Como é trabalhar fora estando grávida?



Antes de mais nada, preciso explicar: não estou grávida no momento. As pessoas já se alvoroçam com a gravidez alheia (sinceramente, não entendo o motivo). Para alguns, basta aquela amiga que está casada há algum tempo engordar alguns quilinhos para que as especulações comecem. Por isso já esclareço logo de cara e eu tenho quase certeza que é capaz que algum desavisado que me conhece pessoalmente ainda venha me questionar sobre gravidez. E quando eu disser que eu não estou grávida, vai perguntar se eu tenho planos para um segundo filho. Como tem gente inconveniente e intrometida nesse mundo!

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Eu tenho um filho de 2 anos e 4 meses e eu trabalhei fora de casa durante quase toda minha gravidez, com exceção dos últimos 15 dias aproximadamente em que esperei em casa. Eu estava cansada fisicamente e mentalmente e a melhor coisa que fiz foi me afastar do trabalho. Fiquei aguardando em casa, até o momento de meu parto normal. Conheço mulheres que optam pela cesariana que pedem licença 14 dias antes da cirurgia, para também ficar em casa descansando e fazendo os últimos preparativos para a tão esperada hora.

Durante a minha gravidez, escrevi uma pequena série de posts chamada A ‘Cientista’ Grávida. Vocês podem conferir todos os posts dessa série nesse link. No entanto, percebi que eu amadureci muito nesses 2 anos e 4 meses e hoje vejo a experiência de trabalhar fora durante a gravidez de uma outra maneira. Ou seja, os relatos que escrevi durante a gravidez são diferentes: são relatos de uma mulher um pouco mais jovem, bem menos experiente e que estava passando por alguns problemas pessoais. Não acho que esses relatos durante a gravidez são inválidos, pelo contrário: mostram uma ‘Samantha diferente’, mais cansada e muito mais estressada. O que vou escrever agora é um relato mais equilibrado e muito mais sábio.

As mulheres que trabalham fora de casa têm alguns direitos durante a gravidez. Temos direito a nos ausentar para realização de consultas e exames. Ainda é possível solicitar que te troquem de função, caso a função que você realize seja perigosa para sua saúde e de seu bebê. É sempre bom falar com a seção de pessoal do seu local de trabalho e se for o caso, consultar um advogado trabalhista. A internet está cheia de informação também e recomendo no momento essa reportagem recente da Época e esse texto do site Direitos Brasil. Converse também com colegas de trabalho que estão grávidas ou que já deram a luz para obter ainda mais informações a respeito do tema.

Eu tive uma gravidez tranquila do ponto de vista físico. Eu me ausentei para algumas consultas e exames, o pré-natal normal que toda mulher deve e tem o direito de fazer. Em algumas ocasiões, fui para a consulta e fui para o trabalho na sequência. Tudo muito tranquilo e felizmente pude contar com a compreensão do meu chefe e de meus colegas de trabalho.

Siga as recomendações de seu médico corretamente. Se você não sentir firmeza no profissional, se possível, procure outro. Leia bastante, porém cuidado com o que você lê. Leia sites de revistas especializadas (como a Crescer e a Pais e Filhos). Recomendo também o Baby Center, que tem muito conteúdo de qualidade. Se você gosta de ciência e possui formação na área (principalmente de biológicas), acho que pode ser uma ideia legal ler artigos científicos. Alguns blogs não são muito recomendáveis na minha opinião, pois estão recheados de pseudociência, desinformação em geral e algumas pessoas adoram “ditar regras”. Quando a mulher está grávida, em geral fica muito sensível e pode se abalar mais facilmente com algumas coisas que ouve ou lê. Por isso, acho que esse cuidado com o tipo de informação que se consome é muito importante.

Vejam, não estou demonizando os “blogs de mães”. Inclusive eu recomendo muito um blog em particular, que é o da minha querida Marrie Ometto. Eu acredito que é legal lermos os relatos dos outros, pois aprende-se muito e há a questão da identificação no outro. Só que nem todos os blogs são bem escritos. E para dizer a verdade, para mim o maior problema hoje em dia está no Instagram. Há centenas de “perfis maternos” e poucos trazem informação de qualidade. Há muito plágio, muito consumismo, muita desinformação e muita loucura em geral.  E eu acho que a própria transmissão da informação no Instagram é problemática, uma vez que essa rede social não permite links externos e eu particularmente não gosto disso.  Eu quero dizer que temos que ler os blogs com cautela (incluindo o meu, viu!).  Devemos ler blogs sempre buscando o entendimento de que eles trazem informação, porém é preciso separar o que é informação boa, o que é informação ruim e o que é mero relato pessoal.

Nem todo relato pessoal alheio se encaixa com o seu estilo de vida. Uma vez li um texto de uma mulher frustradíssima porque não conseguiu fazer o enxoval em Miami, por razões financeiras. Meu Deus, por acaso essa é a coisa mais importante do mundo? Claro que não! Porém pelo o que observei, essa mulher se espelhava demais em outras produtoras de conteúdo. Não seja assim, sua realidade é única e nem sempre o que o outro faz você pode/quer/deve fazer.

Eu confesso que tive muito problema com isso de excesso de informação durante a gravidez, porém hoje compreendo que o problema foi o excesso de informação sem saber separar o que era boa informação do que era informação ruim ou inadequada para o meu estilo de vida. Hoje entendo isso e essa compreensão inclusive tem me ajudado a produzir melhor conteúdo para o meu blog. Procuro sempre colocar os links e as referências adequadas quando é o caso, para que quem lê meus textos (de qualquer assunto) saiba que meu texto pode ser um ponto de partida ou até o meio do percurso da busca por informação, porém nunca a linha de chegada!

