Existe fórmula certa para acabar com a desinformação?



Fake news, desinformação, anticiência… Tudo isso preocupa qualquer pessoa que tem algum esclarecimento e busca por informações de qualidade. Se você é educador, provavelmente deve ficar de cabelo em pé quando ouve certos absurdos por parte de seus alunos. Sim, porque esses alunos estão recebendo cada vez mais informação e nem sempre é uma informação de qualidade.

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Eu observo que quem trabalha com educação já chegou ao ponto de sentir a necessidade de conhecer todo tipo de desinformação que está em circulação no momento, para então poder refutar e esclarecer. Eu tenho certeza que se você é professor ou educador de um modo geral já deve ter ouvido desinformação e ter ficado embasbacado com o absurdo, tentando entender de onde veio a loucura que acabou de ouvir da parte de seus alunos.

Recentemente vi um vídeo do Pirulla em que ele fala de uma desinformação que tem circulado por aí: a tal história da água alcalina. É dito que beber água alcalina traz alguns benefícios para a saúde e o principal propagador dessa ideia é o médico Lair Ribeiro. A verdade é que não adianta beber água alcalina ou ácida, já que nosso sangue quase sempre mantém o mesmo pH (exceto em poucas exceções, quando há problemas de saúde que alteram ligeiramente o pH do sangue). Bom, o Pirulla explica esse assunto muito bem e recomendo o vídeo porque essa história da água alcalina tem circulado em grupos de familiares no WhatsApp e acredito que a gente precisa aprender bem para poder ensinar nossos pais, avós e colegas que muitas vezes caem nesse engodo, abandonando tratamentos médicos convencionais (e com eficácia comprovada através de estudos e artigos científicos publicados) e gastando muito dinheiro em algo que com muita sorte terá apenas efeito placebo (já que alguns tratamentos alternativos são até perigosos para a saúde).

Esse Dr. Lair não é nenhum nome novo para mim. Outro dia, eu estava ministrando uma palestra quando alguns alunos mencionaram o nome dele, como sendo de um importante médico que veio para “derrubar a medicina tradicional” e “acabar com a máfia dos laboratórios farmacêuticos“.

Foi na mesma palestra que esses mesmos alunos vieram me perguntar sobre Ressonância Schumann e se esse fenômeno explicaria porque o tempo está caminhando mais rápido (?). Fiquei perplexa, porém mantive a calma. Simplesmente disse que não havia nenhuma evidência de que a Terra estava girando mais rapidamente em torno de si mesma ou em torno do Sol, porém confesso que nunca tinha ouvido falar dessa tal Ressonância Schumann. Bom, eu conto toda essa história nesse post.  O que quero dizer re-contando essa história é que muitas vezes nós educadores somos pegos de “calça curta” e não temos a menor ideia sobre o que dizer ou sobre como proceder.

Claro que é super importante estar bem informado sobre conceitos básicos da ciência (como fisiologia humana e pH, para o caso da água alcalina mencionado anteriormente). Esse é nosso dever como educador ou divulgador. Estudar bastante, ler textos de divulgação científica, informar-se através de bons canais no Youtube e bons documentários, etc, são ações que nos ajudam a melhorar nosso repertório como explicadores. Mas além dessas posturas básicas, acredito que precisamos ter um certo jogo de cintura e uma boa capacidade de comunicação para ajudar pessoas desinformadas. Eu diria que até ser uma pessoa simpática, por exemplo, é algo que ajuda.

Eu tenho a impressão de que algumas pessoas gostam de viver no conforto do engano. Viver achando que você tem “uma verdade” ou “uma chave mestra” é reconfortante nesse mundo hostil e cheio de incertezas.

Tomar remédio, por exemplo,  é muito chato. E não falo da cara feia que meu filho de 2 anos faz quando toma um remédio que não tem sabor docinho. Remédios são caros e os efeitos colaterais muitas vezes são extremamente desagradáveis. Fale por exemplo com um portador do HIV, que tem que tomar muitos remédios para manter baixa a contagem de vírus em seu organismo. Ele vai se queixar de diversos efeitos colaterais. E talvez seja por isso que quando aparece alguém que diz com propriedade (e até dizendo que é médico) que o HIV é uma “invenção” ou que o quadro viral pode ser melhorado apenas mudando radicalmente os hábitos alimentares (tornando-se crudista, por exemplo), esse alguém é ouvido e logo obtém seguidores e disseminadores.

