Resenha de Sorria, de Barbara Ehrenreich



 

Pensar positivamente é bom?
Cortesia de Pixabay

Recentemente li um ótimo livro, que questiona toda essa cultura do pensamento positivo no qual estamos imersos. Trata-se de Sorria – Como a promoção incansável do pensamento positivo enfraqueceu a América, de autoria de Barbara Ehrenreich. Embora a autora foque na cultura do pensamento positivo dentro dos Estados Unidos, não é impossível notar muitas similaridades com o cenário brasileiro, até porque os EUA não deixam de ser nossa metrópole cultural.

Capa da edição que li, da Editora Record.

A cultura do pensamento positivo é constante no nosso dia a dia. Observem como nos últimos anos floresceu o negócio de coaching. Pessoas tornam-se coaches, mesmo sem terem formação em psicologia e mesmo sem terem uma brilhante história profissional. Os discursos desses coaches sempre exaltam a positividade. Muitos inclusive dizem abertamente coisas como “livre-se de pessoas negativas”. Ao longo do livro, são mencionados casos de pessoas que perderam seus empregos por não irradiarem alegria e positividade. No entanto, será que as pessoas que apontam os pontos negativos de uma situação não tem o seu lugar?  Uma pessoa “negativa” pode na verdade estar apenas apontando um questionamento que não foi observado por outros, por exemplo, e isso pode ser muito bom. Essa e outras reflexões são propostas ao longo do livro.

Logo na introdução, a autora chama a atenção para a definição de esperança e para a diferença entre esperança e otimismo (veja a figura acima, no trecho em que destaquei durante minha leitura). A esperança é uma emoção e essa definição é tão simples e elegante, que eu simplesmente me encantei. Vamos cultivar a esperança em nossos corações.

O fato é que muitas vezes as circunstâncias nos obrigam a sermos radiantes e positivos. Existe inclusive uma espécie de treino e até de reforço para que pensemos assim, de acordo com a autora. Ela menciona o caso de empresas onde seminários e eventos com gurus do pensamento positivo são comuns. Esses eventos servem para motivar os funcionários, porém podem ter um lado bem perverso: podem servir para “formatar” a mente do empregado, principalmente aqueles que precisam bater metas. Caso esse empregado não supere as metas esperadas pela empresa, ele acaba se achando o único responsável pelo seu fracasso (não as circunstâncias, como condições ruins de trabalho ou problemas pessoais, por exemplo).

E por falar em circunstâncias, esse ponto é algo mencionado no livro em muitas ocasiões. Essa ideia de que o sucesso só depende do indivíduo e minimiza a importância das circunstâncias que o cercam é muito vendida por coaches ou por livros de auto-ajuda. Isso traz frustração, claro, já que as circunstâncias influenciam em muito na nossa felicidade. Vamos pensar como brasileiros: por mais que a gente estude, se esforce e consiga um bom emprego, ver a miséria e a corrupção ao nosso redor faz com que as coisas não atinjam sua plenitude.

Fazendo o rascunho para esse post na minha agenda (falei das minhas anotações nesse post).

Um ponto que a autora deixa claro logo no início é que ela não abomina totalmente o pensamento positivo. Pensar de maneira positiva, porém tendo um fico bastante claro e uma noção realista da vida pode ajudar as pessoas a atingirem seus objetivos. O que a autora critica muito é a ideia do “pensamento pode atrair”. Essa ideia da “lei da Atração”, fortemente propagandeada por sucessos como O Segredo é duramente criticada pela autora ao longo de diversos trechos do livro. O livro e filme O Segredo foram muito divulgados por celebridades em importantes programas da tv norte-americana.

Ehrenreich mostra como essa ideia fez as pessoas tornarem-se descuidadas com suas finanças, por exemplo. E até empresas adotaram isso, com executivos “agindo por instinto”. É como se a era dos administradores profissionais tivesse chegado ao fim, dando lugar a pessoas excêntricas que não querem notícias ruins (são totalmente blindadas para não receber notícias ruins) e não tem noção real das condições de trabalho das companhias que administram.

