O Natal e o Solstício de Inverno (Hemisfério Norte)



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Não pretendo aqui criar nenhuma polêmica religiosa, mas precisamos admitir que ao adotar o Cristianismo como religião oficial, o Império Romano teve uma excelente ideia. O Império Romano aproveitou que os seguidores de Jesus Cristo estavam aumentando em quantidade, não importasse toda a perseguição imposta a eles. O Império percebeu também que eles estavam ganhando poder local e até juntando alguns recursos, por isso o Império Romano decidiu”padronizar” essa nova religião como uma maneira de controlar as pessoas.

Vejam, não pretendi fazer uma revisão histórica acurada no parágrafo acima e nem ao longo do texto, que evidentemente é apenas uma versão bastante resumida dos fatos. Mas essa introdução precisou ser feita para pensarmos no calendário pagão e suas ligações com os feriados ou comemorações cristãs atuais.

Figura 1: nosso calendário é pagão!

A imagem acima circula em vários blogs e redes sociais há bastante tempo. Não sei quem a criou, mas as observações feitas não são novidades. As festividades cristãs tem uma origem pagã, com toda certeza. Assim como os nomes dos dias da semana em vários idiomas. A imagem mostra os exemplos no idioma inglês, mas em espanhol, francês e italiano (idiomas que eu conheço um pouco), os nomes dos dias da semana também tem origem pagã.

A língua galego-portuguesa é a única língua românica em que a nomenclatura dos nomes da semana não segue as origens pagãs. Em 563 d.C, São Martinho de Dume, bispo católico romano de Braga, entendeu que na Semana Santa, a época do ano mais sagrada para os católicos, devido a Paixão de Cristo, seria uma blasfêmia chamar os dias pelos seus nomes pagãos. Ele escreveu:

Pois os infiéis irritaram Deus e não acreditam de todo o coração na fé de Cristo, mas são incrédulos que colocam os próprios nomes dos demônios em cada dia da semana e assim eles falam do dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vênus e de Saturno, [demônios] que nunca criaram um dia sequer, mas como eram homens malvados e perversos entre a raça dos gregos [nominaram os dias assim].{x}

Depois de São Martinho de Dume, os nomes dos dias da semana passaram a ser conhecidos da maneira que os chamamos hoje.

Mas voltando a questão dos feriados, observe que na Figura 1 são mencionados feriados ligados à Wicca, que podem ser facilmente observados na Roda do Ano (Figura 2).

Figura 2: Roda do Ano

A Wicca é uma miscelânea de tradições pagãs antigas principalmente relacionadas à cultura celta, mas quando a gente usa o termo paganismo precisamos nos lembrar que estamos sendo bastante abrangentes. Os primeiros cristãos referiam-se aos não-cristãos (que eram a maioria, estamos falando dos primórdios do Cristianismo) como pagãos. Normalmente os pagãos eram politeístas e o tipo de crença e celebração dependia muito da região de onde eram esses pagãos, pois há a tradição celta, greco-romana, eslava, etc. Porém uma coisa que unia todos esses pagãos era o uso de marcos astronômicos para determinar suas celebrações e ritos o que é perfeitamente esperado e comum em vários povos desde a Antiguidade, já que observar os astros era a maneira de se determinar o calendário e isso implicava em determinar qual a melhor época para plantar, colher, caçar, etc.

Como o Império Romano estendia-se sobre quase toda a Europa, partes da Ásia e norte da África em seu apogeu, é bastante óbvio que houvesse uma enorme diversidade cultural. O Cristianismo nesse ponto foi estratégico: imagine unir todos em torno de um ícone, seguindo as mesmas regras? Seria uma excelente ferramenta de controle, o que de fato demonstrou-se um sucesso e até hoje é um sucesso. A religião tem um enorme uso político, uma eficaz ferramenta de controle das pessoas. Isso acontece em diversos países do mundo ainda hoje, incluindo o Brasil.

Vejam, aqui pulei toda aquela parte inicial em que os primeiros cristãos foram perseguidos e tudo o mais, que foi o período em que viveram os mártires, lembre-se que a tradição cristã conta que quase todos apóstolos (com exceção de São João) foram executados por seguirem a Cristo. Aqui já estou falando da parte em que o Império Romano viu no Cristianismo uma oportunidade: vamos padronizar essa nova religião para unir todos em nome de um mesmo propósito.

As pessoas já faziam seus ritos e celebrações pagãs com datas bem determinadas astronomicamente. Ou seja, já havia esse costume muito bem estabelecido. Sendo assim, aproveitaram-se desses costumes e modificaram os significados das datas. O Natal por exemplo está associado com duas datas pagãs muito importantes no centro do Império Romano. O dia 17 de dezembro era dedicado a Saturno, a Saturnalia e as festividades iam de 17 a 23 de dezembro. Era um dos festivais mais importantes do ano, pois o deus Saturno tinha uma relação com a abundância. Já no dia 25 de dezembro os antigos romanos comemoravam o Sol Invictus (Sol Invicto) e é bastante fácil entender o nome, pensando em Astronomia.

