Não confunda sua busca no Google com meu diploma de Meteorologia



Hoje vamos falar sobre profissão e carreira em Meteorologia. Cortesia de Shutterstock

 

Esse é mais um post sobre a profissão de Meteorologista, onde vou falar sobre exercício ilegal da profissão, empreendedorismo (opinião de boteco) e dificuldades para se formar. Espero que gostem. E antes de mais nada, quero que meus leitores entendam o título desse post. Ele foi inspirado no copo de café abaixo, que vi vendendo no Wish e aceito como presente:

Será que estou sendo arrogante? O que quero dizer com isso? Para vocês entenderem, vou ter que contar uma história recente.

Recentemente eu estava acessando o Facebook quando me deparo com uma fanpage que oferecia um serviço de meteorologia por R$200,00. O serviço em questão era a previsão do tempo para uma determinada localidade da Região Nordeste. Tenho minhas dúvidas se o dono da fanpage que oferece o serviço é meteorologista mesmo (formado, conforme discutiremos a seguir). E esse questionamento é muito válido, porque a profissão de Meteorologista é regulamentada pela Lei Federal Nº 6.835, de 14  de outubro de  1980 (consulte aqui).  Essa lei estabelece em quais condições uma pessoa pode exercer a profissão de Meteorologista e estabelece quais são as nossas atribuições profissionais.

Em outras palavras, você pode até gostar de Meteorologia, pesquisar sobre o assunto, fazer cursos, etc. Pode inclusive ter uma boa base sobre isso e pode fazer observações meteorológicas, instalar estações, etc. Mas não pode exercer a meteorologia profissionalmente, porque você estará descumprindo a lei.

Inclusive, uma das intenções de meu blog é essa: promover o que os americanos chamam de citzen science, que é a pesquisa e a divulgação científica feitas por pessoas que não necessariamente tem um diploma naquela área, porém se identificam com a área e compreendem a importância da mesma. O melhor exemplo são os astrônomos amadores, que fazem excelentes trabalhos de observação e já ajudaram em pesquisas científicas acadêmicas. Um grande exemplo é o Sir Patrick Moore, astrônomo amador que publicou diversos livros na área, atuando grandemente em divulgação científica.

Seria bacana se existissem mais meteorologistas amadores, pessoas dedicadas a observar e compreender o tempo do ponto de vista científico (mesmo sem formação na área). Os meteorologistas amadores podem contribuir com o desenvolvimento da meteorologia, ajudando inclusive na melhoria da previsão do tempo.

O que realmente difere o astrônomo do meteorologista em termos profissionais, especialmente aqui no caso do Brasil, é que a profissão de Meteorologista é regulamentada. E essa regulamentação (expressa pela lei mencionada anteriormente) define muito bem qual o trabalho do Meteorologista e sobre quem pode ou não ser meteorologista.

Meteorologista amador é diferente de meteorologista. Até mesmo um físico ou um geógrafo que mesmo que tenha feito mestrado e doutorado em Meteorologia não pode ser meteorologista (apenas nas exceções previstas em lei). Para ser meteorologista, é necessário cursar Bacharelado em Meteorologia (ou Bacharelado em Ciências Atmosféricas, na prática profissional é a mesma coisa). Nessa FAQ, conto onde se pode estudar Meteorologia.

Ok, então vamos supor que o dono da fanpage que oferece o serviço que mencionei seja meteorologista. Se for, ele está com uma estratégia profissional muito inadequada, na minha opinião. O Facebook, assim como outras redes sociais, serve para que as marcas interajam com o público. Então é comum vermos marcas participando de memes, respondendo dúvidas do consumidor, apresentando seus produtos, etc. No entanto, todas essas marcas possuem um site bem estruturado, elas não contam apenas com a fanpage ou com seus perfis nas redes sociais. A figura do website ainda continua existindo e para mim é o análogo ao endereço físico da empresa. Se quer ser profissional, vai ter que investir em um bom website.

Outro dia eu estava conversando com uma amiga e comentávamos que o sonho de muitos brasileiros é ser empresário. Muita gente resolve empreender sem nenhum tipo de conhecimento prático ou técnico, como a vivência no comércio e os cursos do SEBRAE. Mas muita gente também empreende sem o menor bom senso ou capacidade de observação, na minha opinião. Motivados muitas vezes por um excesso de otimismo, que leva a uma visão distorcida da realidade.

Essa amiga contou uma história de uma conhecida que resolveu montar uma loja de vestidos com estampas personalizadas. A conhecida da minha amiga não tinha nenhuma noção de vendas pela internet e pensou em vender os vestidos pelo Instagram. Em outras palavras, a moça investiu um bom dinheiro em estampas personalizadas, porém não tinha pensado em uma estratégia de marketing adequada.

Bom, se você chegou até aqui pensando em empreender (porque talvez tenha chegado até meu blog através de uma pesquisa no Google), não é comigo que você tem que falar. Procure ajuda especializada, de gente que sabe o que está fazendo e te apresenta propostas realistas. Se sua ideia é cuidar da presença de sua marca na Internet de maneira séria e com objetivos bem definidos, fale com minha amiga Jaqueline.

Mas vamos voltar a falar do caso da “venda de previsão do tempo pelo Facebook”.  Ao meu ver, um serviço de previsão do tempo não tem como ser vendido pelo Facebook, porque é uma estratégia inadequada. As empresas sérias tem um site estruturado, uma equipe de funcionários que vão até o cliente apresentar quais as soluções que a empresa disponibiliza e quais produtos ela pode gerar pensando nas necessidades do cliente. Tudo é muito organizado e profissional e não poderia ser diferente. Você está vendendo ciência, vendendo saber, o tratamento dado deve ser completamente diferente do que vender um produto físico.

