Como prever o tempo através das nuvens?



Será possível prever o tempo apenas olhando para as nuvens? É isso que iremos descobrir hoje. Cortesia de Pixabay

Uma cena típica vista em filmes ou séries é a de um personagem molhando o dedo com saliva e levantando a mão para cima. Sentindo o vento no dedo úmido, ele poderia então fazer uma previsão para as condições meteorológicas daquele lugar.

Saber de onde o vento sopra pode ajudar a prever o tempo em um determinado local. Um agricultor, acostumado a observar o vento pelo movimento das árvores, certamente sabe de onde tipicamente vem o vento antes de uma tempestade, por exemplo. Se você conversar com uma pessoa idosa, que sempre foi moradora do campo e sempre no mesmo vilarejo, ela certamente vai te contar como é o clima da região e vai te contar como são as variações das condições meteorológicas em um único dia. Ela vai poder prever o tempo de uma maneira que não é simples palpite: há um conhecimento empírico que foi obtido ao longo de anos de observação.

Nesse post eu vou contar para vocês como fazer um bom palpite sobre a previsão do tempo do local onde você está através da observação das nuvens nesse local. Eu acredito que esse post vai ser muito útil para praticantes de escotismo, por exemplo. Bom, além dos queridos escoteiros que sempre visitam meu site e com quem tenho algum contato, os praticantes de atividades ao ar livre de um modo geral vão gostar bastante também (e não deixem de ler o post em que dou dicas de livros para quem realiza atividades ao ar livre).

Então vamos começar!

Conhecendo o nome das nuvens.

Para facilitar toda a conversa, nós precisamos falar a mesma língua. E é isso mesmo, meus leitores: as nuvens possuem nomes. Classificação de nuvens é provavelmente um dos assuntos mais abordados aqui no Meteorópole e vocês vão poder ver alguns links ao final (caso alguém queira saber mais sobre os nomes das nuvens).

As nuvens são classificadas de acordo com sua altura e com sua aparência ou formato. Por exemplo,  o nome Cumulus refere-se a um “monte” de nuvens. O nome Stratus refere-se a nuvens longas e irregulares que dão uma ideia de camada. E Nimbus refere-se à chuva, portanto toda nuvem que tem o nome Nimbus trata-se de uma nuvem com precipitação apreciável.

Guia de identificação das nuvens do Met Office, publicado também no site da WMO.

Aprender o nome das nuvens não é exatamente uma tarefa fácil, já que necessita de bastante treino e prática. É necessário observar bastante e sempre tentar classificar. No curso de Meteorologia, há uma matéria em que os alunos precisam observar e anotar o nome das nuvens presentes no céu ao longo de vários dias (ao menos uma vez por dia). Ou seja, a prática leva a perfeição.

Uma ferramenta que ajuda bastante são as fotografias. Ver fotografias de nuvens nos ajuda a fixar os nomes das nuvens e a melhor ferramenta e fonte de boas fotografias é sem dúvida o Atlas Internacional de Nuvens. A edição mais recente é a de 2017 e está disponibilizada na internet (consulte aqui e aqui, dois links da WMO com esse material). É possível assim comparar as fotos com o que está se vendo naquele momento e acredito que essa é a melhor maneira de aprender a classificar nuvens por conta própria (sem fazer um curso específico, por exemplo).

O que as nuvens altas podem nos dizer?

As nuvens altas são as nuvens Cirrus (Ci), Cirrostratus (Cs) e Cirrocumulus (Cc). Essas nuvens podem nos contar sobre como será o tempo nas próximas 48h (aproximadamente). Nesse post eu dou um ótimo exemplo, explicando como as frentes frias são “anunciadas” pela presença dessas nuvens altas.

Foto de uma nuvem Cirrus feita pelo Renan, leitor antigo aqui do blog (comentei sobre essa foto nesse post).

Lembrem-se que a presença de uma frente fria não significa necessariamente que vai ficar “super frio”. A temperatura pode cair um pouco, mas certamente ficará mais nublado e há chances de chover. Um fenômeno associado com nuvens Cs (Cirrostratus) chamado halo também é um ótimo indicativo de mudança de tempo nas próximas 48h aproximadamente:

Imagem do Leitor Eduardo, que registrou um halo em Palmas-TO. Comentei a foto nesse post.

Reparem que um halo é um fenômeno meteorológico de fácil identificação. Claro, não se deve olhar diretamente para o disco solar: o ideal é cobrir o disco solar com o punho fechado, com um pedaço de papel grosso ou com qualquer outro objeto. Mas o que quero mostrar é o círculo colorido em torno do Sol (o halo também ocorre ao redor da Lua). Para saber mais sobre esse fenômeno, veja aqui.

Os halos são tão associados com mudança no tempo que há dizeres populares que incorporaram o fenômeno:

“Halo round the sun or moon

Rain will be a-fallin’ soon.”