Entre os dias 21-23 de dezembro aproximadamente ocorre o Solstício de Inverno (Hemisfério Norte) ou Solstício de Verão (Hemisfério Sul). A ocorrência dos Solstícios e Equinócios tem relação com a inclinação do eixo terrestre. Não vou explicar isso nesse post, mas eu deixo aqui alguns links para textos que escrevi anteriormente e que explicam esses fenômenos astronômicos:

Em 2017, o Solstício de Verão (Hemisfério Sul) ou Solstício de Inverno (Hemisfério Norte) ocorreu ontem, dia 21/12/2017 às 14h28min. {x}

Aqui no Brasil (que tem a maior parte de seu território no Hemisfério Sul), quando pensamos no dia 21-23 de dezembro estamos falando do Solstício de Verão e dizemos que é o início do verão. Está super calor, as crianças estão em férias escolares e todos querem ir pra a praia. Porém para facilitar a compreensão do que estou abordando aqui, vamos nos imaginar como nossos amigos portugueses e pensar que estamos com frio no Hemisfério Norte.

No Solstício de Inverno, dizemos que temos o dia em que a duração do dia claro é a menor do ano. Muitos dizem que é “o dia mais curto do ano”, e quando dizem isso se referem ao período em que o Sol fica visível (também chamado de dia claro). Quanto mais próxima do pólo é a localidade, menor a duração do dia claro no Solstício de Inverno. Como aqui estamos falando de Hemisfério Norte, quanto mais próxima do Pólo Norte a localidade, menor a duração do dia claro no dia do Solstício de Inverno. No próprio Polo Norte (ou seja, 90° N) , o Solstício de Inverno é o dia em que fica totalmente escuro (o Sol nem aparece). E claro, as mudanças não são “automáticas”. Os dias vão ficando gradualmente mais curtos (melhor dizendo, a duração do dia claro vai ficando cada vez menor) até atingirem seu mínimo entre os dias 21-23 de dezembro (aproximadamente). Lembre-se, estamos falando de Hemisfério Norte porque estamos falando de Império Romano e primórdios do Cristianismo!

Após o Solstício de Inverno, os dias vão gradualmente voltando a ficar mais longos novamente. Por isso o nome Sol Invicto é muito certeiro, já que o Sol parecia estar desaparecendo (já que a duração do período em que ele aparece no céu foi ficando cada vez menor), até que ele atinge um mínimo e volta a ficar mais tempo no céu (a duração do dia claro vai ficando cada vez maior). É como se ele quase morresse, mas então lá por volta dos dias 21-23 de dezembro ele mostrasse que é de fato vitorioso! Ou seja, ele é invicto: quando você pensa que ele vai perder, ele retorna e volta a mostrar sua glória. É uma festividade bem relacionada com a esperança, que é exatamente um dos sentimentos tão ligados ao Natal.

Observem como é interessante essa sequência de festividades pagãs da tradição greco-romana: primeiro faz-se a Saturnalia, uma festa que exaltava a abundância (li que até os escravos ganhavam um banquete durante essa festa). Era uma festa muito popular e o Império Romano teria que se aproveitar dessa popularidade para “regulamentar” o Cristianismo, digamos assim. Por isso muitos historiadores acreditam que as comemorações da Saturnalia e do Sol Invicto podem ser a raiz da comemoração do Natal. O uso de luzes e árvores enfeitadas durante o Natal tem relação com tradições pagãs de outros povos europeus.

Muitos cristãos se dizem contrários ao Halloween pois dizem que este é uma festa pagã, mas nunca pararam para pensar que o Natal, a Páscoa e até as nossas Festas Juninas (que são uma tradição bem católica) certamente tem uma origem igualmente pagãs. Acredito que é normal que nós re-signifiquemos as festividades de acordo com as mudanças na sociedade. Hoje há muitos ateus e agnósticos ainda assim comemoram o Natal, não como uma comemoração pagã ou como o nascimento de Jesus Cristo, mas como uma oportunidade de estarem próximos de amigos e familiares. Muitos aproveitam o espírito da época para repensarem sobre suas atitudes e muitos aproveitam a época para serem solidários.

Eu sempre acho que esse espírito de amor e união típico dessa época deveria se estender por todo o ano, mas a gente não consegue. Acabamos brigando, problematizando coisas desnecessárias ou discutindo sobre política. E 2018 vai ser feito, como sempre tem sido os anos de eleições presidenciais aqui no Brasil. Por isso, aproveitem esse breve momento de afeto e harmonia familiar, pode ser que ano que vem você brigue com sua tia por causa de política.

Sendo assim, concluímos que o Natal tem uma enorme relação com as festividades pagãs da Antiguidade, que utilizavam as observações astronômicas para organizar seus calendários. As coisas são re-significadas com o passar dos anos e com as mudanças na sociedade e foi exatamente o que aconteceu no Natal.

Teremos um período de recesso aqui no Meteorópole entre 25 de dezembro e 01 de janeiro. Na primeira quinzena de janeiro os posts ficarão mais escassos porque eu vou tirar alguns dias de férias.

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Desejo a todos os meus leitores um excelente Natal, independentemente da maneira que você comemora ou pensa sobre a data. Que você e sua família tenham momentos genuínos de comunhão e alegria. Que Deus abençoe suas vidas.

Se você gosta de arte sacra, confira minha série de posts do Natal 2016 em que falei do Calendário do Advento. Clique aqui para ver todos os posts dessa série.

Ah sim, em minhas pesquisas para escrever esse texto encontrei esse blog apenas sobre paganismo greco-romano. Há dicas para festejar os feriados greco-romanos usando os recursos e costumes que temos hoje. Se você gosta desse assunto e segue algum tipo paganismo, fica a dica!