A internet-livro: por que eu peguei raiva do Instagram e do Facebook?



Como muitas pessoas, tenho perfil no Instagram e no Facebook. Inclusive sempre peço para que meus leitores me acompanhem pelas redes sociais também, pois sempre compartilho notícias e textos relacionados com Ciência e também divulgo o conteúdo do meu blog.

A internet-livro: eu amo e irei proteger!
Cortesia de Shutterstock

Portanto, antes de começar a discutir o título desse post vou compartilhar com vocês meus links:

Bom, vai parecer muito contraditório a divulgação de meus perfis no Facebook e no Instagram (conforme vocês viram no título e verão ao longo dos parágrafos), mas para competir nesse mar de informações e conteúdo, eu senti a necessidade de promover meu conteúdo nessas duas redes sociais.

O mundo dos criadores de conteúdo na internet é muito competitivo. E na minha opinião, essa competição não é porque meu blog concorre com outros blogs do mesmo nicho. Não é dessa maneira que vejo, pois acredito que quem consome o conteúdo do Monolito Nimbus (por exemplo), vai consumir meu conteúdo também. Acredito muito na complementação. Internet não é igual televisão. Bom, não deveria ser. Porém transformaram a internet em televisão e o Facebook  e o Instagram são os maiores e melhores exemplos disso.

Há alguns meses, li esse ótimo texto do Hossein Derakhshan. Resumindo a história de Derakhshan: ele é um desses caras que usou a internet para revolucionar. Ele revolucionou a comunicação no Irã, inclusive é considerado o pai dos blogs iranianos por muitos jornalistas. Além de blogueiro, ele ajudou a promover podcasts no país.

O Irã é um país bem fechado, com pouca liberdade de expressão. E claro que uma pessoa com esse espírito livre e determinado a mudar o status quo e a realizar denúncias sobre a política e a sociedade acabaria preso num lugar desses. Foi o que aconteceu. Ele foi preso no final de 2008 e graças a um perdão do líder supremo iraniano ele teve sua liberdade declarada no final de 2014 (sua pena original era de 19 anos de prisão e depois reduzida para 17 anos de prisão, antes do perdão). Derakhshan ficou preso por 6 anos e esse período foi o suficiente para ele ver como a internet mudou radicalmente comparando a situação de antes de sua prisão e de depois de sua prisão.

Apesar de a situação do Brasil não ser a ideal quando o assunto é liberdade de expressão, a situação aqui é muito melhor do que no Irã. E se você não ficou preso nos últimos anos e trabalha em um emprego que não depende diretamente de internet, talvez você nem tenha percebido essas mudanças na rede. Você certamente foi com o fluxo e nem percebeu grandes alterações. Mas mudou muita, muita coisa.

Eu diria que para o que estou discutindo aqui nesse texto, a mudança maior foi o fim da “era dos blogs”. Apesar dos blogs ainda existirem (oi, gente!) e de receberem muitas visitas, a era de ouro dos blogs teve seu fim. Quem é famoso hoje em dia? O blogueiro ou o Youtuber? Vocês já sabem a resposta.

Alguns blogueiros acabaram evoluindo como consequência dessa pressão e passaram a ter canal no Youtube também. Além do fenômeno do vídeo, temos também pessoas que são famosas nas redes sociais (elas nem tem um site). São as Instagrammers famosas, os famosos do Twitter (que criam aforismos maravilhosos em 140 caracteres) e eu já ouvi falar até de famosa do Snapchat. Todos são famosos dentro dessas redes sociais, com muitos seguidores, porém sem ter um blog ou site próprio.

Os blogs não morreram. Eu recebo mais de 1000 visitas diárias aqui no Meteorópole, fico feliz em saber que ainda existem pessoas que gostam de ler textos longos e gostam de surfar na internet. Talvez quem tenha a minha idade lembre-se desses termos: surfar, navegar na internet, ir de hyperlink em hyperlink. Exatamente como estar fazendo uma pesquisa em uma biblioteca com livros físicos, em que a gente vai de referência em referência e quando vê a mesa de consulta está cheia de livros e seu caderninho cheio de anotações. Essa é a internet-livro. E eu amo a internet-livro.