Relações pessoais

A gente fica bem sensível durante a gravidez e pode se estressar ou se entristecer com as coisas que ouve por parte dos colegas de trabalho. E você vai ouvir todo tipo de coisa. Desde experiências positivas e informações de qualidade que podem te ajudar, até crendices, pseudociência  e experiências negativas (que podem nos impressionar ou impactar de maneira ruim durante a gravidez). É aquela história de saber separar o joio do trigo, na gravidez ter esse filtro é extremamente importante e desafiador, mas acredite em mim: com o tempo, você vai ficar mais forte e até as palavras das pessoas mais sem noção vão te fortalecer!

Se você trabalha em um ambiente com muitos homens, capaz de passar por situações curiosas de mansplaining: o sujeito não tem ideia do que é estar grávida, porém vai te dar “altas dicas” sobre o assunto. Entenda também que nem tudo é mansplaining, pois há caras legais, bem informados, que participam da vida de suas companheiras e tem algumas dicas e informações bacanas para transmitir. É interessante ouvir o ponto de vista masculino, até para compreendermos melhor nossos companheiros. Mas sim, a gente sabe quando está sendo tratada como idiota. E isso acontece muito durante a gravidez! Vai ter gente que vai achar que sabe mais do que você sobre o seu próprio corpo. O jeito é ignorar.

Boa saúde: física e mental

O que me ajudou muito para ter uma boa saúde foi uma alimentação saudável na maior parte do tempo e a prática da hidroginástica. E eu posso dizer que trabalhar e escrever aqui no blog foram coisas que me ajudaram também, pois pude manter minha mente tranquila e ocupada. No período que fiquei em casa, no finalzinho da gestação, me dediquei ao artesanato, leitura e também assisti algumas séries (assisti quase todas as temporadas de Friends).

Se você tem problemas de saúde como pressão alta e diabetes, acompanhe rigorosamente todas as recomendações especiais. Evite atividades que exijam muito esforço e peça a ajuda das pessoas. Eu sou uma pessoa muito orgulhosa e eu posso dizer com segurança que a gravidez me deu um banho de humildade. Nós precisamos dos outros: do companheiro, dos familiares, dos colegas e amigos. Há inclusive situações em que completos desconhecidos nos ajudam!

Eu me senti desamparada em algumas ocasiões e hoje vejo que parte da culpa de isso ter acontecido foi minha. Acredito que eu tenho esse perfil de repelir ajuda, as pessoas me acham auto-suficiente. Mas eu falo isso sem nenhum tipo de remorso, auto-vitimização ou auto-flagelo. Falo isso com um sentimento de que eu evoluí, pois hoje me sinto uma pessoa mais equilibrada e mais justa. Eu acredito que se eu engravidar novamente (e isso aconteceu, porém não deu certo, conforme contei aqui) eu vou ter uma visão diferente das coisas e vou ter uma saúde mental muito melhor, assim espero. Claro que surgirão tantas outras questões, mas eu acredito realmente que eu estou muito mais equilibrada e realista.

As conversas dos colegas de trabalho

Embora eu acredite sim que a gente deve pedir ajuda, até para não ficarmos sobrecarregadas, algumas pessoas tendem a acreditar que grávida não pode fazer nada. Aquela ideia antiga e totalmente equivocada de que gravidez é doença. Se sua gravidez está evoluindo bem e se sua saúde está boa, você ainda pode fazer muitas coisas. É preciso ouvir o próprio corpo e respeitar limites.

Alguns colegas meus me superprotegiam e ficavam a todo momento reforçando e ressaltando que eu estava grávida. Eu achava tudo um circo e até um tanto ridículo, porque eu já sabia que eu estava grávida, não era preciso ficar repetindo. Mas eu aprendi que a gente não pode mudar as pessoas, porém podemos nos mudar e mudar a maneira que reagimos e lidamos com certas situações. Se eu estivesse grávida hoje, eu nem me estressaria: entraria por um ouvido e sairia pelo outro.

A maioria das pessoas é bem intencionada, mas há sim aqueles que fazem comentários desnecessários e que até merecem uma boa resposta. Responda sim, desde que isso não te abale. Tem gente que merece mesmo um bom tapa de luva de pelica. Por outro lado, se a pessoa te estressa constantemente, ignore. Há gente maligna que só quer desestabilizar, o melhor a fazer é ignorar e compreender que o outro é um total ignorante.

Concluindo

Como em várias situações na vida, muitas vezes a gente consegue ter uma visão e uma opinião melhor depois que a tempestade passa. Depois do aniversário de 1 ano do meu filho, percebi que eu poderia olhar para trás com mais sabedoria e com olhos de aprendizado. Quando digo olhos de aprendizado, falo daquele olhar sem mágoas ou ressentimentos. É um olhar mais maduro, mais sábio, de quem tem aprendido com todas as experiências vividas.

Aproveite cada instante de sua gravidez, cada ultrassom, cada roupinha fofa que você adquirir, etc. Permita-se ser ‘mimada’ e procure ter uma vida leve em todos os sentidos: na alimentação, na relação com as pessoas e nos pensamentos. Descanse bastante e saiba que esse momento de espera é mágico. Você está aprendendo muito mais do que imagina, tem coisas que você certamente só vai absorver daqui um tempo.