Como é a grade curricular do curso de Meteorologia?



Cortesia de Pixabay

Um comentário do Jefferson Vilhena nesse post me inspirou a escrever um texto contando um pouco para os leitores sobre a grade curricular do curso de Meteorologia. Em outras palavras, esse post vai falar um pouco para vocês sobre as matérias (ou disciplinas) que temos no curso.

A maior parte das dúvidas sobre a profissão de Meteorologista eu respondi em vários posts que eu listei aqui. Além disso, vocês podem ler todos os textos em que a palavra profissão foi mencionada nessa lista.

Indiretamente, eu já falei em várias ocasiões sobre a grade curricular do curso. No entanto, ao longo de quase 7 anos de Meteorópole é natural que os temas se repitam e eu espero que com essa repetição eu reforce idéias e as esteja expondo de maneira mais clara, mais bem escrita.

O que vou estudar durante o Bacharelado em Meteorologia?

É necessário deixar claro que Meteorologia é uma área das Ciências Exatas. Para entendermos a atmosfera, é necessário estudar Física e Cálculo pois são equações matemáticas que descrevem os movimentos e as trocas de energia na atmosfera.

Se você ingressou no curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP, já deve ter percebido isso durante o vestibular. Na segunda fase da FUVEST, o candidato faz provas de Português, Física e Matemática.

Eu sei que isso tudo pode parecer óbvio, mas eu escrevo esse texto também pensando em quem nunca ouviu falar da profissão de Meteorologista. E também penso em professores que querem todos os detalhes para informar seus alunos.

Sendo assim, se você já tem afinidade com a área de exatas e está pensando em uma carreira para seguir, o Bacharelado em Meteorologia pode te interessar.

Além de Física e Cálculo, o aluno também cursará disciplinas na área de Programação e Química da Atmosfera, além de cursar também disciplinas bastante específicas da área: Radares Meteorológicos, Meteorologia por Satélite, Sinótica, etc.

Conforme discuti nesse post, a grade curricular dos cursos de Bacharelado em Meteorologia (ou Bacharelado em Ciências Atmosféricas) nas Universidades brasileiras é muito semelhante, já que forma o mesmo profissional. E vejam que usei a expressão muito semelhante pois é claro que os nomes das disciplinas podem mudar dependendo da organização de cada Universidade, porém o conteúdo visto ao longo do curso deve ser o mesmo ao final de 4 ou 5 anos.

Lembrando que o aluno pode demorar mais de 4-5 anos para se formar. Reprovações ocorrem. Além disso, muitas vezes você acaba tendo que cursar menos créditos do que gostaria em um determinado semestre, porque está trabalhando ou estagiando em um local distante da Universidade, por exemplo. Além dos motivos relacionados à vida pessoal: doenças, problemas familiares, etc.

Sendo assim, entenda que você não é uma ‘máquina de aprender’ e que imprevistos podem surgir durante a sua formação. Mas se você tem um sonho e um objetivo bem demarcados, vale a pena insistir.

O curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP

É claro que eu só tenho propriedade para falar da grade curricular do curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP, pois foi onde estudei. Eu recomendo vocês que antes mesmo de prestarem vestibular, independentemente da carreira que escolherem, pesquisem tudo sobre as Universidades em que vocês desejam se inscrever. Pesquisem sobre as cidades onde elas estão localizadas, alojamentos, infraestrutura em geral e também pesquisem a respeito da grade curricular do curso escolhido.

Aqui estamos falando de Bacharelado em Meteorologia (ou Bacharelado em Ciências Atmosféricas, algumas instituições tem nomes diferentes, mas trata-se do mesmo curso que concede a mesma formação profissional) e independentemente da Universidade onde você for prestar vestibular/ENEM para esse curso, a grade curricular será muito semelhante. O que mudará serão os nomes de algumas disciplinas, o oferecimento de disciplinas optativas, etc. Porém o básico da formação tem que ser o mesmo, até mesmo por exigência do sistema CONFEA-CREA, já que o diplomado terá uma profissão regulamentada por esse sistema.

Além disso, quando uma Universidade vai abrir um curso de Bacharelado em Meteorologia (ou Ciências Atmosféricas), é natural que uma comissão se reúna para tal e nessa comissão há pesquisadores formados por outras Universidades, que trarão toda sua bagagem e conhecimento para elaborar a nova grade curricular. O curso também precisa ser autorizado pelo MEC, então há uma padronização que faz com que todos os alunos de bacharelado em Meteorologia de diferentes Universidades do Brasil tenham formações muito semelhantes.