Para muitos pode ser reconfortante ouvir alguém dizer que a “água da berinjela”, o “suco do limão” ou a “água alcalina” ajudam a curar ou controlar doenças. Muitas pessoas só querem ouvir o que lhes convém ou o que está em concordância com aquilo que elas acreditam de antemão. Pessoas com esse perfil só vão dar ouvidos a “informações” que estejam em plena consonância com suas expectativas, é o tal cherry picking. E eu coloco “informações” dessa maneira porque no meio desse bolo, a pessoa vai ler realmente informações científicas, porém vai ler também muita desinformação e pseudociência. Além disso, muitas vezes uma informação correta do ponto de vista científico, pode ser interpretada com má fé ou má vontade, sendo distorcida para atender as necessidades de quem está discursando.

Em um vídeo recente, a Rebecca Watson do Skepchick menciona um artigo recente publicado no periódico Psychological Science (veja aqui). O título do artigo é “Debunking: A Meta-Analysis of the Psychological Efficacy of Messages Countering Misinformation” (Debunking: uma meta-análise da eficácia psicológica das mensagens que combatem a desinformação) e ele nos dá alguma ideia sobre como podemos combater a desinformação.

O termo em inglês debunking vem de debunk, que significa desmascarar, desmistificar. Esse termo  é bastante utilizado no contexto de alguém que pretende desmascarar uma fake news ou uma desinformação.

Como a desinformação leva o indivíduo a decisões ruins em temas muito cruciais (como abandonar um tratamento médico ou votar em um candidato corrupto, por exemplo), o processo de debunking é extremamente importante.

O artigo levou em conta vários experimentos, que envolveram aproximadamente 7000 pessoas no total. E uma das conclusões do artigo foi a de que é possível fortalecer a desinformação tentando detê-la e isso normalmente acontece quando você simplesmente diz que uma determinada informação é falsa sem ao menos explicar o porquê ou dando uma informação muito simplificada. Ou seja, talvez os textos enormes do meu blog cumpram algum propósito, contrariando o senso comum de que o que as pessoas querem é uma resposta rápida e simples.

Em outras palavras, o artigo conclui que as pessoas podem abandonar aquela informação falsa se forem devidamente convencidas a fazê-lo e nesse processo de convencimento, uma explicação longa e com vários detalhes podem ajudar. Sendo assim, o Pirulla  com seus vídeos que tem duração de normalmente mais de 20min cada um deles (sempre muito bem detalhados) está no caminho certo! E os resultados dele falam por si: um canal com mais de meio milhão de inscritos,   apresentações e palestras em várias cidades e muitas pessoas que o admiram.

Porém as coisas não são tão simples assim. O artigo também conclui que a desinformação é mais facilmente esclarecida se o interlocutor participar do processo de debunking. Aquelas discussões com tom arrogante ou grosseiro, típicas de páginas de redes sociais, não levam a nada. Monólogos também não levam a nada, o melhor mesmo é uma discussão, uma conversa em que todos participam.

Sendo assim, se você quer eficácia, vai ter que fazer o interlocutor participar da discussão. Faça-o perceber que ele está enganado através de exemplos cotidianos, por exemplo. Eu diria que a abordagem mais adequada, de acordo com o artigo em questão, lembra muito o Método Paulo Freire para alfabetização de adultos, só que aqui estamos falando de alfabetização científica. Em outras palavras, não trate o outro com um total ignorante e sem nenhum tipo de bagagem.

Por outro lado, é necessário sempre manter o foco da discussão. Não adianta nada discutir com terraplanistas se de repente, no meio da discussão, aparecerem outros conspiracionistas, como os do HAARP. Moderar a discussão para que ela se foque no tema proposto é o ideal para ajudar a desmascarar desinformação. Em outras palavras, a informação necessária naquele momento não pode se perder em um mar de desinformação ou informações desencontradas.

No entanto, o processo não é nada fácil. O artigo nos dá algumas pistas e talvez possa ajudar produtores de conteúdo e educadores que atuam nessa área. Um único texto ou vídeo de divulgação científica dificilmente vai encerrar o assunto para quem está realmente disposto a continuar acreditando na informação falsa. Questões como a religião ou qualquer outra ideologia forte que esteja arraigada na história do indivíduo atrapalham em muito no processo de abandono da desinformação.