O caso da nuvem Nimbostratus (Ns)



Hoje vou mais uma vez falar sobre classificação de nuvens, um tema do qual entendo bastante, já que lido com o assunto diariamente e eu tenho bastante interesse natural. Eu lembro de ter uns 7 anos de idade e já me interessar pela observação das nuvens, embora evidentemente não conhecesse a nomenclatura.

Vamos então mais uma vez falar sobre nefologia e sobre Classificação de Nuvens. Eu vou falar especificamente do caso da nuvem Nimbostratus (Ns), que é uma nuvem média, porém no passado foi classificada como nuvem baixa. Mas antes de mais nada, pretendo dar uma boa pincelada no assunto para quem estiver chegando por aqui agora.

Hoje vamos falar de nuvens Nimbostratus (Ns). Em muitos manuais de meteorologia, a nuvem Ns é caracterizada por deixar o céu bastante escuro quando ela está presente durante o dia claro. Ela escurece o céu a ponto de fazer com que a iluminação dos postes das ruas seja necessária. Cortesia de Shutterstock

A história do Sistema de Classificação de Nuvens

No início do século XIX,  químico e meteorologista amador britânico Luke Howard propôs um sistema de classificação de nuvens. Ele apresentou suas ideias na Askesian Society, um clube de pensadores londrino que teve reuniões entre 1796 e 1807. O grupo foi dissolvido com seus membros fundando sociedades mais especializadas, como a Mineralogical Society, a Geological Society, a Linnean Society e a Royal Society of London.

O Sistema de Classificação de Nuvens proposto por Howard é muito semelhante com o Sistema de Classificação dos Seres Vivos proposto pelo naturalista sueco Carl von Linnée no século XVIII. O uso de nomes em latim é comum aos dois sistemas. O latim era um idioma muito utilizado no meio científico no passado.

A partir do trabalho de Howard desenvolveu-se o Sistema de Classificação de Nuvens que utilizamos atualmente. Nesse sistema, as nuvens são classificadas em 10 gêneros, de acordo com a altura em que estão localizadas e de acordo com a aparência de cada uma das nuvens. Quase todos os gêneros de nuvens podem ser ainda subdivididos em espécies, variedades e características suplementares. Porém nesse post eu vou focar em um gênero específico de nuvem, a nuvem Nimbostratus.

Há uma figura que sempre compartilho aqui no Meteorópole e não poderia deixar de mencioná-la novamente nesse post:

Figura 1: Nuvens em diferentes alturas. Os nomes representam os 10 diferentes gêneros de nuvens. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.

E mencionar a Figura 1 vai servir totalmente aos objetivos que pretendo atingir com esse post, como vocês verão adiante.

A questão da classificação nuvem Nimbostratus

A Figura 1 mostra esses 10 gêneros em suas diferentes alturas. Porém há um erro na Figura 1: a nuvem Nimbostratus não é mais classificada como nuvem baixa, mas sim como nuvem média. Embora possa ser normalmente uma nuvem com base localizada em alturas mais baixas (até cerca de 2km), normalmente ela se forma mais comumente nos níveis médios da troposfera e então se espalha verticalmente.

Até a edição de 1956 do Atlas Internacional de Nuvens  (essa publicação tem edições nos seguintes anos: 1911, 1932, 1939, 1956, 1975, 1987 e 2017), utilizava-se uma noção de “família” de nuvens. Funcionava assim:

Família A: Nessa família de nuvens, estavam inclusas as nuvens altas (Cirrus, Cirrostratus, Cirrocumulus)

Família B: Nessa família de nuvens, estavam inclusas as nuvens médias (Altostratus, Altocumulus)

Família C: Nessa família de nuvens, estavam inclusas as nuvens baixas (Stratus, Nimbostratus, Cumulus, Stratocumulus)

Família D: Nessa família, estavam as chamadas nuvens de desenvolvimento vertical (Cumulonimbus, Cumulus congestus)

O termo “família” caiu em desuso em 1956. Antes, a nuvem Nimbostratus eram classificadas como Família C. Por algum tempo, ela foi considerada uma nuvem de Família D, devido sua característica de crescimento vertical.

Consultando a edição de 1987 do Atlas Internacional de Nuvens, percebi  que já em 1987 as nuvens Nimbostratus eram consideradas nuvens médias! Ou seja, eu estou morrendo de vergonha de ter dito que elas eram nuvens baixas, porque eu fiz algo muito ingênuo que não recomendo: consultei apenas uma fonte, o livro Meteorology Today (que foi de onde adaptei a Figura 1). Apesar de ter consultado edições do Atlas Internacional de Nuvens, eu nunca tinha prestado a atenção a essa questão da nuvem Nimbostratos até esse ano, quando foi lançada a nova edição do Atlas Internacional de Nuvens. Além disso, estou trabalhando em um projeto em que comecei a traduzir e a elaborar alguns materiais relacionados ao assunto. Após ler bastante, eu me dei conta do erro que cometi!

Figura 2 – Página 52 do vol II do Atlas Internacional de Nuvens (edição de 1987). O termo Cm=2 indica que ela é uma nuvem média! 

