Urubus amam meteorologia



Ao longo desses anos trabalhando na Estação Meteorológica do IAG-USP, cheguei a uma conclusão sobre os urubus. Vamos falar sobre esses graciosos animais.

Olhando assim é fofinho. Claro que existem vários tipos de urubus, aqui estou generalizando. Se quiser saber mais sobre as espécies e sobre as mais encontradas no Brasil, recomendo esse link.
Cortesia de Shutterstock.

Os urubus são aves completamente folgadas e elas adoram instrumentos meteorológicos. Eu sei, parece uma enorme bobagem e até puerilidade atribuir certas qualidades aos animais, mas eu vou provar meu ponto para vocês.

Eu disse que eles são folgados porque os urubus são uma daquelas aves que planam. Eles aproveitam as termas ou térmicas para planar e dessa maneira gastam menos energia. Se você mora em uma área com bastante mata ao redor, certamente já viu urubus planando.

Quando o dia está bastante quente, parcelas de ar quente vão subindo. Se essa parcela de ar quente contiver vapor d’água (ou seja, se ela for úmida), a uma certa altura o vapor d’água presente nela vai condensar e passar para o estado líquido. Teremos então várias gotículas agrupadas, formando uma nuvem. O nome desse processo é convecção é é uma das maneiras das nuvens se formarem. As nuvens se formam também através de outros processos, veja aqui.

Na Figura 1, vemos esse processo de convecção de maneira ilustrada, indicando a ascensão da parcela de ar e sua expansão e condensação do vapor d’água contido na parcela: 

Figura 1: A figura acima mostra o processo de formação de nuvens através de termas, que são parcelas de ar quente que sobem, já que são menos densas. Fonte: FORSDYKE, A.G.: Previsão do tempo e clima.

As aves (ou os planadores e/ou praticantes de voo livre) percebem que uma corrente ascendente (uma térmica) está ocorrendo em um determinado ponto. As aves vão então subindo por esse ponto até uma determinada altura, ganhando energia potencial dessa maneira. Nesse processo, elas não gastam nenhuma energia: deixam que a aerodinâmica de seus corpos aproveite-se da carona grátis da natureza.

Em seguida, as aves descem planando para outro ponto de interesse (um local com uma carcaça de animal, por exemplo, no caso de urubus). Se a ave perceber que não há nada de interessante, ela torna a subir (antes mesmo de “pousar”), aproveitando-se de outra térmica. {x}

Estou sendo radical ao chamar os urubus de folgados? Bem, acho que eles são como aqueles moleques que seguram na rabeira do caminhão enquanto estão de bicicleta (prática perigosíssima). Mas também não posso ser tão radical assim, já que pilotos de planadores e de asa-delta também se aproveitam das termas. Ou seja, sou apenas mais uma humana hipócrita.

Agora vamos falar do amor dos urubus por instrumentos meteorológicos. Nesse post, contei para meus leitores sobre as observações de vento e sobre o funcionamento do anemógrafo, porém eu não tinha postado fotos comprovando esse amor. Eis que meu trabalho investigativo produziu algumas fotos (Figura 2 e Figura 3):

Figura 2: Desçam já daí! Cortesia: Estação Meteorológica do IAG-USP

 

Figura 3: Close. Cortesia: Estação Meteorológica do IAG-USP

As imagens acima foram feitas na Estação Meteorológica do IAG-USP e mostram esses danadinhos em torno da estrutura externa do anemógrafo. Já pude presenciar várias situações em que essas criaturinhas ficam pousadas em cima da pá que indica a direção do vento ou em cima do eixo giratório que ajuda a determinar a velocidade média do vento. Quando isso acontece, damos um jeito de espantá-los rapidamente, fazendo ruídos ou fazendo o bom e velho xô, xô.  Nem sempre eles saem, lembrem-se, eles são folgados. E claro, a presença deles é sempre informada, como metadata.

Além desse objetivo de atrapalhar os registros do vento, eles também ficam mexendo em outro instrumento meteorológico, o heliógrafo.  O heliógrafo é um instrumento que registra o total de horas de brilho solar (isto é, o total de horas em que o Sol apareceu sem ser coberto por nuvens). Para isso, o instrumento queima uma tira de papel. O heliógrafo é composto por um globo de vidro, que atua como uma lupa e converge os raios solares nessa tira de papel, que é queimada. Para saber mais sobre esse instrumento, veja esse post.  Evidentemente o heliógrafo precisa ser instalado em uma área externa e em um local alto, de modo que nada atue como uma sombra em cima dele. O cheiro do papel queimado parece atrair os urubus e já presenciei alguns casos em que o registro foi perdido porque os urubus simplesmente conseguiram remover o papel (ou tira heliógrafica) e sumiram com ele.

Recentemente vi uma nova pérola que vai deixar o Vinícius de cabelo em pé:  eles também gostam de radares meteorológicos, o que pode ser comprovado pela Figura 4:

Figura 4: olha lá na antena do radar!

O radar meteorológico em questão é o do Parque CienTec e para saber mais sobre o funcionamento de radares, visitem esse post. Como mencionei o Vinícius, recomendo também esse ótimo texto sobre o tema. Como o Vinícius dá aulas de Meteorologia Aeronáutica,  ele fala também de radares dentro desse contexto.  Bom Vinícius, se começarem a aparecer alguns dados estranhos ou melecas esquisitas na estrutura desse radar meteorológico em questão, você agora já sabe a origem.

Lembrando que os urubus procuram esses lugares simplesmente porque eles são altos e permitem uma vista privilegiada para todas as direções, ajudando-os a encontrarem os locais onde é possível encontrar alimentos. Não, eles não são formados em meteorologia (olha o exercício ilegal de profissão aí).