Vale a pena fazer curso técnico?



Cortesia de Pixabay

Hoje vamos falar sobre cursos técnicos e eu vou principalmente falar de minha experiência pessoal com o assunto, pois eu fiz curso técnico em Eletrotécnica na antiga CEFET-SP (que hoje é o Instituto Federal de São Paulo). O curso me capacitou para fazer instalações elétricas residenciais e prediais, sob a supervisão de um Engenheiro na maioria dos casos (instalações bem pequenas eu posso fazer sozinha).

Quando concluí o curso, eu trabalhei com projetos por algum tempo, onde eu fazia listas de materiais e projetos das instalações elétricas para centrais telefônicas (na época, usávamos o AutoCad e documentávamos tudo). Como eu sempre tive um interesse grande por Física e Ciências da Terra em geral, acabei deixando a área (não quis fazer Engenharia Elétrica, por exemplo) e fui prestar vestibular para realizar meus sonhos.

Só que ter feito curso técnico me ajudou de muitas maneiras. Eu elaborei uma listinha, falando dos pontos positivos do curso técnico sob meu ponto de vista:

– Aprendi a estudar: o curso técnico é mais puxado do que as matérias do ensino médio, então a gente é “tratado como adulto”, digamos assim. Aprendi a estudar por conta própria, ler a bibliografia adicional e não depender apenas do conteúdo apresentado pelo professor. E esse aprendizado me ajudou muito durante a faculdade.

– Aprendi a ter responsabilidade (o que tem total relação com o item anterior): os professores do curso técnico falam bastante sobre como se portar profissionalmente e nos dão mais autonomia do que os professores das matérias do ensino médio.

– Conheci colegas mais velhos: como eu fazia o curso técnico depois das aulas normais do ensino médio (era um curso separado), acabei conhecendo pessoas com histórias de vida bem diferentes da minha. Gente que já tinha perto de 30 anos e estava fazendo curso técnico para ter melhores salários e melhores oportunidades. Tive por exemplo colegas mais velhos que já eram casados e me ensinaram que a gente pode sempre aprender, independentemente da idade.

– Obtive uma profissão: com apenas 17 anos, eu já tinha uma profissão, uma maneira de obter o meu sustento. Eu poderia procurar um trabalho naquela área e isso ajuda muito na nossa autoestima. Ajuda inclusive a ter um objetivo profissional, já que você vai procurar emprego sabendo exatamente o que procurar. Inclusive a escola que estudei contava com um painel de vagas de estágio, isso ajudou muita gente da minha turma a ter o seu primeiro estágio (que em vários casos, tornou-se o primeiro emprego).

– Eu tinha um bom salário: eu tinha um salário maior do que o de amigos e familiares meus que tinham a mesma idade mas não tinham feito curso técnico. É um diferencial inegável.

– O curso técnico pode te ajudar a escolher um curso superior no futuro: se você gostar bastante da área de seu curso técnico, poderá saber o que pretende cursar na Universidade. E se você odiar seu curso técnico, também saberá o que não prestar no vestibular, hahaha. De alguma maneira, vai ajudar.

– O curso técnico te permite adiar os planos de cursar a Universidade e até questionar a necessidade de ter um diploma de curso superior: se você já tem uma profissão, fica mais livre para se aperfeiçoar dentro dela. Pode trabalhar por alguns anos tranquilamente, até saber se vai fazer um curso superior e ter uma melhor ideia de qual área cursar, se for o caso.

Agora vamos aos pontos negativos de se fazer um curso técnico:

– Você fica cansado, sem tempo para nada: eu estudava em período integral, não tinha tempo para uma prática esportiva ou um hobby. Eu chegava em casa cansada e as vezes ainda tinha que estudar. Para piorar, eu morava muito longe das escolas em que eu estudava. Posso dizer que esse esforço todo valeu a pena, no entanto.

