade, falo para divulgar essa profissão mesmo). Tenho quase 12 anos de formada, também fiz mestrado na área de Modelagem Numérica (área que estuda, de maneira bem simplificada, programas de computador que são utilizados no processo de previsão do tempo), trabalhei com previsão do tempo muito brevemente, também trabalhei com modelos oceânicos e tenho 8 anos de experiência com instrumentos meteorológicos e divulgação científica.

Divulgar ciência foi o que me fez criar o blog. Eu não gosto apenas de Meteorologia, eu gosto de outras áreas do conhecimento e sempre me incomodou a forma com que a ciência é divulgada na maioria dos sites de notícias: superficialidade, desinformação e muita confusão. Se eu puder desatar alguns nós aqui no meu blog, eu fico feliz.

Enfim, vamos falar sobre o Furacão Harvey.

Missouri City, Texas, 29 de Agosto de 2017: enchentes fizeram com que os moradores dessa área tivessem que se deslocar com botes. Cortesia de Shutterstock

Furacões: um pequeno e rapido raio-X

Ciclone tropical é um termo geral para esse fenômeno meteorológico, mas dependendo de sua localização geográfica e de sua intensidade, os ciclones tropicais podem ganhar várias outras denominações, tais como furacãotufãotempestade tropicaltempestade ciclônicadepressão tropical ou simplesmente ciclone.[1]

A primeira coisa que acho importante deixar claro é que furacões e tornados são fenômenos distintos. Já falei sobre essas diferenças várias vezes aqui no blog e mais uma vez deixo esse link onde explico as diferenças.

O nome técnico de furacão é ciclone tropical, sendo assim é bem provável que você deve ter lido esse termo por aí também. Um ciclone tropical é caracterizado por uma área cuja pressão atmosférica vai reduzindo em direção ao seu centro.  Visto de cima, a partir de uma imagem de satélite ou de uma fotografia da Estação Espacial Internacional,  um ciclone tropical é uma massa de nuvens que tem um formato aproximadamente “circular” com um diâmetro de algumas centenas de quilômetros, ou seja, é realmente um fenômeno muito grande quando a gente compara com as escalas de tamanho que lidamos diariamente (tamanho de nossa casa, de nosso bairro, trajeto de casa até o trabalho, etc).

Furacões são fenômenos grandes o suficiente para estarem sujeitos a força de Coriolis. Sendo assim, seu giro característico é no sentido anti-horário no hemisfério norte e horário no hemisfério sul.

A grande diferença de pressão atmosférica entre o centro do ciclone tropical e suas vizinhanças gera uma força chamada força de gradiente de pressão. Essa força faz com que ventos intensos possam ser gerados, podendo ultrapassar os 300km/h.

Furacões se formam no oceano, recebendo como energia o calor latente de evaporação da água do mar. Portanto, eles se formam em regiões de água mais quente, como o Golfo do México. Os fenômenos atmosféricos de um modo geral costumam acontecer em condições já conhecidas pela climatologia e pela modelagem numérica. Como o Golfo do México é uma região de conhecida incidência de furacões, os Estados Unidos e outros países que tem litoral para o Golfo do México possuem departamentos especializados. O mais avançado é o NHC (National Hurricane Center), da NOAA, dos EUA.

No Golfo do México, a temporada de furacões ocorre entre junho e novembro. Essa informação é obtida climatologicamente, ou seja, ao longo de muitos anos de observação, verificou-se que os furacões costumam ocorrer entre esses meses.

Agora observem o site do NHC: ele é de simples navegação e a informação sobre o ciclone tropical mais preocupante daquele momento já está disponível na home. É um site também muito leve, que permite que as pessoas acessem a informação rapidamente em seus smartphones mesmo se a internet não estiver boa. É uma fonte de informação muito importante para a imprensa e para as pessoas das áreas tradicionalmente afetadas pelos furacões.