É preciso destacar que eu me formei em 2005, então algumas coisas mudaram ao longo dos anos. Disciplinas foram criadas, outras foram renomeadas e outras foram extintas. Além disso, há um conteúdo técnico que foi modificado. Por exemplo, eu lembro que as linguagens de programação que aprendi ao longo do meu curso eram C+, Fortran, Shell e os scripts de GrADs. Hoje percebo que os alunos aprendem muito Python, R, IDL, etc. Enfim, essas coisas mudam mesmo e se você aprende lógica, aprende a programar em praticamente qualquer linguagem. É questão de uso, de treino mesmo. É possível encontrar todo tipo de material sobre programação na Internet, incluindo cursos gratuitos.

Bom, para falar da grade curricular atual do curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP, estou me baseando em fontes oficiais, ou seja no Jupiterweb. O Sistema Jupiter Web é um conhecido de todo o aluno de graduação da USP. Através dele, são realizadas as matrículas nas disciplinas (as matrículas nas disciplinas devem ser feitas individualmente), as notas são lançadas, pendências são listadas, etc.

Atualmente, o curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP tem tempo de duração ideal de 10 semestres. O tempo de duração máxima é de 15 semestres e se você ficar no curso por mais tempo que isso poderá ser jubilado (convidado a se retirar). No entanto, claro que cada caso é avaliado separadamente no processo de jubilamento. Tem gente que fica doente, por exemplo. Se a aluna ficar grávida, me parece que também ganha um tempo adicional para concluir o curso. Ou seja, cada caso é um caso.

Veja que no link também há todo o regulamento do curso. Recomendo que todo aluno novo leia esse regulamento, para ter uma clara ideia dos seus direitos e deveres. Como estamos no final de Janeiro, sei que muitos calouros podem chegar até esse texto e espero que eu possa ajudar com essas dicas.

Observe as disciplinas  primeiro e o segundo semestre do curso (primeiro ano):

Primeiro Semestre:

Física I
Física Experimental I
Introdução às Ciências Atmosféricas
Cálculo Diferencial e Integral I
Vetores e Geometria

Segundo Semestre:

Física II
Física Experimental II
Instrumentos Meteorológicos e Métodos de Observação
Cálculo Diferencial e Integral II
Álgebra Linear I

Veja que no primeiro ano, as únicas disciplinas que os alunos terão realmente contato direto com a Meteorologia e com os professores do curso são Introdução às Ciências Atmosféricas e Instrumentos Meteorológicos e Métodos de Observação. Claro que palestras serão dadas no IAG-USP e eu recomendo muito que os alunos assistam essas palestras em que temas relacionados à Meteorologia serão discutidos. É possível que você entenda pouca coisa em muitas dessas palestras, porque elas abrangem um conteúdo que o aluno só vai ver a partir do terceiro ano. Só que eu acho interessante já começar a se familiarizar com a vida acadêmica.

Eu recomendo também que vocês conversem com os professores, com os veteranos, com os profissionais que já atuam na área, etc. Ao longo desse primeiro ano FALEM COM TODO MUNDO! Assim você tira suas dúvidas a respeito desse curso tão “diferente” e pode convencer sua família de que você está seguro com a sua escolha. Se não estiver seguro com a escolha, ainda é possível trocar de curso, através de transferências internas, externas ou até mesmo através de um novo vestibular. E o bacana é que se você for cursar um novo curso na área de exatas, é muito provável que você aproveite muitas das disciplinas já cursadas.

Agora vamos discutir as disciplinas do segundo ano do curso:

Terceiro Semestre:

Física III
Física Experimental III
Física Experimental II
Climatologia I
Introdução à Computação para Ciências Exatas e Tecnologia
Cálculo Diferencial e Integral III

Quarto Semestre:

Física IV
Física Experimental IV
Meteorologia Física I
Astronomia de Posição
Introdução às Equações Diferenciais Ordinárias e Aplicações
Cálculo Diferencial e Integral IV

O terceiro semestre é O SEMESTRE DO MAL (pelo menos para mim foi assim). No final tudo deu certo, mas foi muito puxado. Eu acabei puxando uma disciplina que se chamava Cálculo Numérico (e que hoje faz parte do sexto semestre, como vocês vão ver) e eu achei que fosse enlouquecer (eu me arrependi e só aprendi com o tempo que não devemos nos afobar). Além disso, eu tive problemas pessoais que enfrentei na época e foi bem difícil. Observe que no segundo ano também temos disciplinas específicas de Meteorologia (Climatologia I  e Meteorologia Física I ), porém elas ainda estão em menor quantidade de créditos quando comparadas às disciplinas de Cálculo e Física. Repare também que temos a primeira disciplina ligada à programação: Introdução à Computação para Ciências Exatas e Tecnologia. Essa disciplina precisa ser tratada com muito carinho, porque saber programação é essencial para o Meteorologista.