– A Universidade vai ter que esperar: se fizer um curso técnico, você certamente não terá tempo para fazer um cursinho ou para estudar com o foco no vestibular. Sendo assim, é possível que tenha que esperar ao menos um ano para se preparar para o vestibular. Eu não vejo nisso algo exatamente ruim,  já que você não é obrigado a sair correndo do ensino médio e entrar na Universidade no ano seguinte. Pode inclusive pensar melhor sobre a carreira que pretende seguir, caso realmente vá fazer um curso superior.

O que é um curso técnico?

É um curso de nível médio que tem o objetivo de capacitar o aluno com conhecimentos teóricos e práticos em diversas atividades do setor produtivo, de acordo com as informações fornecidas por esse texto do UOL Educação, que resume muito bem o que é um curso técnico.

O curso técnico pode ser feito durante o Ensino Médio (depois das aulas regulares, por exemplo) ou até mesmo após a conclusão do Ensino Médio, como foi o caso dos colegas mais velhos que eu conheci e contei para vocês nos parágrafos anteriores.

Há mais de 180 possibilidades de cursos técnicos, dentro de 12 eixos tecnológicos: Ambiente, Saúde e Segurança, Apoio Educacional, Controle e Processos Industriais, Gestão e Negócios, Hospitalidade e Lazer,  Informação e Comunicação,  Infraestrutura, Militar,  Produção Alimentícia,  Produção Cultural e Design,  Produção Industrial e Recursos Naturais.

Para mais informações sobre cursos técnicos, consulte o catálogo do MEC. Há cursos técnicos gratuitos e pagos (em instituições particulares de ensino). Para saber se o curso técnico que você tem interesse é valido e tem registro no MEC, veja aqui.  Leia bastante e pesquise bem antes de escolher seu curso técnico. Como há várias opções, informe-se direitinho para fazer uma boa escolha.

O curso técnico em Meteorologia

Bom, é claro que eu tinha que falar sobre o curso técnico em Meteorologia. Para saber onde um curso técnico em Meteorologia é oferecido, consulte esse post. Porém eu quis trazer para vocês um pouco da experiência de quem cursou o técnico em Meteorologia.

Eu entrevistei duas colegas muito queridas que fizeram o curso técnico em Meteorologia. As experiências delas podem  ajudar quem chegou até aqui buscando mais informações sobre esse curso técnico em específico.

Eu falei com a Marília Gregório, que fez curso técnico em Meteorologia no Colégio Técnico Antonio Teixeira Fernandes – UNIVAP. Infelizmente não existe mais curso técnico em Meteorologia nesse colégio, mas temos a querida Marília para falar da experiência de ter estudado lá. Depois do curso técnico, ela fez graduação em Física na Universidade de Taubaté. Em seguida, fez  Mestrado em Meteorologia (“Monitoramento da Oscilação Madden Julian utilizando o método RMM”) no CPTEC/INPE e atualmente cursa Doutorado em Geofísica (Aspectos Dinâmicos Lineares e Não Lineares da Ocorrência de Geadas Generalizadas na Pampa Humeda) na Facultad de Ciencias Astronómicas y Geofísicas – Universidad Nacional de La Plata – Argentina.

Eu trabalhei com a Marília no INPE e temos muitas histórias para contar, hahahaha. Muita ciência e muita amizade. A seguir, o depoimento dela:

Quando criança, assistia ao filme “Twister” e achava incrivel aqueles tornados, aquelas nuvens, todas as coisas que se passavam no “céu” e, por isso escolhi o Curso Técnico em Meteorologia, para que eu pudesse aprender e entender o que acontecia. Foi então que eu descobri que a meteorologia vai muito além dos tornados, dos furacões e da previsão do tempo que vemos todos os dias pela televisão ou pelo aplicativo do celular e a cada dia eu ia me apaixonando mais. Durante o Curso tive matérias que ensinavam desde a Meteorologia Básica até a Meteorologia Dinâmica e Física. Além disso, aprendi sobre os instrumentos meteorológicos em Meteorologia Instrumental, aprendi sobre Agrometeorologia, Meteorologia Sinótica, Meteorologia Aeronáutica, Previsão Numérica de Tempo e também programação.  Terminar o curso com tantos conhecimentos novos me fez ter a certeza do que eu queria pra minha vida, que era seguir na área da Meteorologia.

