O furacão Ophelia, os incêndios em Portugal e a poeira do Saara



Mar agitado devido a aproximação da tempestade tropical Ophelia na costa da Cornuália (Cornwall) na Inglaterra. Cortesia de Shutterstock

Cone de previsão da trajetória do Furacão Ophelia (resultado da previsão das 21:00 UTC do dia 12 de Outubro). Fonte: NOAAO Furacão Ophelia parecia uma “alucinação”, como mencionou o meteorologista Marshal Shepherd em sua coluna na Forbes. E por que tanto espanto? Porque ele seguiu uma trajetória um tanto incomum. Na imagem abaixo, que mostra o cone de previsão da trajetória de acordo com uma previsão das 21:00 UTC do dia 12 de outubro, podemos ver que Ophelia chegaria com status de furacão até o sul do litoral da Irlanda. E foi de fato o que aconteceu, passando bem perto da Região Autônoma dos Açores (Arquipélago dos Açores) no caminho.

Nesse texto do The Weather Channel, é mencionado que Ophelia não foi o único na história a fazer essa trajetória incomum. De acordo com a NOAA, de 1851 até 2010 apenas 15 furacões passaram próximos dos Açores (a menos de 200 milhas náuticas de distância, uns 370km). Todos esses furacões incomuns ocorreram entre Agosto e Setembro (com exceção do Furacão Fran de outubro de 1973 e do Furacão Alex, de Janeiro de 2016).

E se a gente levar em consideração a proximidade com a Irlanda, Shepherd e esse texto do Livescience também fazem um levantamento semelhante: de 1851 até 2010, apenas  10 tempestades extratropicais chegaram a uma distância menor que 200 milhas náuticas da Irlanda. O Furacão Debbie foi o único que chegou até essa região com o status de furacão, em 1961.

Saiba mais sobre como os furacões se formam nesse link.

Mas Ophelia de fato conquistou um recorde: o de furacão que viajou mais a leste desde 1851, que é a partir de quando o NHC/NOAA tem registros {x}.

Os ventos associados ao Ophelia acabaram facilitando que os incêndios que já estavam atingindo o interior de Portugal se espalhassem ainda mais.  Cerca de 45 pessoas morreram em decorrência desses incêndios {x}. A imprensa portuguesa tem destacado essa temporada de incêndios como uma das mais fatais dos últimos tempos, com mais vítimas e com mais áreas atingidas. O furacão Ophelia infelizmente acabou favorecendo que o fogo se espalhasse ao longo dos dias em que o fenômeno ficou aproximadamente próximo da costa portuguesa.

Além de espalhar o fogo, Ophelia ajudou a espalhar também poeira do deserto do Saara. Em Portugal, Galícia, Irlanda e Reino Unido, foram feitos registros do disco solar em que ele aparece alaranjado e meio turvo. E esse efeito alaranjado aparece em fotos ao longo de várias horas do dia (não apenas nos horários próximos ao nascer ou pôr-do-Sol). Era como se o Sol estivesse “embaçado” e acredito que a imagem abaixo é bem ilustrativa disso que estou mencionando:

Imagem de 16 de Outubro de 2017 em Gloucestershire, Reino Unido. Veja como o disco solar aparece alaranjado, meio ‘turvo’. A poeira do deserto do Saara, carregada pelos ventos associados ao furacão Ophelia, provocou esse efeito. Imagem de Wikimedia Commons

Entenda o Espalhamento Mie, fenômeno que deixa o céu alaranjado quando há a presença de partículas relativamente “grandes”. Clique aqui para saber mais.

Eu já mencionei em outros posts que a poeira do deserto do Saara chega até o sul da Europa e pode inclusive atravessar o Atlântico, de acordo com o padrão de circulação atmosférico. A poeira do Saara está associada a um fenômeno chamado chuva de sangue.

Sabemos que a chuva é composta basicamente por água, que quando disposta em pequenas quantidades (como gotas) é incolor. No entanto, as gotas de chuva interceptam todo material em suspensão na atmosfera (poluição gasosa, fuligem, poeira, etc) antes de atingirem o solo (…).

Apesar da enorme distância entre o deserto do Saara e o Reino Unido (mais de 2000km de distância), a poeira é tão fininha que em algumas situações pode ser carregada pelo vento por longas distâncias. A chuva então intercepta essa poeira que tem tonalidade avermelhada e as gotas d’água ficam ‘tingidas’ de vermelho.{x}

Para saber mais sobre o fenômeno chuva se sangue, veja também nesse link do Met Office.

Não encontrei nenhuma fonte confiável que indicasse que tenha ocorrido chuva de sangue no Reino Unido ou na Irlanda (ou outro lugar também afetado) em decorrência da poeira do Saara transportada pelos ventos associados ao Furacão Ophelia. Eu não encontrei, porém  é extremamente possível que tenha acontecido, já que todos os ingredientes para que esse fenômeno pudesse acontecer estavam lá!

O que eu encontrei, infelizmente, foram muitas páginas sensacionalistas. Tabloides britânicos e sites de teoria conspiração usando termos como “mistério” ou “fim do mundo”. E eu tenho certeza que a presença desse tipo de material anti-científico atrapalhou na minha real pesquisa (saber se ouve ou não a tal chuva de sangue).

Acabei pesquisando e descobri que teve pouca chuva no período para “remover” a poeira do Saara. Ou seja, aparentemente não tinha muita água para precipitar, provavelmente foi por isso que o fenômeno de chuva de sangue não foi observado.

Eu pessoalmente detesto quando a imprensa usa termos como “mistério”, “fenômeno misterioso”, etc. O objetivo é claro, atrair cliques. Porém notei que em poucas ocasiões, nas notícias dos tabloides mais toscos que li, um especialista é ouvido para explicar o fenômeno e se é ouvido, utiliza-se apenas alguns trechos um tanto desencontrados de sua declaração. A informação científica é muito mal dada, o foco está na aparente aura de mistério em torno do fenômeno pouco conhecido pela população.

Minha opinião é que a imprensa deveria usar termos como “fenômeno incomum” ou “fenômeno intrigante” e então a partir desse gancho, explicar o fenômeno cientificamente para esclarecer e tranquilizar a população. A palavra mistério é muito associada ao metafísico, ao oculto e ao sobrenatural, acho inadequada quando usada para descrever algum fenômeno natural incomum que é pouco conhecido pela população em geral.