Como eu mencionei anteriormente, os furacões se formam nos oceanos. Mas quando eles fazem o seu landfall, ou seja, quando chegam no continente, os ventos e as chuvas fortes associadas a ele fazem muita destruição. A imagem que abre a postagem é referente ao Furacão Harvey e nela podemos ver uma área alagada. Aqui em São Paulo-SP estamos acostumados com alagamentos, mas quando o assunto é furacão, algumas coisas são bem diferentes dos alagamentos associados a tempestades de verão:

– Acumulação de chuva muito significativa e ao longo de vários dias: várias localidades vizinhas de Houston, TX tiveram quase 1000mm de chuva em apenas 4 dias associadas ao Furacão Harvey (é quase a média anual da cidade). Ou seja, o alagamento persiste e só vai aumentando, já que fica chovendo por vários dias. Isso é diferente de uma chuva de apenas algumas horas (ou até menos de 1h) em apenas uma tarde.

– Ventos intensos, que podem ultrapassar 200km/h. Isso causa destelhamentos, árvores caem, etc. Quando temos tempestades de verão aqui em São Paulo, também temos ventos fortes, porém eles dificilmente ultrapassam os 100km/h.

-As tempestades de verão são mais “pontuais”. É fácil notar o que acontece em uma tempestade de janeiro aqui em São Paulo: um bairro fica debaixo d’água, enquanto outros bairros ficam completamente secos. O fenômeno é muito menor do que um furacão e consequentemente atinge uma área muito menor.

Claro que nesse rápido “raio-X” de um furacão eu certamente não dei todos os detalhes sobre sua formação e sua dinâmica, mas acredito que dei uma rápida e importante introdução.

A Escala Saffir-Simpson, a previsão e teorias da conspiração

E por falar em velocidade dos ventos associados a um furacão, é importante falar da escala que caracteriza a intensidade de um furacão. O nome dessa escala é Saffir-Simpson.

Na imprensa, é comum reforçar que o Furacão Harvey foi um furacão de Categoria 4 (a penúltima categoria mais destrutiva), porque é uma informação que explica a intensidade do furacão.

Abaixo, a tabela mostrando a escala Saffir-Simpson e o que quer dizer esses números associados a categoria.

Categoria Ventos em mph

(milhas por hora)

Ventos em km/h Altura / m Pressão / hPa
Tempestade Tropical 35–73 51-118
1 74–95 119–153 1,2–1,6 Maior que 980
2 96–110 154–177 1,7–2,5 965–979
3 111–130 178–210 2,6–3,8 945–964
4 131–155 211–249 3,9–5,5 920–944
5 Mais que 155 Mais que 249 Mais que 5,5 Menor que 920

 

Um furacão de Categoria 4 pode provocar muitos danos nas áreas habitadas. Os ventos podem derrubar construções e as chuvas torrenciais podem provocar grandes inundações.

Atualmente, é possível prever o desenvolvimento de um computador através de todo o processo de previsão do tempo. Além disso, é possível monitorar o deslocamento dos furacões usando imagens de satélite. Essas informações permitem que as áreas que vão ser atingidas pelo fenômeno possam ser evacuadas com antecedência.

Não existe atualmente nenhuma técnica para evitar furacões ou fazer com que eles mudem sua trajetória. Por isso a prevenção e a mitigação são as melhores maneiras de evitar com que pessoas morram. Danos materiais vão infelizmente existir e já existem técnicas de construção que minimizam esses danos. O trabalho do meteorologista é essencial, pois todo o processo de previsão do tempo (observação, monitoramento, análise de dados, etc) pode ser o diferencial para evitar que pessoas morram, pois possibilitam que elas sejam avisadas com boa antecedência. Isso é levado muito a sério pelo NHC e infelizmente ainda não vejo a mesma seriedade aqui no Brasil, onde pessoas morrem anualmente em decorrência de chuvas torrenciais e suas consequências (alagamentos, deslizamentos de terra, principalmente).