Esqueci de falar que eu tive climatologia e que foi essencial pra aprender a diferença entre o tempo e o clima!

Achei o depoimento da Marília muito legal, porque mesmo depois de tanto tempo, ela lembrou vividamente das experiências durante o curso técnico em Meteorologia. Inclusive acrescentou a questão da diferença entre tempo e clima, que é claro que hoje ela sabe muito bem, mas na época do curso técnico (ela era uma adolescente!) não sabia a respeito disso e aprender essas coisas foi algo que marcou em sua vida. Obrigada, Marília, foi muito bom citar você aqui!

Agora vamos ao depoimento de outra colega querida, a Olívia Nunes Pereira de Sousa Alão. A Olívia Nunes é conhecida de muita gente que acompanha a previsão do tempo pelo rádio, pois ela atende o Grupo Bandeirantes. Sua voz bonita e tranquila carrega importantes informações sobre a previsão do tempo já há alguns anos. Ela fez curso técnico em Meteorologia no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), fez graduação em Meteorologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e fez mestrado em Meteorologia (com ênfase na área de Micrometeorologia) no IAG-USP. A seguir, seu depoimento:

Primeiro preciso confessar que entrei na Meteorologia meio que sem querer. Eu estava no último ano da escola e tinha ido um professor do CEFET-RJ mostrar os cursos para nós. A ideia dele era incentivar os alunos de escolas públicas a participar do processo seletivo, que era muito competitivo e onde muitos alunos de escolas particulares acabavam levando vantagem. Dos cursos oferecidos, o que ele menos soube explicar era o de Meteorologia, e foi esse que quis fazer. Dentro de um curso técnico, é importante salientar que disciplinas do Ensino Médio são ensinadas de forma mais compacta, pois o foco do curso é a formação profissional. Então aulas de História, Geografia, Biologia e até mesmo Química, eram reduzidas a um currículo bem mais básico. Já Língua Portuguesa, Matemática e Física, tinham um destaque bem maior. A vantagem do curso técnico é que eu aprendi Cálculo I no último ano da escola, num período bem maior que o primeiro semestre da faculdade, e isso me deu uma vantagem muito grande quando estava na graduação. De um modo geral, algumas disciplinas vistas no curso técnico, como eram dadas durante um ano inteiro, foram muito melhor absorvidas durante a faculdade. A parte de Instrumentos, Computação, Meteorologia Aeronáutica e todos os códigos de mensagens, Climatologia, Sinótica e Dinâmica, eram ensinadas de uma maneira mais simples, até por conta da falta de conhecimento de todo o Cálculo e Física que elas precisam, mas foram fundamentais para o entendimento destas mesmas disciplinas na graduação. Eventualmente algum professor pedia ajuda dos alunos técnicos para explicar algum tema que um aluno que não veio da escola técnica estivesse tendo dificuldade de entender. Quanto ao mercado de trabalho, preciso lembrar que terminei ao curso há 20 anos e muita coisa mudou de lá pra cá, principalmente em termos de tecnologia. Mas um mercado que existia e ainda existe forte, é no monitoramento de eventos severos. Um técnico não tem o conhecimento matemático e físico para realizar uma previsão do tempo desde o início, desde a modelagem. Mas a prática do dia-a-dia auxilia bastante na detecção de sistemas e nas previsões tipo nowcasting, que são as necessárias em eventos severos. Outro campo bem estabelecido na área operacional é dentro da Marinha e na Aeronáutica (Infraero), com vagas obtidas através de concurso. Empresas que vendam instrumentos meteorológicos também são um nicho bem interessante, até porque como vemos essa parte bem detalhada no curso técnico, conseguimos fazer manutenção de equipamentos. O setor de energia também é um setor que cresceu muito e que consegue absorver o técnico em Meteorologia. O técnico também tem conhecimento em sensoreamento remoto, o que pode levar a uma outra série de oportunidades em empresas de Meio Ambiente ou o setor agrícola. Resumindo, o mercado é relativamente amplo, se formos considerar tudo o que a Meteorologia consegue atender. A dificuldade maior é que muita gente que faz o técnico, acaba usando como trampolim para entrar numa faculdade. Outro problema é que as pessoas terminam o técnico muito novas, com média de idade entre 17 a 19 anos e acabam tendo receio de explorar oportunidades longe de casa.