Na edição de 1975 do Atlas Internacional de Nuvens, é utilizado o termo étage, palavra em francês que significa nível ou altura. Esse termo é empregado para determinar a altura da nuvem e classificá-la de acordo com a altura. Observe que nessa edição (veja a Figura 3), a nuvem Nimbostratus já era considerada uma nuvem média, porém é informado que ela tipicamente se estende a outros étages (veja Figura 3).

Figura 3 – Páginas 15 e 16 do Atlas Internacional de Nuvens (edição de 1975) indicando os étages (níveis), altura das bases das nuvens.  Observe que essa altura varia de acordo com o local, já que a extensão da troposfera varia de acordo com a latitude. 

A partir de minhas pesquisas, eu entendi (se não estou enganada, se alguém souber me conta nos comentários) que as nuvens Nimbostratus eram consideradas nuvens baixas até a edição do Atlas Internacional de Nuvens de 1956. Infelizmente não encontrei um pdf dessa edição, então não pude ter certeza e não tive tempo de ir até uma biblioteca que conheço que possui a versão física dessa edição do Atlas.

Ou seja, essa re-classificação não é uma medida recente, porém muitos livros e apostilas de um modo geral parecem não ter se adequado a essa mudança, talvez porque considerando a prática do dia a dia das observações meteorológicas o fato da nuvem Ns ser uma nuvem média ou baixa não faz muita diferença.

O que é uma nuvem Nimbostratus (Ns)? 

As nuvens Ns geralmente são caracterizadas como uma camada de nuvens cinzentas com base relativamente uniforme e que pode precipitar chuva ou neve. Quando o Sol é visível através desse gênero de nuvem, seu esboço é claramente discernível. Nuvens baixas e irregulares podem ocorrer abaixo da camada de Ns, podendo ocorrer uma aparente “fusão” entre as nuvens.

Figura 4- Nuvens Ns são geralmente bastante “sem graça”, uma vez que não apresentam características marcantes em sua aparência. Fonte da imagem: Wikimedia Commons 

Nuvens Nimbostratus (Ns) normalmente ocorrem quando há uma frente quente ou uma frente oclusa, onde a ascensão lenta do ar quente as gera junto com uma camada de nuvens Stratus (St) logo abaixo. Normalmente nessas situações as nuvens Ns e St são precedidas por nuvens altas, como Cirrostratus (Cs) e Altostratus (As). Frequentemente, uma nuvem As pode ficar mais espessa e mover-se para alturas mais baixas, tornando-se assim uma nuvem Ns.

Nuvens Ns estão sim associadas com chuva, até porque a palavra nimbus significa chuva, em latim. No entanto, diferentemente das nuvens Cumulonimbus (Cb), as nuvens Ns não estão associadas com trovões ou relâmpagos. Só que nuvens Cb podem aparecer interagindo com nuvens Ns, normalmente em áreas vizinhas, já que a instabilidade do ar provocada pela presença do sistema frontal pode gerar nuvens Cb. Em situações em que temos nuvens Ns e Cb, fica bem difícil saber qual nuvem está produzindo a precipitação que chega até o chão. Uma pista é o tamanho das gotas: as gotas das nuvens Cb são normalmente maiores e o aguaceiro provocado pela Cb é mais intenso e dura menos tempo.

A presença de nuvens Cb e Ns em conjunto é relativamente incomum. O mais comum mesmo é termos somente nuvens Ns associadas à presença de frentes quentes.

Veja que anteriormente eu usei o termo sistema frontal. Eu percebo que eu ainda preciso escrever um post falando apenas de sistemas frontais. O que ocorre é que quando temos um sistema frontal, temos o ciclone, a frente fria e a frente quente (eu falei brevemente sobre isso nesse post). Devido ao formato da América do Sul, que se afunila em direção ao Sul, ocorre que as frentes frias ficam sobre o continente e as frentes quentes ficam sobre o oceano, quando ocorre um sistema frontal. Já na América do Norte, as frentes quentes acabam também ficando sobre o continente e são responsáveis por muita chuva em diversas localidades da costa oeste norte-americana.

Sendo assim, a observação de nuvens Ns é muito mais comum na América do Norte. Recentemente eu precisei produzir um material sobre nuvens e consegui fotos de todos os gêneros de nuvens. Quase todas as fotos foram feitas em São Paulo-SP, com exceção da imagem da nuvem Ns. Para conseguir uma imagem boa de uma nuvem Ns, tive que recorrer a um banco de imagens internacional.

 

Conclusão

Na prática do dia a dia do observador meteorológico, essa questão da classificação da nuvem Nimbostratus não faz tanta diferença. No entanto, saber que eu não conhecia um ponto relativamente básico de um assunto que gosto tanto, me assombrou. Acredito que seja uma lição, para sempre consultar mais de uma fonte e preferencialmente sempre chegar até o cerne, a fonte original, que no caso do Sistema de Classificação de Nuvens é o Atlas Internacional de Nuvens.

 

Links adicionais e bibliografia:

Posts do Meteorópole com o tema Classificação de Nuvens:

Acredito que classificação de nuvens é o tema que mais abordo aqui no blog, então já escrevi vários posts sobre o tema. Abaixo, eu listei os principais deles: