Dúvida do leitor: informações sobre o vento



Hoje vamos falar sobre o vento.
Cortesia de Pixabay

No post de hoje, responderemos a alguns dos questionamentos feitos pelo Renato, que me mandou um e-mail com algumas dúvidas. O post também será uma compilação de outros textos que já escrevi sobre o assunto, até porque muitos deles ajudam a responder as dúvidas do Renato (e de outros leitores que chegarem até aqui buscando por esse assunto).

Então vamos lá!

A direção do vento é definida a partir da direção de onde o vento sopra, de onde o vento vem, isto é, se é Norte, significa que o vento sopra de Norte para o Sul, se é Este, significa que o vento sopra de Leste para Oeste. Se houve duas indicações, por exemplo, W (oeste) NW (noroeste) significa que o vento primeiro sopra da direção Oeste e mudará depois para Noroeste. É isso mesmo?

Em primeiro lugar, a observação do Renato sobre a direção do vento, no início da pergunta, está corretíssima. Em Meteorologia, quando informamos o vento, precisamos informar sobre sua intensidade e sua direção. E a direção sempre se refere de onde o vento está vindo! E fica fácil a gente fixar isso quando entendemos o motivo: precisamos saber de onde o vento está vindo porque ele traz as propriedades do local de onde ele vem. Isso significa que um vento que vem de Sul (aqui para nós, do Hemisfério Sul) é um vento em geral mais frio, por exemplo. No caso de São Paulo-SP, um vento de Leste é um vento mais úmido (pois o oceano fica a leste).

Eu tenho dois posts que podem ajudar a tirar essas dúvidas sobre direção e intensidade do vento:

O primeiro post indicado é um post introdutório, exatamente para quem chegou até aqui em busca de uma pesquisa inicial sobre o vento e sobre as definições. O segundo post indicado fala sobre as convenções da direção do vento e sobre como converter das direções cardeais para graus (e vice-versa). E inclusive nesse segundo post mostro as equações para converter o vento em componentes e por isso ele é muito bacana para quem está trabalhando com dados de vento.

Sobre a continuação dessa pergunta, eu não sei responder, porque eu não sei a que dados de vento o Renato se refere. Em geral, se há duas direções do vento aparecendo em um informe sobre as condições atuais ou previsão, significa que o vento predominante oscilará entre essas duas direções.

Vejam que eu usei o termo vento predominante. Ocorre que o vento varia o tempo todo: varia em intensidade e em sua direção. Como exemplo dessa variação, veja um registro do dia 21 de novembro de 2017, de um anemógrafo instalado na Estação Meteorológica do IAG-USP:

Trecho do anemograma de 21 de novembro de 2017, obtido a partir de um anemógrafo instalado na Estação Meteorológica do IAG-USP.

Veja a oscilação da direção do vento ao longo desse pequeno intervalo no qual fotografei o anemograma (nome dado ao registro do vento feito por um anemógrafo). A linha que indica a direção não fica “retinha”: ela oscila, pois a direção do vento varia. Abaixo, a lápis, o técnico escreveu a direção predominante do vento a cada intervalo horário. Vamos pegar como exemplo o intervalo das 13h-14h, em que o técnico escreveu que a direção predominante foi SE. Porém repare que a direção oscilou, chegando a ficar em E por um breve instante. Entretanto, na média, a direção foi SE, por isso fala-se em direção predominante.

Sendo assim, é bem provável que a presença de duas direções em um informe sobre o vento indique que o vento predominante oscilará entre essas duas direções. Mas para ter certeza, eu precisaria ver os dados os quais o Renato se refere.

O vento em diferentes escalas na atmosfera

Ainda no mesmo e-mail, o Renato me mandou esse link da NOAA que fala sobre a Corrente de Jato. O ideal mesmo seria eu escrever um post apenas falando sobre a corrente de jato. E é o que vou fazer em breve, até para melhor responder o Renato e para deixar as coisas mais organizadas.  No entanto, gostaria de aproveitar o gancho para falar que falar sobre a questão das escalas de tamanho quando falamos especificamente de vento.

