Como eu vim parar na meteorologia?



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Eu escolhi o título dessa postagem bastante propositalmente, pois essa pergunta já me foi feita várias vezes e em muitas ocasiões, usando exatamente essas palavras. E eu acho bastante curioso, pois é como se eu tivesse distraída ou fora de mim e eu então preenchesse a opção Meteorologia na inscrição do vestibular da FUVEST (eu estudei no IAG-USP e o ingresso é pela FUVEST).

Samantha, como você foi parar na Meteorologia?

Acredito que a pergunta é feita exatamente dessa maneira porque a maioria das pessoas acha essa carreira bastante curiosa ou diferente, que é outra palavra que costumo ouvir bastante. Ao longo do texto vou resumir rapidamente minha história. Eu já falei isso em outras ocasiões aqui no blog, de maneira mais descentralizada, mas decidi contar tudo em um único texto.

Meu interesse por ciências naturais teve início na infância. Eu gostava muito de insetos, gostava de observar nuvens e de passar um tempo nos vários terrenos baldios que existiam na minha vizinhança. Eu gostava de pegar flores e soprar dentes-de-leão. Eu sempre digo que se você quer que seus filhos se interessem pela natureza, permita que eles tenham contato com a natureza desde pequenos. Meus pais gostavam de viajar para a praia, pescar em represas, etc. Quando penso nos passeios que eu fazia na infância, percebo que a maioria deles tinha o elemento natureza, direta ou indiretamente. Além disso, vivi minha infância em uma casa com quintal e meus avós e tios também moravam em casas com quintais. Nossas brincadeiras quase sempre envolviam estar ao ar livre.

No início da minha adolescência, me interessei por Astronomia. Eu disse nesse post que eu acredito que o filme Stargate foi um importante responsável por isso. Comecei a ler bastante sobre o assunto após ver o filme, como um hobby. Fui fazer curso técnico, que é algo que recomendo para todos os adolescentes . Ah sim, recomendo cursos técnicos para adultos também, se você está a bastante tempo sem estudar e gostaria de ter uma nova profissão, considere ingressar em um curso técnico. Tem uma pessoa de minha família (tem por volta de 45-50 anos) que recentemente concluiu curso técnico em estética, depois de ter ficado anos sem estudar. No caso dela, ela já trabalhava com beleza e bem-estar e decidiu fazer o curso técnico para aprimorar seu trabalho. Eu admiro muito histórias assim!

Bom, voltando a minha história. Eu fiz curso técnico em Eletrotécnica porque na verdade eu não sabia muito bem o que eu queria. Meu pai já trabalhava no setor elétrico, já havia feito cursos na mesma área e achei que isso poderia me ajudar a ir bem nos estudos, já que ele poderia me ajudar, o que de fato aconteceu. Eu gostei do curso, aprendi muito sobre responsabilidade, sobre aulas práticas de laboratório (que me ajudaram nas disciplinas da Universidade depois) e aprendi muito sobre o mercado de trabalho.

Só que se fosse hoje, eu teria me informado mais e talvez teria feito um curso técnico em outra área. Porém eu não posso ser injusta comigo mesma e é necessário parar com essas ideias de “e se fosse hoje?”. Isso não faz sentido, não dá para voltar no tempo e eu tenho certeza que fiz o melhor que pude na ocasião.

Por ter cursado curso técnico em Eletrotécnica, eu pensei naquela época que o caminho natural seria cursar Engenharia Elétrica. Quando fui fazer o estágio obrigatório, vários colegas já estavam fazendo engenharia a noite e outros estavam fazendo cursinho para prestar Engenharia na Poli-USP ou outras Universidades públicas.

No entanto, já fazia quase 1 ano que eu estava pensando seriamente em prestar Física ou Geologia. De fato prestei Geologia logo que saí do Ensino Médio, fui para a segunda fase da USP (não passei) e para eu fui aprovada em uma lista de espera da UNESP. Eu era muito nova e meus pais também não tinham dinheiro para que eu pudesse estudar no interior. E tem aquele aspecto de que na minha família, nunca ninguém havia estudado fora de sua cidade de origem. Na verdade, por muitos anos a única pessoa com curso superior na minha família próxima era meu pai, que com muito esforço estudou a noite depois de adulto. Quero dizer, se já houvesse essa cultura universitária dentro de minha família, é possível que tivessem me incentivado a estudar na UNESP (o curso era em Rio Claro, se não me engano).

