Meteorologia no ENEM 2017 – primeira prova



Vamos estudar para a segunda prova! E se você está pensando em cursar o ENEM 2018, não é cedo para começar a estudar.
Cortesia de Pixabay

A Meteorologia é uma área do conhecimento que sempre está presente em discussões sobre temas da atualidade. Mudanças climáticas, poluição do ar e outros desastres naturais são sempre destaque nos meios de comunicação. Além disso, a Meteorologia sempre é destaque nos telejornais, já que praticamente todos eles possuem um quadro dedicado para a previsão do tempo.

E por falar em previsão do tempo, o que as pessoas mais gostam de conversar em elevadores e em salas de espera? Sobre o tempo. Bom, é melhor que falem sobre o tempo do que falem sobre política (principalmente com visões polarizadas) ou sobre a vida alheia. Desde que não falem sobre Meteorologia comigo, porque eu vou problematizar, hahaha.

Também não podemos nos esquecer que a Meteorologia está presente nas aulas de Geografia e Física. Ou seja, é um tema abordado dentro e fora da escola. É um tema da vida, já que dependemos da atmosfera para viver e as mudanças na atmosfera interferem em nossas atividades (e nossas atividades interferem na atmosfera, como tem sido comprovado nos últimos anos).

Toda essa introdução é apenas para lembrar que faz todo sentido termos Meteorologia nas questões do ENEM. Não só sobre Meteorologia, pois na verdade temas relacionados com ecologia e meio ambiente são constantes, já que todos em todas (ou quase todas) edições da prova aparecem questões que exigem conhecimento nessas áreas.

E por isso eu digo que se informar sobre questões ambientais é tiro certo para garantir acerto em algumas questões do ENEM. Além disso, é importante nos informarmos sobre essas questões por razões práticas da formação do cidadão: a humanidade precisa se sensibilizar e compreender que consome demais e que prejudica demais o meio ambiente.

No ENEM 2011, eu discuti as questões de Meteorologia que a prova continha (veja aqui). E eu fiz o mesmo para o ENEM 2014 (veja aqui). Infelizmente eu sempre me atrapalho no segundo semestre e me esqueci de discutir a prova nos outros anos, mas ao menos o tema meio ambiente está presente em todas as edições.

ENEM 2017 

No ENEM 2017, o @edsr97 (que também adora Meteorologia) destacou no Twitter as questões da prova que estavam relacionadas com Meteorologia. E eu vou falar sobre essas questões. Eu utilizei a prova amarela como referência, porque foi a destacada pelo G1. Para quem não conhece o ENEM, as provas são separadas por cores, porém o conteúdo da prova é igual para todas as cores de prova, mudando apenas a organização numérica das questões para dificultar fraudes.

Foram 3 questões diretamente relacionadas com Meteorologia e eu vou discuti-las a seguir.

  • Questão 60 (prova amarela)

 

Olha aqui uma questão sobre brisa marítima. E a resposta é simples: é a b. Eu falei sobre brisa nesse post (porém também vale a leitura desse post também), mas eu vou falar um pouco mais sobre o fenômeno para ‘destrincharmos’ essa questão.

As diferentes coberturas da superfície da Terra possuem diferentes capacidades térmicas. Sendo assim, elas levam mais ou menos tempo para se aquecer e mantém esse calor por mais ou por menos tempo, dependendo do material que as compõe. No ENEM de 2011, tivemos uma questão sobre ilha de calor (veja aqui) onde esse mesmo fenômeno ocorre:

As ilhas de calor são conseqüências das diferenças de temperatura entre os centros urbanos e as regiões vizinhas. O concreto, o asfalto e outros materiais típicos dos centros urbanos possuem maior emissividade que a vegetação, propiciando um aumento na temperatura nos centros urbanos (Freitas, 2004). Além disso, a impermeabilização do solo faz com que toda a água das chuvas seja drenada para bueiros e córregos, reduzindo assim a transferência de calor latente e aumentando a de calor sensível se comparado às áreas rurais, cuja cobertura (vegetação, solo, riachos, etc) proporcionam maior transferência de calor latente. Recentemente, Freitas (2004) testou no modelo RAMS (Regional Atmospheric Modeling System, Pielke et al. 1992) parametrização que trata as propriedades da superfície urbana e mostrou que fontes de calor antropogênicas de origem veicular são importantes na simulação do ciclo diurno de temperatura e umidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo.[1]

Do mesmo modo que o concreto e o asfalto possuem características térmicas diferentes de áreas vegetadas, o oceano e o continente também possuem características térmicas distintas. E por essa razão, gera-se uma circulação (vento), chamada de brisa marítima.