Ao longo dos capítulos, a autora aborda a ideia do pensamento positivo aplicada em diversas situações da cultura norte-americana. No primeiro capítulo ela fala da cultura do pensamento positivo aplicada em doentes de câncer, que são cobrados a apresentarem uma positividade diante da doença e de seu prognóstico. Ela apresenta pesquisas científicas (o livro é bem referenciado, todos os artigos citados são listados no final do livro) que indicam que não há aumento de longevidade em pacientes que participam de grupos de apoio. A autora critica a ‘pequena indústria’ do câncer de mama (ela se refere às camisetas, lingeries, lenços, maquiagem, etc), chamando de ‘cultura do laço cor-de-rosa’. A autora demostra que sentiu um certo deslocamento, quando ela própria esteve doente com câncer de mama e participou de alguns eventos e ações voltadas para quem também estava sofrendo essa doença. Ela questiona essa ideia de que o câncer é algo transformador e até certo ponto “uma transformação positiva” ou um “rito de passagem” na vida das pessoas que estão sofrendo dessa doença. Ela acredita que essa postura pode colocar sobre a pessoa doente uma espécie de peso e “obrigação de melhorar”, quando na verdade outros fatores vão determinar a possibilidade de cura (grau da doença e acesso a tratamentos eficazes, por exemplo). Nesse capítulo eu já gostei da Ehrenreich porque ela demonstra um grande ceticismo, criticando inclusive os tratamentos alternativos que muitas vezes estão associados com essa cultura da positividade. Porém eu acho que a autora apresentou um tom muito duro a respeito dos grupos de apoio, pois tem gente que precisa do suporte emocional e psicológico encontrado neles.

Uma das frases interessantes do livro: “simular felicidade é como se masturbar enquanto se sente que alma está prestes a morrer”.

Depois de falar com sua experiência com a cultura da positividade em torno dos pacientes de câncer, a autora expande um pouco mais as coisas e fala de como a cultura do pensamento positivo está arraigada no cotidiano dos americanos, seja no processo de emagrecimento e até em ações militares (como a invasão ao Iraque). Ela mostra exemplos que deixam claro como a cultura do pensamento positivo é disseminada, através de best sellers e programas de TV de grande audiência. A autora chega então no Capítulo 3 do livro, que eu faço questão de mencionar porque para mim a revisão histórica que a autora fez está excelente. Nessa revisão, ela traça as origens da cultura do pensamento positivo nos Estados Unidos. Fala da vida dura e cheia de incertezas e desafios que os puritanos que chegaram nos Estados Unidos enfrentaram: uma vida austera e muito difícil, com incertezas sobre a salvação (salvação no contexto cristão).

O Calvinismo tem como uma das características a ideia de que Deus já escolheu aqueles que serão salvos. Sendo assim, os puritanos viviam com a eterna dúvida que os consumia: será que somos salvos mesmo? Ainda hoje, há igrejas protestantes históricas que seguem essa ideia de predestinação e ela é tida como uma fonte de conflitos e ansiedade. Dentro desse contexto, surgiu um pensamento contrário ao Calvinismo que se chama Ciência Cristã e que foi até certo ponto inspirado pelo poeta Ralph Waldo Emerson, um dos expoentes da poesia norte-americana.

A Ciência Cristã em um primeiro momento era uma proposta de algo mais leve: você não precisa sofrer tanto e usar as mesmas roupa surradas. Com o passar do tempo a ideia foi evoluindo, chegando até meados do século XX quando o autor Norman Vincent Peale foi um dos primeiros a popularizar a expressão “pensamento positivo”. Esse capítulo em que a revisão histórica é feita é excelente, eu diria que é um dos pontos altos do livro, sem dúvidas. Embora o Brasil possua uma história de colonização bastante diferente dos EUA, é inegável a influência que esse país passou a exercer em nossa cultura principalmente nos últimos 50 anos. Dessa maneira, é interessante conhecer de onde veio o modelo importado de positividade que a nossa sociedade de certo modo adotou.

 

Fazendo o esboço para esse post. Nesse texto, contei para vocês como gosto de organizar minha vida e até o conteúdo aqui do blog em cadernos.

Ao longo do livro, eu acredito que Ehrenreich faz umas observações bastante polêmicas e até controversas. Ela sugere por exemplo que o 11 de setembro pode ter sido, em parte, facilitado devido a ideia do pensamento positivo arraigado amplamente na cultura, associado com a ideia de “ninguém terá a audácia de mexer com os Estados Unidos”. Ela dá outros exemplos recentes dos Estados Unidos, como a bolha imobiliária e o caso do banco de investimentos Lehman Brothers, que faliu em 2008 possivelmente por má adimistração e que foi o estopim da crise econômica.

No capítulo 4, a autora fala sobre a influência do pensamento positivo no mundo dos negócios. Como já mencionei anteriormente, ela critica o uso do “instinto” por parte dos CEO’s na tomada de decisões importantes das empresas. Esse instinto, claro, movido pela positividade. Se eu não me engano é nesse capítulo (e em um outro seguinte) que a autora fala do caso do Lehman Brothers que mencionei anteriormente. A autora menciona o quanto importantes executivos de diversas corporações são blindados de notícias ruins e muitas vezes eles são tidos mais como “gurus” do que como administradores. Inclusive ela faz um paralelo entre a administração de empresas no passado e hoje, sugerindo que antes os chefões das empresas eram pessoas com muita experiência, que começaram “de baixo”. Hoje, os líderes possuem um ar quase religioso e são quase que completamente alienados dos reais números da empresa e das condições dos trabalhadores.