Antes do Derakhshan  ir para a prisão, a internet era assim: a internet-livro. E é esse o termo que Derakhshan usa em seu famoso texto. Quando Derakhshan saiu da prisão, ele percebeu que a internet virou a internet-televisão e eu gosto muito dessas comparações. São tão adequadas!

Pensem no Instagram. Uma moça sarada (ser fit está na moda), mãe, que faz viagens espetaculares, etc. Todas as fotos super editadas, com a pose perfeita no momento perfeito. Isso não é televisão? Uma atriz ou uma apresentadora de TV não precisam atender a certos padrões para aparecerem impecáveis no vídeo. O mesmo raciocínio pode ser empregado no Youtube ou até mesmo no Facebook, em que muitas pessoas sentem-se obrigadas a mostrar um estilo de vida ‘perfeito’ para os seus contatos.

Na ‘internet de antigamente’ ou internet-livro usando a expressão de Derakhshan, a maioria das pessoas eram conhecidas por seus apelidos (alcunhas). Muitos sequer tinham uma foto em seus avatares. Não existia o conceito de rede social. Você poderia escrever em um blog ou participar ativamente de o fórum e as pessoas nem precisavam ver sua cara. Não importava se você era atraente ou não e isso era muito bom. Pelo amor, não sou tecnófoba e adoro o recurso de imagem e som para apresentarmos conteúdo, porém sinto saudade desse breve período em que não era necessário (e nem possível) mostrar sua aparência.

É impossível não deixar de pensar naquele episódio de Black Mirror chamado Nosedive (até o mencionei aqui), em que as pessoas são obcecadas pela pontuação. Na verdade, nesse episódio a sociedade inteira é obcecada pela pontuação, que é moeda de troca, pois permite que você possa viver em certos bairros, usar certos carros, frequentar certos lugares, obter sucesso na sua carreira profissional, etc. Na maior parte do episódio, é possível perceber como a protagonista mantém tudo impecável. A sociedade inteira é impecável (exceto aqueles que querem viver fora do sistema), pois são obcecados com pontuação. Nenhum cabelo desalinhado, nada! Eu preciso assistir o episódio novamente, mas lembro de uma cena em que ela compra um cappuccino com apresentação impecável. Então ela tira uma fotografia, posta em uma rede social e em seguida o degusta e pela sua cara, nem parece que ele está tão saboroso assim.

Ha alguns anos, o humorístico Hermes e Renato fez uma ótima crítica a essa cultura da imagem (vale a pena ver, é muito engraçado). Depois eu soube de pessoas que pagam day use em hotéis sofisticados e levam várias roupas de piscina para tirar dezenas de fotos e assim ir abastecendo o Instagram ao longo dos anos. Que loucura, gente! Em nome da fama no Instagram, algumas pessoas deixaram de viver uma vida de verdade. Em uma viagem que fiz há alguns anos, vi uma mulher viajando com um fotógrafo a tiracolo para fotografá-la como uma diva pelos pontos turísticos ou mais charmosos da cidade. Fiquei por alguns instantes observando, parecia um editorial de moda. E tem muito fotógrafo oferecendo esse tipo de serviço. É para guardar a foto e recordar os momentos? Não, é para abastecer as redes sociais e mostrar o quanto “a pessoa está bem”.

O choque de Derakhshan ao sair da prisão é compreensível e acredito que é oportuno, nos faz pensar em como a internet mudou. Eu sei que há quem goste dessas mudanças e quem tenha encontrado oportunidade de negócios nisso. Mas eu não gosto de todas as mudanças, algumas não combinam com meus valores e opiniões. Refletindo sobre o texto do Derakhshan , entendi o que me incomodava tanto em algumas redes sociais, principalmente no Instagram: o Facebook e o Instagram maltratam os links. No Facebook, é necessário pagar para que seu conteúdo tenha visibilidade (até aí ok, não é caridade). Além dessa questão, muitas vezes o seu conteúdo acaba se perdendo em meio a tanto conteúdo, muitos inclusive de qualidade e relevância duvidosa. Já perceberam quanta informação desnecessária a gente consome por dia?