Esse verso (cujo autor é desconhecido, pelo menos para mim) reflete exatamente o que a presença de um halo significa. “Halo em torno do Sol ou da Lua, significa chuva em Breve”. Em um post do Vinicius sobre Meteorologia Popular (o post está imperdível, veja aqui), ele falou do ditado equivalente, em português:

Lua com circo, água no bico” ou “circo na lua, lama na rua”

Se as nuvens altas (principalmente Cirrus e Cirrocumulus) parecem estar se movendo, significa que muito provavelmente o tempo mudará em cerca de 1 dia. Por outro lado, se essas nuvens parecerem mais estacionárias, a mudança no tempo vai demorar um pouco mais para acontecer.  E isso tem a ver com o deslocamento da frente fria, assunto que tratei nesse post.

O que as nuvens médias podem nos dizer?

Um dos pontos que ajudam a identificar nuvens Altostratus é que se essas nuvens estiverem cobrindo o disco solar ou lunar, ele aparece difuso, sem o contorno definido. Essa foto também foi feita pelo Renan e a comentei aqui.

As nuvens Altostratus anunciam chuvas leves nas próximas horas, daquele tipo de chuva que cobre grandes áreas. A presença de nuvens Altocumulus no céu sugerem uma turbulência em níveis médios da atmosfera. Se elas surgirem de manhã, prenunciam chuvas localizadas no período da tarde (chuvas essas que podem ser de intensidade variável).

Aqui é importante destacarmos a palavra -cumulus, que significa “monte ou amontoado”, como destacamos anteriormente. Quando temos nuvens com esse nome (seja como nome ou como sufixo), significa que ela tem um desenvolvimento vertical e desenvolvimento vertical significa movimento ascendente que basicamente é turbulência. Ou seja, de um modo geral, aeronaves devem evitar áreas com a presença de nuvens desse tipo.

 

As nuvens Nimbostratus indicam que precipitação forte e duradoura continuará ocorrendo ao longo de várias horas. E essa precipitação pode ser chuva ou neve. Nuvens Nimbostratus não estão relacionadas com precipitação de granizo ou com a ocorrência de raios.

O que as nuvens baixas podem nos dizer?

As nuvens Cumulus também são chamadas de “nuvens de bom tempo”. São aquelas nuvens que lembram flocos de algodão ou ovelhinhas. Elas indicam tempo ensolarado e sem chuva. Mas é preciso ficar de olho nelas: se elas começarem a crescer e a se desenvolver verticalmente ao longo do dia, isso significa que poderemos ter uma tempestade no final da tarde, evento típico do verão aqui da Região Sudeste, por exemplo.

Cumulus mediocris em Red Rock Canyon, Las Vegas. Reparem como a nuvem é mais branquinha em cima e na base dela conseguimos notar uma coloração mais acizentada. Fonte:Wikimedia Commons.

 

E se as nuvens Cumulus se desenvolverem verticalmente, elas são “promovidas” a Cumulonimbus. A presença dessa nuvem está associada com chuva forte e localizada (as tais pancadas de chuva). Essa nuvem também está associada com a presença de raios e podemos também ter granizo.

As nuvens Stratus e Stratocumulus não indicam chuva forte. Sua presença está associada com garoa, que pode ocorrer a qualquer hora do dia.

Finalizando

Esse post é apenas um pequeno guia, para quem realmente quer começar a observar os sinais da natureza. É bastante provável que dependendo da região onde você mora, os moradores mais antigos terão um saber interessante sobre isso. Vale muito a pena falar com idosos e agricultores, eles certamente poderão dar dicas sobre as mudanças de tempo na região em que vivem.

Vivendo por muitos anos em um local e dependendo da terra para sobreviver, o indivíduo se torna uma espécie de “estação meteorológica humana”, pois o conhecimento adquirido através da observação cotidiana possibilita alguns palpites muito bem dados sobre as mudanças no tempo daquele determinado lugar.

Importante dizer!

O que apresentei aqui foi apenas um guia básico, indicado para quem pratica atividades ao ar livre. Um meteorologista não prevê o tempo apenas olhando para o céu. Na verdade, um meteorologista operacional mal olha para o céu: ele fica ‘preso’ em um escritório, analisando as informações que chegam até ele a todo momento. Essas informações são os resultados das simulações dos modelos meteorológicos e dados meteorológicos em tempo real (satélites, radares, estações de superfície, dados de aeroportos, etc). Além disso, o trabalho do meteorologista não é algo solitário: é um trabalho em equipe, onde as discussões sobre as interpretações dos dados precisam ser pautadas em conhecimento científico e experiência.

Para saber como os meteorologistas fazem a previsão do tempo, consulte esse post e os links indicados nele.

Referências