Quando medimos o vento em um determinado ponto, como é medido no anemógrafo instalado na Estação Meteorológica do IAG-USP, precisamos tomar alguns cuidados. Esses cuidados estão descritos no GUIDE TO METEOROLOGICAL INSTRUMENTS AND METHODS OF OBSERVATION (WMO-No. 8, CIMO GUIDE). guia escrito pela WMO (World Meteorological Organization) e que determina como os instrumentos meteorológicos devem ser instalados para manter um padrão internacional com o objetivo de garantir uma qualidade nas observações meteorológicas. O capítulo específico das medidas de vento de superfície é esse. E quando a gente fala em vento de superfície, estamos falando em vento próximo a superfície, uma vez que uma das recomendações é que o anemógrafo esteja instalado em uma torre alta e distante de obstáculos (prédios e árvores muito altas). A intensidade e a direção do vento podem variar muito devido a presença de obstáculos, gerando turbulência e fornecendo uma medida que não é a “real”, digamos assim. A intensidade e a direção do vento variam com a altura, então ter a altura da torre do anemômetro bem conhecida e documentada é essencial. Além disso, prédios muito altos podem atuar como uma barreira para o vento ou podem “canalizar” o fluxo de ar, dependendo a direção de onde o vento sopra. Por isso todos esses cuidados precisam ser tomados.

Eu falei sobre a importância da padronização das observações meteorológicas nesse post.

Com as informações sobre a intensidade e direção do vento ao longo de diversos locais na Terra e com a compreensão de que a atmosfera segue as leis da física (como a conservação de massa, por exemplo), os cientistas ao longo dos anos perceberam que o vento tem alguns padrões locais (como a brisa marítima, por exemplo) e alguns padrões globais. E são desses padrões globais que o texto da NOAA que o Renato recomendou trata.

Vamos usar como exemplo os ventos alíseos (trade winds):

Padrões de circulação global. Destaque aqui para os ventos alíseos (trade winds), que ocorrem nas proximidades da linha do Equador, no Hemisfério Sul e no Hemisfério Norte. Imagem de Wikimedia Commons

Os ventos alíseos são um padrão predominante de ventos que sopram de leste para oeste (são também chamado de easterlies) nas proximidades do Equador, próximo a superfície da Terra. Os ventos alíseos são predominantemente de nordeste no hemisfério norte e de sudeste no hemisfério sul.

Não vou entrar em mais detalhes sobre os alíseos, porém eu os mencionei porque quero usar como exemplo. Vamos pensar em uma região bem próxima da linha do Equador, por exemplo, Belém-PA. Quer dizer então que o vento em Belém sempre sopra na direção sudeste, uma vez que essa localidade está na região onde ocorrem os alíseos? A resposta é não! O vento em Belém (assim como em qualquer outra cidade) também sofre influências locais: brisas marítimas/fluviais/lacustre, presença de circulação de vale-montanha, urbanização (efeito de ilha de calor), etc. O vento em Belém vai evidentemente ter uma forte influência dos alíseos, porém esses padrões locais do vento não podem ser desprezados.

Eu acredito que com esse exemplo pude mostrar que o que vemos em mapas globais que mostram os padrões de circulação do vento na atmosfera é como se fosse uma “média”, porém no entanto as influências da circulação local não podem ser menosprezados de maneira alguma. Nunca podemos desprezar as escalas dos fenômenos atmosféricos, por isso também recomendo a leitura desse post.

Finalizando

Eu ainda não respondi todas as dúvidas do Renato, pois ficou faltando falar mais dessa parte de circulação global. Em um post futuro voltarei a abordar esse assunto em mais detalhes.

Obrigada pela visita e pela mensagem, Renato.

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