Agora o aluno já está mais “confiante” porque já sabe como funciona a Universidade. Muitos já se deram muito mal no primeiro ano, porque acabaram não sabendo conciliar a vida universitária de festas com a vida universitária de muito estudo e abdicação. Se você fez um ensino médio não muito bom, já deve ter notado isso no segundo ano, porque provavelmente não foi aprovado em disciplinas do primeiro ano (ou foi aprovado com muito esforço). Se você reprovou, mas gosta de Meteorologia, não desanime. Avalie as causas de sua reprovação e se elas não tiverem relação com descontentamento com o curso, tente com mais afinco.

Agora vamos discutir o terceiro ano do curso:

Quinto Semestre:

Meteorologia Física II
Astronomia de Posição
Introdução à Química Atmosférica
Meteorologia Sinótica I
Meteorologia Dinâmica I
Fundamentos de Oceanografia Fisica
Tópicos de Matemática Aplicada

Sexto Semestre:

Meteorologia Por Satélite
Agrometeorologia
Meteorologia Sinótica II
Meteorologia Dinâmica II
Cálculo Numérico com Aplicações em Física

Agora no terceiro ano as disciplinas são mais específicas. Ou seja, você vai ver meteorologia mesmo! Toda a bagagem de Cálculo e Física adquirida nos primeiros anos serão ferramentas para as matérias do terceiro ano. Agora já é possível procurar estágio na área (ao meu ver) porque você já está aprendendo de fato conteúdo técnico que é aplicado em meteorologia operacional. O difícil é conseguir conciliar o estágio com as disciplinas, portanto, avalie isso muito bem.

Agora vamos discutir o quarto ano do curso:

Sétimo Semestre:

Climatologia II
Meteorologia com Radar
Métodos Numéricos de Previsão de Tempo
Meteorologia Sinótica III
Meteorologia Dinâmica III

Oitavo Semestre:

Micrometeorologia
Hidrometeorologia
Meteorologia Tropical

No quarto ano do curso o aluno vê apenas disciplinas da área de Meteorologia. Quando eu me formei, em 2005, o curso era diferente. Eu percebi que muito conteúdo da Meteorologia foi “quebradas”, quero dizer, dividido em mais disciplinas. Achei essas modificações bem interessantes, pois permitiram que o conteúdo do curso pudesse ser tratado com mais tranquilidade, sem a necessidade de “correrias” ou simplificações.

Agora vamos falar do quinto ano do curso:

Nono Semestre:

Trabalho de Conclusão de Curso I
Estágio Curricular Obrigatório

Décimo Semestre:

Trabalho de Conclusão de Curso II

Em um primeiro momento você pode achar que o último ano do curso é mais tranquilo. Só que não é! A essa altura você já estará cansado e ansioso. O TCC (Trabalho de Conclusão do Curso) deixa qualquer um estressado e preocupado. No entanto, como são menos horas, muitos alunos já está fazendo estágio no último ano (que é obrigatório).

Observações:

  • Eu não me atentei aos códigos das disciplinas. Decorar os códigos das disciplinas é algo que acontece normalmente, vocês vão se pegar falando ACA115, por exemplo;
  • Aqui eu não dei detalhes sobre os conteúdos de cada disciplina. Para saber isso, clique aqui.
  • Eu só falei das DISCIPLINAS OBRIGATÓRIAS. No entanto, para se formar é também preciso fazer algumas disciplinas optativas listadas. Para mais detalhes, veja no link;
  • Observe que algumas disciplinas possuem pré-requisitos, ou seja, para cursar aquela disciplina você precisa já ter cursado uma ou outras disciplinas. Por isso, se um aluno reprova em Física I e Cálculo I no primeiro semestre, acaba “trancando” disciplinas do segundo e terceiro semestre, porque Cálculo I e Física I são pré-requisitos para várias disciplinas. Para ver esses detalhes, clique aqui.