Essa história de HAARP ou de “os militares estão testando alguma arma secreta” é pura bobagem. É apenas mais uma conversa daqueles que são adeptos de teorias da conspiração. Furacões não são uma “coisa nova”: eles sempre existiram e sempre causaram danos, a questão é que no passado as cidades eram menores e mais espaçadas. Ou seja, até saberem que uma cidade foi devastada por um furacão poderia demorar algum tempo. Além disso, os meios de comunicação não forneciam informações em tempo real, como é hoje em dia. É necessário acrescentar também que os satélites meteorológicos permitiram que pudéssemos ver os furacões desde o seu nascimento, o que não era possível antes. Muitos furacões “morrem” antes de atingir o continente, porque atingem áreas com alguma perturbação atmosférica ou porque atingem áreas com águas mais frias, por exemplo. A propósito, quando um furacão atinge o continente ele “morre”, porque sua fonte de energia (evaporação da água do mar) é interrompida. Porém antes de morrer, os ventos fortes e as chuvas associadas à tempestade causam muito dano, como discutimos.

O Furacão Harvey

O Furacão Harvey atingiu o estado do Texas, nos EUA, como um furacão de Categoria 4.  É o primeiro furacão a atingir o estado do Texas desde o Furacão Ike em 2008, o primeiro furacão de Categoria 4 a atingir o estado desde o Furacão Bret em 1999 e o mais forte a atingir o estado desde o Furacão Carla em 1961, e produziu a segunda menor pressão barométrica já registrada na história do estado ao atingir o solo. Também é o furacão mais forte no Golfo do México desde o Furacão Rita em 2005 {x}.

Por ser o oitavo ciclone tropical da temporada 2017, foi nomeado como Harvey de acordo com a lista pré-estabelecida pelo NHC. A lista que está sendo utilizada pelo NHC para 2017 é essa:

2017
Arlene
Bret
Cindy
Don
Emily
Franklin
Gert
Harvey
Irma
Jose
Katia
Lee
Maria
Nate
Ophelia
Philippe
Rina
Sean
Tammy
Vince
Whitney

 

Eu vou falar mais sobre nomes de furacões no subtítulo a seguir, mas observe que não ouvimos falar sobre os nomes anteriores a Harvey (exceto se você é o louco dos furacões, como meu amigo e colega de profissão Felipe Vemado). Não ouvimos falar deles porque eles não foram intensos ou destrutivos. Muitos deles sequer se desenvolveram a ponto de se tornarem furacões, foram apenas tempestades tropicais.

O furacão Harvey surpreendeu os meteorologistas porque ele começou a se enfraquecer e depois fortaleceu, atingindo a Categoria 4 em 25 de agosto. O relato abaixo, resumido pela Wikipedia, mostra um pouco da história do Harvey, desde seu tímido nascimento nas proximidades das Pequenas Antilhas em 17 de agosto até atingir Rockport, Texas, em 25 de agosto:

O furacão Harvey se desenvolveu a partir de uma onda tropical ao leste das Pequenas Antilhas no dia 17 de agosto. A tempestade atravessou as Ilhas de Barlavento no dia seguinte, passando ao sul de Barbados e depois perto da Ilha de São Vicente. Ao entrar no Mar do Caribe, o Furacão Harvey começou a enfraquecer devido ao moderado cortante do vento e degenerou-se em uma onda tropical no norte da Colômbia no início de 19 de agosto. Os remanescentes foram monitorados para regeneração, enquanto continuava para o oeste-noroeste em todo o Caribe na Península de Yucatán antes de voltar a desenvolver-se sobre a Baía de Campeche em 23 de agosto. O Furacão Harvey começou a se intensificar rapidamente em 24 de agosto, recuperando o status de tempestade tropical e tornando-se um furacão mais tarde naquele dia. Movendo-se geralmente para o noroeste, a fase de intensificação do Furacão Harvey permaneceu ligeiramente estável durante a noite de 24 a 25 de agosto, porém o Furacão Harvey logo retomou o fortalecimento e se tornou um furacão de Categoria 4 no final de 25 de agosto. Horas depois, o Furacão Harvey atingiu o solo em Rockport, Texas, em sua máxima intensidade {x}.

