A ficção pode me ajudar a escolher uma profissão?



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Acredito que a escolha profissional de uma pessoa é resultado de uma miríade de influências. Cada uma dessas influências vai pesar de maneira diferente na decisão do indivíduo. Há quem escolha ser médico ou advogado porque já tem médicos na família e acredita que o nome dos pais ou parentes pode abrir portas para o início da vida profissional. Por outro lado, outras pessoas se espelham em familiares ou amigos porque veem neles exemplos a serem seguidos a ponto de escolher a mesma carreira profissional para si. E claro, também há quem se interesse por uma carreira ou área do conhecimento porque viu o assunto sendo tratado em um livro, filme ou qualquer outro trabalho de ficção.

As influências na escolha profissional podem surgir de qualquer lugar! Via Chongas

Há algum problema em ser influenciado pela ficção? Ao meu ver, não, desde que a pessoa tenha cautela e consiga guardar as devidas proporções e compreender que a vida real é normalmente bem menos glamourosa que a ficção. Sendo assim, eu acredito que a ficção pode ser um ponto de partida ou até mesmo apresentar um exemplo de representatividade.

No post sobre curso técnico, apresentei o depoimento de uma amiga que ficou encantada pelo filme Twister no início da adolescência e isso a incentivou a fazer o curso técnico em Meteorologia. Ou seja, a ficção foi um ponto de partida para ela. O cuidado que se deve ter é compreender que na ficção as tintas são mais fortes, ou seja, as situações apresentadas são exageradas. Cientistas não decidem, do nada, sair por aí caçando tornados. Em qualquer atividade de campo, é necessário muito planejamento, equipamentos e instrumentos corretos e muitos cuidados com a segurança.

Vou inclusive dar um exemplo pessoal. Quando eu era criança, eu gostava muito de insetos e de plantas. Eu ficava horas brincando no quintal, mexendo nas formiguinhas e nas flores. Eu ficava super feliz quando encontrava um tatuzinho ou uma joaninha. Na minha adolescência, passei a me interessar por Astronomia e História da Antiguidade também. E sabem qual foi o estopim disso? O filme Stargate (1994), minha gente. Sim, um filme de ficção científica que mistura Astronomia e Egito Antigo me deixou fascinada por esses temas. Não virei astrônoma, mas a influência ficou e gosto dessa área até hoje. Acabei me interessando por Física e Meteorologia anos depois, principalmente devido a influência de professores e leituras de livros de divulgação científica.

Muitas pessoas da minha idade certamente se lembram da “febre dos dinossauros”, que acho que é uma febre que nunca passou na verdade. Eu diria que tudo começou com Em busca do vale encantado,  passando por Família Dinossauros e claro, a franquia Jurassic Park. Depois disso tiveram tantas outras produções sobre esse tema:  outros filmes, séries, livros, revistas, livros de colorir, etc.  Bom, eu sou mãe de uma criança que é apaixonada por dinossauros, ele sabe o nome de vários. Ele é muito novinho e talvez essa fase dos dinossauros não tenha nenhum impacto na vida profissional dele, mas é só para mostrar para vocês que o assunto ainda está em alta e certamente ainda influencia as crianças.

Um ponto importante que é preciso ressaltar é que muitas vezes na ficção o cientista é tido como alguém excêntrico e completamente “isolado em seu mundinho”. E a ciência não se constrói dessa maneira, já que é necessário ter uma rede de cientistas envolvidos em um projeto de pesquisa, sempre discutindo a metodologia e os resultados. A ciência não se faz “sozinha em um porão” e eu até falei sobre isso nesse post da série sobre os clichês da ficção científica.

Em outras situações, as funções dos equipamentos ou instrumentos científicos apresentados nos filmes e séries são bastante exageradas, com resultados automáticos e absurdamente precisos. Como exemplo disso, em ao menos um episódio da série CSI é apresentado o Ground Penetration Radar (GPR), instrumento bastante utilizado pelos geofísicos e que permite detectar variações nas características eletromagnéticas do solo.

O GPR é um instrumento que de fato existe e é amplamente utilizados em diversas aplicações, desde estudos de raízes das plantas, passando por aplicações forenses (encontrar corpos enterrados, por exemplo), arqueologia, estudos de contaminação do solo, etc. Só que na série CSI, ele é apresentado como um instrumento com resultados instantâneos (ali no monitor do equipamento, na mesma hora em que o instrumento está sendo aplicado na área de interesse, dá pra ver até a cor do esmalte da unha do defunto). Claro que na vida real não é assim, o dado precisa ser processado e analisado e não, não dá para ver detalhes tão específicos do cadáver antes de desenterrá-lo.

Em outras palavras, a ficção dá uma boa exagerada nas possibilidades e nas situações, é a tal licença poética. Claro, é para garantir que a trama se desenrole melhor. Imagine se o personagem tivesse que esperar até o resultado sair, vários dias, erros na coleta de dados, etc. A trama ficaria enroscada, não daria muito certo.

No entanto, discordo de quando apresentam o cientista como alguém excêntrico ou isolado. As pessoas querem ser queridas e populares (dentro de um limite, pelo menos) e admiram pessoas com essas características. Eu tenho observado que essa ideia do “cientista esquisitão isolado com poucas habilidades sociais” tem sido abandonada pela ficção e a gente tem visto mais exemplos de trabalho em grupo sendo retratados pela ficção (o próprio CSI é um exemplo, embora haja ali um personagem que faz as vezes do cientista maluco).

Agora eu preciso tocar no ponto da representatividade. Quando uma garotinha vê uma cientista em um desenho, ela se sente representada. E isso pode ajudar a despertar um interesse por aquela área. O mesmo podemos assumir quando o protagonista é negro. Ainda vivemos em um mundo com muitas desigualdades e muitos preconceitos, quando as pessoas se sentem representadas por um personagem, acredito que estaremos então caminhando mais rapidamente em direção a igualdade porque isso abre portas e possibilidades.

Sendo assim, a ficção pode muito bem ser um ótimo ponto de partida para a escolha profissional. Pode não ser o tiro certo e determinante, mas pode ao menos direcionar. Pode ajudar a escolher entre exatas, humanas e biológicas, pelo menos. Claro que outros fatores devem ajudar nessa escolha, tais como a leitura de material de orientação profissional de qualidade e conversa com pais e professores sobre a escolha profissional.

Além disso, é necessário ter uma visão bastante realista e compreender que há um natural exagero nas obras de ficção. Sendo assim, não dá para se espelhar totalmente no cientista da ficção, mas ele pode ser um ponto de partida.

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