No entanto, ela não fala apenas dos “peixes grandes” das empresas. Seminários, workshops e eventos pautados na cultura da positividade são ministrados para os funcionários. Se ele não conseguir atingir metas, a culpa é imediatamente atribuída ao profissional e não as condições de trabalho ou qualquer outra coisa que seja de direta responsabilidade da estrutura da empresa. Esses eventos muitas vezes possuem características muito similares aos cultos de igrejas evangélicas neopentecostais e é claro que a autora não deixou de falar desse fenômeno: há um capítulo em que ela fala apenas das megaigrejas e de sua teologia da prosperidade.

A autora fala das grandes igrejas evangélicas, que se parecem muito com grandes corporações pois possuem uma hierarquia bem definida, metas, muitos funcionários e muito dinheiro envolvido. Ela fala dos fenômenos dos tele-evangelistas, mencionando exemplos contemporâneos. Nessa hora, fica muito fácil fazer uma boa relação com o que temos no Brasil, com várias igrejas comprando horários na TV aberta e com seus líderes carismáticos e com alto poder de convencimento. Se você está indo bem financeiramente, é porque você tem fé. Portanto, nas igrejas adeptas dessa teologia, ir para o culto com um carro novo significa que você é um bom cristão. Claro, dar bons dízimos e ofertas espontâneas também mostram o seu comprometimento, sua fé e seu sucesso.

Esse pensamento coloca pouco ou nenhum peso nas circunstâncias e na história de vida de cada um. Para uma pessoa que cresceu em um lar pobre e completamente desfacelado, fica mais difícil obter uma boa formação e consequentemente, um bom emprego. Ou seja, é totalmente perverso, porque faz uma pessoa que já está em vulnerabilidade sentir-se ainda pior. Além de claro, distorcer totalmente as palavras de Cristo que em nenhum momento disse que seríamos ricos.

E por falar em peso maior na vontade própria, a autora questiona os psicólogos e outros estudiosos da saúde mental que se renderam ao que hoje é chamado “psicologia positiva” ou algo assim. Alguns psicólogos chegaram a falar de uma “fórmula do sucesso ou da felicidade” em que coisas totalmente distintas como vontade própria e circunstâncias da vida possuem o mesmo peso na obtenção do sucesso.

A autora faz duros questionamentos a metodologia científica das pesquisas dessa área da “ciência da felicidade”, uma vez que eles parecem partir das respostas para fazer então fazer as perguntas. Ela inclusive dá a entender (ao menos foi a minha interpretação) que muitos profissionais da área de Psicologia sentiram-se ameaçados pelos fenômenos dos coaches e decidiram entrar nessa área da positividade, porém muitos sem o devido cuidado com o método científico nas pesquisas. Há também controvérsias sobre os financiamentos de pesquisas nessa área, que vem inclusive de instituições que anteriormente eram ligadas ao Criacionismo.

Enfim, desculpem pela resenha enorme mas eu tenho muito a falar sobre esse livro. É mais um daqueles livros que nos dão um chacoalhão, para questionarmos a realidade e até nossos próprios maneirismos. Infelizmente eu tenho dois conhecidos muito queridos que estão com câncer e o capítulo sobre esse tema me fez pensar no que dizer e como dizer para motivar essas pessoas sem soar absurdo, “fora da casinha”, grosseiro ou antipático.

Ao final do livro, a autora sugere que podemos sim encontrar a felicidade sem precisar recorrer a obrigação de sempre pensar positivamente. Ela fala da importância da auto-análise, da observação e da busca por conhecimento para podermos então obter felicidade na medida que vamos tentando viver. A vida é isso: um processo de vários ciclos de tentativa e erro e podemos nos divertir enquanto acertamos e/ou erramos. Viver uma vida com os pés no chão, tentando viver dentro de nossas limitações e possibilidades me parece algo muito convidativo e saudável.

Recomendo bastante o livro!

Recadinho

Eu sei gente, nos últimos dias estamos meio escassos de textos sobre Meteorologia. Já tenho alguns engatilhados por aqui e logo eu os soltarei, assim que concluir algumas revisões. Ocorre que eu acho que já estou no ritmo de férias e claro, nas férias eu me desligo um pouco da Meteorologia. Sendo assim, vocês vão ver por aqui também esses posts variados, mas sobre assuntos que eu acredito que eu também posso contribuir.

E ainda sobre o livro que resenhei, eu acho que os Meteorologistas devem ler também. Na nossa profissão, muitas vezes acabamos sucumbindo ao “pensamento mágico”, uma vez que precisamos rapidamente apresentar resultados de análises de informações ligadas à previsão do tempo. A mensagem do livro é sem sombra de dúvidas um lembrete para que nossas cabeças saiam das nuvens altas e fiquem aqui mais próximas da camada limite planetária, sempre entendendo as limitações e as potencialidades da previsão do tempo.