Para finalizar

Aqui eu falei do curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP, pois foi onde me formei. Se você cursa ou vai cursar Bacharelado em Meteorologia (ou Ciências Atmosféricas) em outra Universidade, deixe aqui nos comentários informações a respeito do seu curso e das disciplinas que você cursa ou vai cursar.

Post scriptum 

Achei bastante pertinente editar esse texto inserindo o comentário do Vinícius, do Monolito Nimbus:

Ficou bem legal o post. Apresentando a grade de disciplinas dá pra ter uma boa ideia de como funciona a formação e o foco em exatas que ela tem. Tirando a grade em comum (Cálculo 1 até 4, Física 1 até 4, Vetores e Geometria, Álgebra Linear, Introdução à Computação e Cálculo Numérico), algumas disciplinas de Meteorologia eram optativas para o Bacharelado em Física: Introdução às Ciências Atmosféricas, Instrumentos, Meteo Física 1 e 2, Clima 1, Oceanografia e Dinâmica 1 (foram as que eu fiz). Lembro que fiz de optativa na Física também Mecânica dos Fluidos, e no caderninho ainda aparecia “obrigatória para o curso de Meteorologia”, sendo que não era mais faziam anos rsrs

Ah, ficou aparecendo “Introdução às Ciências Atmosféricas” duas vezes (no texto e na lista), mas acho que seria “Instrumentos Meteorológicos e Métodos de Observação”.

Copiei o comentário do Vinícius na íntegra porque muitas vezes os leitores não atentam aos comentários dos posts (sempre leiam os comentários, quase sempre eles têm informações adicionais). O Vinícius é Bacharel em Física pelo IFUSP, que nada mais é do que um importante vizinho do IAG-USP. Inclusive os alunos do Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP vão passar boa parte do seu tempo de aulas no IFUSP durante o primeiro e o segundo ano do curso.

A questão aqui é que o primeiro e o segundo ano do curso de Bacharelado em Meteorologia do IAG-USP são muito semelhantes aos dois primeiros anos do curso de Bacharelado em Física do IFUSP. Inclusive alunos do Bacharelado em Meteorologia cursam muitas matérias com colegas do Bacharelado em Física. Acho essa informação importante porque isso deixa bem claro que o curso de Bacharelado em Meteorologia é um curso de exatas e podemos dizer sem chances de cometer equívocos que a Meteorologia nada mais é do que a Física aplicada à atmosfera.

Ao longo do Bacharelado em Física, o Vinícius começou a se envolver com Meteorologia, cursando disciplinas optativas no IAG-USP (como ele narra no seu comentário). Após a conclusão do Bacharelado em Física, ele fez Mestrado em Meteorologia no IAG-USP. Acho bacana apresentar isso para mostrar um caminho profissional interessante na Academia. Digo na Academia porque para ser docente e pesquisador acadêmico na área de Meteorologia não é obrigatório cursar o Bacharelado em Meteorologia. É preciso no entanto fazer pós-graduação em Meteorologia (Mestrado e/ou Doutorado) e publicar os resultados das pesquisas em periódicos da área (publicar artigos científicos).

Lembrando que para exercer a profissão de Meteorologista é preciso ser Bacharel em Meteorologia. Se você é um leitor recorrente daqui do blog, desculpe pelas repetições! Eu ando falando bastante sobre exercício da profissão, pois sempre chegam leitores novos através das ferramentas de busca e eu quero deixar tudo bastante explicado e divulgado. Sobre essa questão do exercício da profissão de Meteorologista, veja o post mais recente sobre o tema.

Sobre o erro que o Vinícius menciona (obrigada!), eu já corrigi. As duas disciplinas mais relacionadas com Meteorologia (ministradas no IAG-USP) do primeiro ano do curso de Bacharelado em Meteorologia são e Introdução às Ciências Atmosféricas e Instrumentos Meteorológicos e Métodos de Observação.

E também gostaria de aproveitar esse P.S. para agradecer ao Jefferson Vilhena, porque foi através do comentário dele que tive a ideia de escrever esse texto. Obrigada!

Ah sim (meus textos são enormes, desculpe!) eu não quero ser acusada de bairrista pelos meus colegas profissionais e estudantes que cursaram ou cursam Bacharelado em Meteorologia (ou Bacharelado em Ciências Atmosféricas) em outras Universidades. Como tentei deixar claro logo no início, eu decidi falar do IAG-USP porque foi onde estudei. Para saber todas as Instituições onde se pode cursar Bacharelado em Meteorologia (ou Bacharelado em Ciências Atmosféricas), consulte esse link.