O Instagram para mim é a pior. E teve até pesquisa que chegou a conclusão que o Instagram é a rede social mais nociva para a saúde mental. Outro dia vi uma moça, em um vídeo no Youtube (agora não lembro o nome dela) dando um depoimento nessa linha, contando que ela notou que o Instagram fazia ela perder tempo, porque além de ver as atualizações das pessoas que ela seguia, ela clicava também na busca e apareciam várias fotos recomendadas para ela. Aquilo era uma espécie de sorvedouro de energias (aqui não estou falando do conceito de energia da física, vocês entenderam rs) e a deixava até meio infeliz com sua própria existência.

Além dessa relação negativa com a saúde mental, para mim um grande problema do Instagram é não permitir que os links postados sejam clicáveis (com exceção do link para o seu site, em sua bio). O Instagram para mim lembra um poço: você entra dentro dele e fica cada vez mais difícil sair.

Devido a esses maus-tratos com os links, o Instagram e o Facebook ao meu ver também possibilitam uma prática hedionda: o plágio. Já vi trechos de textos meus totalmente copiados nessas redes sociais e a pessoa nem teve o trabalho de colocar:

Fonte: Meteorópole

Assim mesmo, sem o link. Nem é pedir muito, já que possibilitar que os usuários dessas redes sociais saiam delas é praticamente pedir o impossível. Claro que o plágio diz muito sobre quem o comete, mas a estrutura dessas redes sociais encorajam esse comportamento.

Por essas razões, eu detesto o Facebook e o Instagram. E pelas estatísticas, a maior parte dos meus visitantes chegam por busca no Google, por indicações de outros sites/blogs ou pelo Twitter. Quase nunca a origem é do Instagram ou do Facebook. Com relação ao Instagram, tenho pensado muito em deletá-lo. O Facebook eu ainda mantenho por questões de trabalho,  pois mantenho a rede social do meu local de trabalho. O que tenho feito é reduzir ao máximo o uso dessas duas redes sociais em questão.

O Instagram também não é esse demônio todo. Dá para encontrar pessoas com interesses parecidos com os seus ou que fazem as mesmas coisas que você através das hashtags. Porém, se você gosta de ler e de surfar pela internet, definitivamente não é o lugar para você, porque ele é uma prisão. É como um shopping gigante, você se perde dentro dele.

Não transforme seu blog/site em um poço sem fundo

Uma coisa que me deixa indignada é o comportamento de alguns portais de notícias que não postam links para fora de seus domínios. Ou seja, o mesmo comportamento das redes sociais mencionadas anteriormente.  Por exemplo, estão escrevendo uma matéria sobre um produtor de conteúdo e lá pelas tantas mencionam uma declaração que deu uma declaração em seu blog. Para mim deveria ser obrigação do portal de notícias colocar esse link externo. Mas eles não fazem isso (exceto se o blogueiro faz parte da rede de blogs do portal), eles querem que você fique “andando em círculos” dentro do site deles.

Há uns dois ou três anos mais ou menos tive um problema com plágio que me deixou particularmente revoltada. Uma pessoa pegou um post meu, deu uma leve alterada (mudou um sinônimo aqui, uma estrutura de frase ali, etc) e postou em seu próprio blog. Detalhe: o dono do blog é um famoso meteorologista da Região Sul e a responsável pelo plágio disfarçado era uma estagiária que trabalhava com ele. O blog desse sujeito está vinculado a uma importante rede de notícias da Região Sul. Fiz a reclamação, inclusive pelo Twitter (adoro xingar muito no Twitter), e o colega de profissão me mandou um e-mail pedindo desculpas. No post dele, foi então adicionada a informação que a fonte para aquela pesquisa era meu blog. Mas você acha que ele colocou um link? Claro que não! Ele colocou apenas:

Fonte: Meteorópole

Isso para mim mostra uma real intenção em dificultar que os leitores dele visitem meu site. Gente, eu fico REVOLTADA com isso. Não faça isso com seu blog, por favor. Coloquem links, permitam que as pessoas pesquisem, leiam, sejam curiosas e cheguem elas mesmas as suas próprias conclusões. Eu sei, quem quiser consultar aquela fonte vai pesquisar no Google. Só que colocar o link facilita as coisas, mostra uma cortesia e um respeito ao conteúdo alheio.