Pesquisador que utilizou o supercomputador Tupã em seu doutorado fala de sua experiência



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Mencionamos o supercomputador Tupã nesse post de novembro passado, em que discutimos a falta de investimento do Brasil na área de C&T, especificamente na aquisição de supercomputadores. Atualmente o Brasil não tem nenhum computador no ranking TOP500, o que é algo lamentável, considerando um país tão grande como o nosso e que infelizmente não vê a Meteorologia como setor estratégico. E isso sem mencionar outras áreas do conhecimento que também dependem de cálculos muito rápidos: pesquisas na área de energia nuclear, física quântica, pesquisas na área de exploração de petróleo, etc.

Entrevistei o Gláuber Camponogara, que é doutor e mestre em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em Meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele utilizou a máquina Tupã em seu doutorado e ele gentilmente me contou um pouco de sua experiência. Vou reproduzir abaixo as respostas que ele me deu e que vão complementar o post sobre a Tupã.

1. Qual a sua formação? (bacharelado, mestrado e doutorado)
Sou doutor e mestre em Meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em Meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria.
2. Como você usou a Tupã em seu doutorado? Dê uma breve explicação sobre os experimentos que você fez e o papel dessa máquina em seu trabalho.
Durante meu doutorado (2012 – 2017), utilizei o Tupã de forma frequente, uma vez que meu trabalho era focado em simulações numéricas da atmosfera realizadas com o modelo BRAMS (Brazilian development on Regional Atmospheric System). Portanto, este supercomputador teve um papel fundamental para a obtenção da minha titulação; eu chegava a utilizar até 900 cores para realizar os meus experimentos que levavam cerca de 5 horas para ficarem prontos. Esta tarefa seria impossível num computador convencional, pois demoraria semanas para terminar apenas uma simulação, já que normalmente estes computadores possuem apenas 8 cores. O objetivo das simulações realizadas no Tupã era entender qual o papel dos aerossóis, oriundos de queima de biomassa na Amazônia, nas chuvas sobre a Bacia do Prata.  Os resultados dos experimentos estão no link descrito no item 6 [nota da Samantha: veja a resposta da pergunta 6 para ver o link para os resultados das pesquisas do Gláuber].
3. Foi difícil aprender a operar um Supercomputador? Você teve que ir até Cachoeira Paulista ou fez tudo remotamente? Foi necessário ficar em alguma “fila” de espera para usar a máquina?
Sim, levou um certo tempo para adquirir familiaridade com a máquina, pois fui o primeiro do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) a utilizá-lo. A parte mais complicada foi a instalação do modelo meteorológico juntamente com todas as bibliotecas necessárias para o seu funcionamento. Felizmente, eu tive uma excelente assistência dos funcionários do CPTEC via e-mail e telefone, sem eles eu demoraria muito mais para ganhar familiaridade com a máquina.
Para poder utilizar o Tupã, eu tive apenas que fazer um cadastro; que demorou duas semanas para ser aprovado pelo INPE. O Tupã conta com um sistema de filas para executar os experimentos numéricos em função do grande número de pesquisadores que  precisam utilizar a máquina. Este sistema de filas funciona da seguinte forma: o usuário submete a simulação e ela entra numa fila de espera, onde assim que uma vaga é liberada a simulação inicia imediatamento; o tempo de espera na fila era variado, as vezes a simulação entrava em segundos, outras vezes demorava algumas horas; os melhores horários eram durante à noite entre segunda e sexta e no final de semana.
4. Em uma reportagem recente, foi dito que a Tupã está chegando ao seu end-of-life. Durante seu projeto, a máquina passou por algum tipo de manutenção que atrapalhou o andamento de seu trabalho?
Ao longo do meu projeto, o CPTEC enfrentou problemas financeiros acarretando no desligamento temporário da máquina durante parte da noite e madrugada para economizar energia.
Isto, infelizmente, acabou atrasando o meu doutoramento, pois o desligamento periódico da máquina durou cerca de 6 meses.
5. Uma máquina mais veloz ou mais ‘moderna’ poderia ter tornado seu trabalho melhor? Você acha que o Brasil deveria investir mais em supercomputadores?
Eu não diria que tornaria meu trabalho melhor, mas uma máquina mais veloz com certeza teria facilitado o meu trabalho.
Acredito que o Brasil deveria investir mais em supercomputadores, pois estas máquinas são fundamentais para que os cientistas consigam realizar simulações numéricas capazes de trazerem avanços científicos concretos.
6. Você já tem algum artigo publicado divulgando os resultados? (se tiver  puder colocar o link com o abstract ao menos, agradeço).
Em fevereiro deste ano submeti um artigo na Atmospheric Chemistry and Physics e após a etapa de revisões ele foi aceito para a publicação. Aliás, recebi esta notícia na semana passa. 🙂
Segue o link da versão do artigo que foi enviada para revisão: https://www.atmos-chem-phys-discuss.net/acp-2017-227/
A versão final do artigo será publicada em breve.
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Gláuber, parabéns pela notícia a respeito do aceite para a publicação de seu artigo!

Gostaria de agradecer ao Gláuber pela atenção e pelas ótimas respostas. Espero com isso esclarecer alguns pontos a respeito desse supercomputador e também inspirar pessoas que gostam da área.