Dúvida do leitor: O que acontece quando dois tornados colidem ou se aproximam?



O leitor Renato mandou algumas mensagens. Ele é enxadrista e gosta muito de ciências, já mandou algumas mensagens na minha caixa de e-mail e vou responder suas perguntas dentro de minhas possibilidades. Em primeiro lugar, obrigada pelas mensagens, Renato. Fico muito satisfeita em poder ajudar a responder as indagações das pessoas sobre Meteorologia. Claro que não sei tudo e nem consigo responder tudo com qualidade na ponta da língua. Então eu faço pesquisas e pergunto para colegas, com o objetivo de responder as perguntas da melhor maneira possível.

Se você quer saber como os tornados se formam, leia esse post.

Hoje nós vamos falar sobre tornados.
Cortesia de Shutterstock

Uma das perguntas que o Renato me fez pode ser resumida como:

O que acontece quando dois tornados colidem ou se aproximam?

Ao longo do post e no final dele, vou indicar alguns links daqui do blog sobre o assunto e outros links externos, que poderão ajudar ainda mais na compreensão do Renato e de outros leitores a respeito do tema.

Pelo o que pesquisei, dois tornados podem sim “colidir”. Esse vídeo mostra um caso assim:

Two massive tornadoes collide in Pilger, NE (Video)

Observando o vídeo acima, percebe-se que nada muito “fora do normal” acontece. O que eu quero dizer com isso é que não ocorre um super tornado ou algo digno de um filme de ficção. A diferença é que teremos apenas um tornado. Quando um tornado maior absorve um menor, não há diferença mensurável na força da nuvem de funil que permanece e o tornado menor simplesmente desaparece.

Conforme se aproximam um do outro, o fluxo ascendente de ar que sustenta a tempestade menor é sugado para a maior tempestade. Quando isso acontece, o tornado associado à tempestade menor desaparece antes mesmo de ter uma chance de unir forças com o tornado maior.

Os ‘tornados-gêmeos’ mais famosos foram os que nasceram no Kansas, EUA, em 13 de março de 1990. Na ocasião, um tornado de categoria F5  passou pela localidade de Hesston e começou a enfraquecer. A mesma tempestade então deu origem a um novo tornado. Algumas pessoas que observaram o fenômeno relataram que esses dois tornados se combinaram e formaram uma poderosa nuvem-funil, porém os meteorologistas discordam. De fato os dois tornados se aproximaram e seus caminhos se sobrepuseram, o que não significa que os dois vórtices se juntaram para criar um único tornado.  O que provavelmente aconteceu é que o tornado original foi diminuindo gradualmente enquanto se movia pelo caminho do novo tornado que se formou a partir dele, sem de fato ocorrer um efeito de fortalecimento do novo tornado.

Esse incidente em Hesston possui registros postados no Youtube, como vocês podem conferir aqui:

Conheça a Escala Fujita, que classifica os tornados de acordo com a força dos ventos, nesse post. 

Em algumas ocasiões, um único tornado parece um grupo de vários tornados colidindo um com o outro. Isso ocorre porque um tornado muito forte pode se desenvolver entre duas e seis nuvens de funil individuais girando em torno de seu centro. Do chão, isso se assemelha a vários tornados independentes de fusão e separação. Mas os meteorologistas consideram que esses sistemas são um único tornado.  O Renato ainda me perguntou a respeito de um X que parece se formar quando dois tornados colidem. Bom, provavelmente ele está se referindo a vários tornados em suas trajetórias errantes, que durante seus deslocamentos se inclinam de acordo com a força e com o cisalhamento do vento. E nessa inclinação, pode realmente parecer que eles formam um X entre eles. No entanto, não há colisão.

Além disso, é preciso reforçar que muitas imagens de tornados que vemos por aí são concepções artísticas, imagens com manipulação digital para ficarem mais “dramáticas”. Foi inclusive bastante difícil encontrar imagens para ilustrar esse post. Se você gosta de tornados e gostaria de pesquisar imagens do fenômeno, procure imagens bem detalhadas (que informam o local da ocorrência do fenômeno e a data). Se a imagem possuir uma ligação com um portal de notícias respeitável ou estiver dentro do site de uma universidade, ligado à dados meteorológicos do mesmo dia, melhor ainda. Não confie em todas as imagens que a gente vê por aí. A imagem que abre essa postagem, por exemplo, é meramente ilustrativa. Eu a encontrei no Shutterstock, sem nenhuma informação de local ou data. Certamente é baseada em uma imagem real e foi colorida, editada ou realçada. É preciso lembrar que tornados são tempestades. Ou seja, está chovendo (inclusive pode chover granizo também) e o céu está com a visibilidade péssima no local, o que faz que com qualquer foto ou filmagem não fique perfeitamente nítida.

Tornados são fenômenos pequenos, com tamanho da ordem de 100m de largura. Eles duram pouco também (alguns minutos até no máximo meia hora quando muito, aproximadamente). Isso faz com que o fenômeno seja mais difícil de ser estudado. Claro que atualmente com os radares meteorológicos, o estudo de caso de tornados tornou-se mais facilitado. Registros em filmagens ajudam muito também, tanto que coloquei alguns aqui nesse post para que os leitores possam ver. No entanto, não dá para confiar apenas nas filmagens. A gente sabe que dependendo do ângulo e da intenção de quem está filmando, nem sempre estaremos vendo toda a verdade sobre o fenômeno. Além disso, filmar ou fotografar muitas vezes nos faz perder a noção de profundidade e pode fazer parecer que duas coisas fotografadas estão muito próximas entre si, quando na verdade não estão.

Saiba a diferença entre tornados e furacões nesse post.

Furacões, por outro lado, são fenômenos muito maiores, com larguras da ordem de algumas centenas de quilômetros. Além disso, furacões podem durar dias. Dessa maneira fica muito mais fácil monitorar um furacão e estudá-lo. E dois furacões distintos também podem se influenciar. Quando eles ficam suficientemente próximos, começam a girar em torno de um único centro de rotação e esse efeito é chamado Interação Fujiwhara. Mas isso é assunto para outro post, não pretendo aqui misturar tornados com furacões. Na verdade quero que os leitores tenham em mente as diferenças entre esses dois fenômenos, para evitar erros que infelizmente ainda são comuns em textos de notícias.

Conheça as escalas de tamanho na atmosfera, com os tamanhos e durações típicos dos fenômenos meteorológicos nesse post.

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