Eu adorei o relato da Olívia. Eu trabalhei com ela em uma empresa na área de previsão do tempo, foi um curto período, mas aprendi bastante e conheci pessoas muito competentes e profissionais. Também temos amigos e conhecidos em comum da Universidade, o que é bastante comum em nossa área (todo mundo se conhece!).

Ao falar dessa questão profissional das vagas de trabalho para os técnicos em Meteorologia (muitas oportunidades de trabalho são longe de casa), a Olívia fala de um dos grandes desafios desse curso técnico. É muito complicado para um jovem de 17-19 anos sair da casa dos pais. Além desse ponto crucial, a história dela é muito bacana e sincera. Lá na adolescência dela, tão novinha, ela não sabia muito sobre o curso. A Olívia tem mais ou menos a minha idade, na nossa época de adolescente a gente não tinha acesso a tanta informação tão rapidamente como os adolescentes de hoje tem. Não existia o Meteorópole (e tantos outros blogs e sites das instituições) para tirar dúvidas sobre Meteorologia e mercado profissional na área.

Outro ponto interessante no relato da Olívia é que ela fez o curso integrado. Na época em que ela cursou, o ensino médio era junto com o curso técnico, não eram cursos separados como o que eu fiz. E é por isso que ela fala que muitas matérias eram dadas de maneira mais simplificada para os cursos técnicos.

Obrigada por enriquecer esse post com seu relato, Olívia!

Finalizando

O objetivo aqui é falar das vantagens de fazer um curso técnico, pois é uma excelente porta de entrada para o mercado profissional. Muitos jovens concluem o ensino médio e já vão para o mercado profissional, porém sem nenhuma profissão e acabam tendo que aceitar vagas com baixa remuneração.

Um curso técnico pode ajudar o jovem a entrar para o mercado profissional em uma vaga mais valorizada e mais bem remunerada.

Em São Paulo-SP (que é onde moro), observo que há uma boa oferta de cursos técnicos gratuitos. Claro que poderiam existir mais vagas, mas o que quero dizer é que muitos jovens não vão atrás de prestar o vestibulinho, que é a prova para ingressar nesses cursos. É necessário estudar bastante, muitas vezes por conta própria para ser aprovado. Dedicação e foco nos estudos é algo que deveria começar desde cedo, no entanto observo vários jovens perdidos por aí. Por isso espero que meu post também sirva para orientar pais e professores, para que esses possam conversar com os jovens e então falar da importância dos cursos técnicos.

Em cidades menores, já não há tantas ofertas de vagas de cursos técnicos. Porém instituições como o SENAI realizam cursos profissionalizantes (que não são cursos técnicos, pois tem duração menor e abordam menos tópicos) que já também podem ajudar o jovem a entrar no mercado de trabalho mais bem preparado.

Eu entendo que há cidades brasileiras muito pequenas e afastadas, onde não há esse tipo de oferta de cursos. Esse é mais um problema crônico do país, em que jovens de localidades muito pequenas se sentem obrigados a saírem de suas cidades para obterem melhores ofertas educacionais e de trabalho.