Na brisa marítima, o ar sobre o oceano está mais frio e o ar sobre o continente está mais quente. Temos então duas parcelas de ar com densidades diferentes. O ar frio é mais denso e desloca-se na direção do ar mais quente. É o que normalmente ocorre nas cidades litorâneas ou muito próximas do litoral. No final da tarde, sentimos um vento agradável, de intensidade leve ou moderada, muito bem-vindo em dias de muito calor.

Esquema de brisa marítima (ocorre no período da tarde, primeiro quadro)e brisa terrestre (ocorre a noite, segundo quadro). Esse tema será melhor explorado em posts futuros. Fonte: Wikimedia Commons

Agora que compreendemos o fenômeno, fica fácil compreender porque a resposta é a alternativa b. A brisa marítima é um fenômeno que acontece em todas as regiões litorâneas e pode afetar localidades em até aproximadamente 80km-100km de distância da costa. Sendo assim, é um fenômeno que atinge várias capitais brasileiras. Entender os fenômenos meteorológicos típicos do Brasil é uma das dicas que dou aqui. Além do enriquecimento que o conhecimento proporciona, esse saber pode ajudar a garantir alguns pontos no ENEM.

  • Questão 70 (prova amarela)

Aqui temos uma questão típica de climatologia, como também será a próxima questão que mencionarei adiante.

E toda vez que a gente fala em climatologia penso na ‘rixa’ tola e improdutiva que existe entre alguns meteorologistas e geógrafos. Para alguns meteorologistas, nós somos “donos” da climatologia, o que é uma extrema bobagem!

No curso de Meteorologia, aprendemos climatologia em uma abordagem mais quantitativa, enquanto os geógrafos veem a mesma coisa de forma mais qualitativa. É a mesma área do conhecimento, muda apenas a abordagem! E claro, as duas abordagens se complementam e eu adoraria ter feito um curso de Climatologia com o pessoal da Geografia. Eu falei um pouco sobre ‘essa polêmica’ nesse post.

Eu diria que essa é a questão que poderia causar mais dúvida. Talvez possa ter havido algum problema em sua elaboração. Em um pensamento mais desatento, acreditaria-se o mapa com as mínimas seria desnecessário. Pois bem, ele não é totalmente desnecessário. Observe a data dos dados: estamos falando do inverno. E saber que é inverno é importante para resolvermos essa questão, pois nos faz pensar nas características típicas do inverno para o Brasil.

No período de inverno, a Região Sudeste,  a Região Centro-Oeste, o norte da Região Sul, o sul da Região Nordeste e o sul da Região Norte ficam secos. A estação chuvosa nessa região só vai começar entre setembro e outubro. Nessa área mencionada, temos aí um clima com período seco e período chuvoso bem marcados.

Eu falei sobre essa questão do regime de chuvas no Brasil nesse post, vale a leitura!

Os meteorologistas operacionais brincam que durante o inverno, o mapa de precipitação fica com um “amarelão” no meio do Brasil, indicando exatamente essas regiões que ficam secas no período.

Por outro lado, ocorre chuva no norte da Região Nordeste, na Região Norte e no sul da Região Sul.

Observe que aqui estamos falando em climatologia, ou seja, condições médias. Claro que pode chover durante o inverno em São Paulo, por exemplo, porém a probabilidade de ser uma chuva com acumulados significativos é pequena.