Ao chegar no Texas, Harvey se deslocou em direção a Houston, uma área densamente habitada. E isso foi o que despertou uma atenção ainda maior, fazendo com que alertas fossem emitidos. Os números da destruição do Furacão Harvey podem ser vistos nessa compilação da BBC. Destaco também o vídeo abaixo, em que Helen Soares, uma querida colega minha de faculdade e que atualmente mora em Houston dá o seu depoimento:

Animação feita com imagens obtidas pelo satélite GOES-13 e que mostram o deslocamento do Furacão Harvey, atingindo a costa texana. O mapa também mostra as cidades afetadas. Fonte: EO-NASA

As imagens de satélite também permitem que se tenha uma melhor visualização das áreas afetadas pelo furacão, após sua passagem. A imagem abaixo é bastante interessante e mostra uma comparação entre a mesma área de Houston TX antes de ser atingida pelo Furacão Harvey e depois de sua passagem. As áreas escura, amarronzadas, mostrando o alagamento são impressionantes.


Ou seja, mencionei anteriormente a importância das imagens de satélite na melhoria da previsão do tempo e no acompanhamento do deslocamento dos furacões. No entanto, elas também são importantes após a passagem do furacão, uma vez que permitem uma avaliação da área afetada pelo fenômeno e podem auxiliar as autoridades na reconstrução das áreas.

Dando nomes aos furacões

Eu observo que uma coisa que mexe com a imaginação das pessoas é essa questão dos nomes dos furacões. Eu falei sobre o assunto no Twitter:


Como Harvey é um nome masculino (e facilmente lembra o talentoso ator Harvey Keitel), muita gente ficou em parafusos, pois ainda tinha aquela ideia errada pré-estabelecida de que furacões tem apenas nomes de mulheres. Se você quiser saber mais, recomendo alguns posts que já escrevi sobre o tema:

Furacão é uma coisa ‘nova’? Não!

Por que furacões tem nomes de mulheres?

A história por trás dos nomes dos furacões

O que são tornados? Tornados são o mesmo que ciclones e furacões?

É importante destacar que furacões muito destrutivos, como o Furacão Harvey, tem o nome “aposentado”. Isso significa que o nome Harvey nunca mais será utilizado nas listas do NHC, para nenhum outro furacão futuro. As listas do NHC são reaproveitadas a cada 5 anos e ocorrem mudanças nas listas quando nomes são aposentados. Sendo assim, a lista utilizada em 2017 será re-aproveitada daqui 5 anos, porém o nome Harvey será substituído por outro nome tipicamente masculino. Observem que nas listas do NHC, há alternância entre nomes masculinos e femininos para designar os furacões.

Furacões e Mudanças Climáticas

Nos últimos anos, sempre que algum fenômeno meteorológico extremo e muito destrutivo ocorre, é inevitável pensar se ele é consequência do aquecimento global. Furacões como o Rita, o Katrina, o Sandy e o Harvey fazem com que a comunidade científica reforce essa discussão e também faz com que o público em geral participe dessa discussão, dando sua opinião mesmo que mal fundamentada.

Vários estudos apontam que o aquecimento global pode estar aumentando a probabilidade de aguaceiros em diversas regiões do planeta. Sendo assim, é plausível pensar que o aquecimento global possa favorecer a ocorrência de furacões. Pensando de maneira muito simplificada, o maior aquecimento das águas do oceano em regiões onde já costumam ocorrer furacões pode fornecer mais ‘combustível’ para que furacões mais intensos se desenvolvam.

No entanto, não é prudente escolher um único fenômeno (como é o caso do Furacão Harvey) e afirmar categoricamente que ele foi causado ou reforçado devido ao aquecimento global. O que os cientistas do clima conseguem fazer com os modelos climáticos e análise de dados observados é apontar regiões onde tempestades podem ficar mais intensas ou em maior quantidade. No entanto, fenômenos como o Furacão Harvey acendem uma luz de alerta e estimulam que mais pesquisas a respeito do assunto sejam feitas.

Para saber mais sobre furacões e sobre sua relação com o aquecimento, recomendo essa série de vídeos do Prof. Dr. Pedro Dias, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP e atual diretor do mesmo instituto.