Fiquei um ano pensando em prestar vestibular novamente e me matriculei no cursinho com o objetivo de prestar Física para me especializar em Astronomia. Quando estava preenchendo a ficha de inscrição, vi que Meteorologia estava na mesma carreira. Li a respeito do curso e gostei bastante. Li na enciclopédia (Microsoft Encarta, hahaha, quem tem mais ou menos a minha idade ou mais se lembra) a respeito de Meteorologia e também gostei muito. Tinha uma ou outra coisa na internet e li o que pude encontrar. Um professor do cursinho já tinha me falado a respeito de Meteorologia e eu decidi colocar Física (Bacharelado Diurno) como primeira opção e Meteorologia como segunda opção.

Fui aprovada em Meteorologia e fui fazer a matrícula. Na Seção de Alunos me explicaram que eu poderia solicitar uma troca logo no começo, desde que sobrassem vagas em Física. Eu solicitei essa troca, meu nome inclusive saiu na lista, mas eu não a efetuei. Permaneci na Meteorologia, até porque ao menos naquela época os cursos de Bacharelado em Física e Bacharelado em Meteorologia tinham praticamente as mesmas disciplinas no primeiro ano. Pensei que eu pudesse pedir uma transferência depois e ao longo daquele primeiro ano eu poderia conhecer melhor o curso de Meteorologia. Bom, devorei todo o livro Meteorology Today ao longo daquele ano e eu tive certeza que eu gostava muito de Meteorologia. Decidi ficar no curso e gostei bastante, já disse em várias ocasiões que ser Meteorologista abriu portas para mim que seriam inimagináveis para uma moça da periferia de São Paulo. O que eu posso dizer, meus queridos leitores, é que estudar abre muitas portas, seja qual for a área escolhida. Vale a pena todo o esforço e inclusive vale a pena deixar de lado um pouco da vida social em nome de um conforto futuro. Para mim foi um preço que paguei e que foi recompensador.

Hoje sei que o estudo não foi importante apenas levando em conta o lado profissional. Eu aprendi a buscar informação e a agir com ceticismo diante das situações e informações que me são apresentadas. E essa é uma enorme vantagem em fazer um curso (seja qual for a área) em uma Universidade pública. Você aprende esses atributos que infelizmente não aprende em uma Universidade particular (na maioria dos casos), onde o conteúdo muitas vezes já vem apostilado.

E foi assim que eu fui parar na Meteorologia e que toda minha história profissional começou. Fiz Mestrado, fui trabalhar com previsão do tempo e modelagem (programação). Depois fui trabalhar com instrumentos meteorológicos e difusão do conhecimento. Ao longo dos anos, fui sentindo uma enorme vontade de escrever um blog em que eu pudesse falar de meu trabalho e de minha área favorita, onde eu pudesse compartilhar um pouco de minhas experiências. O Meteorópole então nasceu e assim posso dividir com vocês um pouco de minha história profissional, um pouco de Meteorologia (e outras áreas do conhecimento) e um pouco de meus hobbies e estilo de vida também.

Claro que foram vários os desafios ao longo de minha história, pois a vida é assim. Não quero fazer meus leitores pensarem que tudo correu suave e tranquilo, claro que há obstáculos. Todo tipo de dúvida passa pela cabeça e sempre há aquela sensação de incerteza. Mas o objetivo aqui acho que foi alcançado, que foi falar como me tornei meteorologista.

Se você também é Meteorologista (ou atua como pesquisador nessa área) e quiser nos contar como você “veio parar na área”, a caixa de comentários do post está a disposição. Conte pra gente como você decidiu estudar Meteorologia e eu tenho certeza que esses relatos inspiram e ajudam estudantes que estão pensando em seguir essa carreira.