E saber dessas informações sobre os diferentes climas brasileiros é importante para compreendermos o mapa e a tabela de umidade relativa que a questão acompanha. Perceba que se a umidade relativa fosse apenas determinada pela continentalidade ou pela vegetação, ela não variaria ao longo do ano ou ao longo de um mesmo dia (ela seria um fator constante). Outro ponto a se considerar é que a umidade relativa fica mais alta quando temos chuvas, já que o ar atmosférico está muito próximo da saturação em dias muito chuvosos. Por isso também acho importante falarmos do conceito de umidade relativa e eu falei dessa assunto aqui. Quanto mais próximo da saturação está o ar, maior a umidade relativa (ou seja, mais próxima ela está dos 100%).

Compreendendo o conceito de umidade relativa e compreendendo os diferentes climas brasileiros e o que esperar para o inverno do Hemisfério Sul no Brasil, podemos ter as ferramentas para responder essa pergunta. E a resposta é a alternativa c.

  • Questão 80 (prova amarela)

Mais uma questão que envolve climatologia. E foi a minha questão favorita!

Nessa questão temos também a necessidade de saber interpretar um gráfico, uma habilidade essencial em diversas áreas do conhecimento. Sendo assim, nunca subestimem as aulas de matemática e estatística. Há quem deteste aprender sobre funções, mas acredite: saber interpretar gráficos é uma habilidade extremamente necessária para a vida. E eu acredito que esse saber vai ser empregado em praticamente todos os cursos universitários, além de te ajudar a compreender notícias, extratos de investimentos bancários, etc. Se está com dúvidas em matemática, procure o Matemática Orientada!

Além disso, a questão tem alguma necessidade de conhecimentos gerais. Sim, para se preparar para o ENEM, recomendo a leitura de sites de divulgação científica, textos opinativos, cadernos de ciência, textos jornalísticos, etc. Eu recomendo a leitura de coisa boa, sabe? Assistir vídeos de divulgação científica ou difusão do saber em geral também ajuda muito, porém eu recomendo a leitura porque essa habilidade precisa ser treinada para que a prova possa ser bem feita. Na questão 80 os “conhecimentos gerais” (ou Atualidades, já que alguns colégios possuem uma disciplina apenas para tratar esse assunto) estão no fato de que preciso saber como é o clima de algumas cidades e esse saber é consolidado quando a pessoa gosta de ler notícias sobre o mundo de um modo geral.

Bom, mas vamos falar do gráfico. O que vemos nele? Vemos um climograma, gráfico que apresenta as médias mensais de temperatura e de precipitação. No gráfico, temos uma grande amplitude térmica anual: veja que a temperatura mensal mínima é negativa  (perto de -10°C) e a temperatura mensal máxima passa dos 15°C. Observando isso a gente também conclui que é uma localidade de baixas temperaturas mesmo no verão.

Ah sim, observe que os meses com temperatura média mensal maior ocorrem entre maio e julho, ou seja, só pode ser uma localidade no Hemisfério Norte (quando este é favorecido, recebendo mais radiação solar – leia mais aqui). E só com essa conclusão já é possível excluir algumas alternativas.

Com relação às chuvas, os totais médios mensais são relativamente modestos (quando a gente compara com a realidade tropical que melhor conhecemos). Apesar de notadamente chover mais entre junho e agosto, repare que chove nos outros meses também. Não temos aí uma localidade cujo clima é determinado pelo padrão de chuvas, mas sim pela incrível amplitude térmica anual.

Eu acredito que a informação obtida no climograma a respeito de temperatura é a que mais nos ajuda a responder essa questão. A resposta é a alternativa e, a cidade de Moscou, que é bastante fria no inverno e amena no verão.

Finalizando

No próximo domingo, dia 12, teremos a segunda prova do ENEM. Nela, teremos Matemática e as chamadas Ciências da Natureza. Portanto, é bem possível que a Meteorologia re-apareça. Desejo sucesso a todos que farão prova do ENEM no dia 12.

 

Bibliografia

[1] Samantha N. S. Martins. Mestrado em Meteorologia (Conceito CAPES 7) .
Universidade de São Paulo, USP, Brasil.
Título: Avaliação da sensibilidade do ciclo diurno à física de interação superfície-atmosfera sobre a Região Metropolitana de São Paulo, Ano de Obtenção: 2008. Download aqui.