Em termos de políticas do Facebook, atualmente é possível vender coisas por essa rede social (saiba mais aqui), desde que se obedeça alguns pontos. No entanto, normalmente quem faz vendas pelo Facebook são lojas muito pequenas ou pessoas fazendo vendas de garagem. Eu não tenho formação em marketing, mas ao meu ver as vendas pelo Facebook não parecem profissionais, sabem? Opinião de boteco aqui, não tenho um fundamento ou um artigo que justifique isso. Acho que falo mais como uma pessoa que acessa a internet desde 1998 e que já observou e ainda observa muitas coisas.

Em outras palavras, sendo ou não meteorologista, posso dizer que vender previsão pelo Facebook não é uma boa estratégia. Ou é ilegal ou é ineficaz e pouco profissional, dependendo do caso.

As dificuldades na trajetória profissional

Bom, me formar em Meteorologia não foi nada fácil. Eu tive vários obstáculos pelo caminho, como tantos estudantes universitários tem diariamente. Por ser um curso de uma Universidade Pública, trata-se de um curso muito mais difícil, com mais cobranças e exigências no rendimento, bom, pelo menos é minha impressão.

Eu já contei um pouco sobre minha trajetória em alguns posts. Já contei, por exemplo, se valeu a pena cursar Meteorologia. Já contei também como é cursar um curso universitário que não é muito conhecido ou divulgado. Não foi nada fácil, embora alguns podem acreditar que foi porque veem os resultados de minhas escolhas agora e não compreendem como foi minha vida no passado. Também tem a boa e velha Síndrome do Impostor que muitas vezes me faz ter uma visão distorcida da realidade, mas analisando de maneira lógica e tranquila, posso dizer que eu cheguei até aqui com bastante esforço, assim como muitos amigos e colegas de profissão. Tenho amigos que tiveram que deixar suas famílias para trás (porque foram em busca de oportunidades em locais distantes), que não tinham dinheiro para pagar aluguel, que tiveram que mudar de área, etc.

Em outras palavras, dedicar-se aos estudos é muito trabalhoso e muitas vezes somos desencorajados por nossos próprios familiares. Levando em conta todo esse lado do esforço que nós imprimimos para conseguirmos nos formar, posso concluir que é revoltante ver pessoas exercendo a profissão de maneira ilegal. É um total desrespeito, assim como outro desrespeito que mencionei recentemente (ofertas de trabalho aviltantes).

O Brasil é o país conhecido pelo “jeitinho”, onde todo mundo dá um jeito para ganhar dinheiro ou para levar vantagem. Infelizmente o tal jeitinho é quase que sempre associado com ilegalidade. Você iria em um Médico que se “formou lendo textos pela Internet”? Eu não iria.

Aqui não estou falando mal de cursos a distância. A Educação a Distância (EAD) é uma possibilidade maravilhosa, muitas pessoas tem conseguido obter seus diplomas dessa maneira. Todos os bacharelados e licenciaturas oferecidos dessa maneira tem encontros periódicos presenciais.  Há cursos no entanto em que é necessária uma enorme carga prática, como Medicina ou até mesmo Meteorologia. E mesmo em cursos assim, há disciplinas ou conteúdos oferecidos na modalidade EAD.

O que eu critico aqui são aquelas pessoas que fazem algumas buscas no Google e já se acham especialistas naquela área pesquisada. E eu digo uma coisa, na minha experiência com astrônomos e meteorologistas amadores, percebo que a maioria deles tem total noção dos limites de seu saber. É aquela história da Teoria da Bexiga Vazia.

O Prof. Alexandre Arrabal escreveu sobre a diferença entre conhecimento e informação (veja o texto completo aqui). Vou deixar um trecho do texto:

Conhecimento não é simples apropriação de informações, no sentido de memorizá-las ou guardá-las em nossa mente como se o intelecto fosse um grande catálogo. Vale dizer que os computadores são muito mais eficientes do que nós para guardar informações. O Conhecimento (bem como o aprendizado de uma forma geral) não é coisa guardada ou ato de guardar, o conhecimento é uma atividade intelectual, um processo mental onde indagamos, questionamos e estabelecemos relações entre as diversas informações obtidas. O que resulta deste processo, claro, são novas informações que, por sua vez, serão comunicadas, apreendidas e também empregadas em novos processos.

O que mais ocorre por aí é a confusão entre conhecimento e informação. O que temos hoje é acesso a informação, muitas vezes é até informação em excesso e sem filtro ou controle de qualidade. Já o conhecimento, a formação, é uma etapa adicional. Os currículos dos cursos universitários são montados para permitir a construção do conhecimento e sua solidificação. Além disso, o ambiente universitário, com as palestras e possibilidades de discussão de ideias permitem que esse conhecimento seja ainda mais consolidado.

Talvez seja possível obter um conhecimento em meteorologia equivalente ao obtido em uma Universidade no conforto de sua casa. Várias Universidades dispõe materiais em seus sites, livros podem ser comprados e baixados e é possível assistir até videoaulas. Mas para isso, seria necessário um esforço igual ou maior do que o que seria feito dentro de uma Universidade. Ou seja, é possível. Mas ainda não soube de ninguém que fez isso para o caso da Meteorologia e pode comprovar o sucesso da empreitada.  De qualquer maneira, a lei brasileira não abre espaço para que uma pessoa que alega que aprendeu tudo sobre meteorologia sozinha atue na profissão.

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