A busca por ponderação



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Vez ou outra aparece alguém problematizando o uso da palavra histeria. Seu significado original, (do francês hystérie e este, do grego ὑστέρα, “útero”), está relacionado com uma condição feminina já que segundo Hipócrates, o fluxo irregular de sangue do útero para o cérebro causaria nas mulheres perturbações emocionais. {x}

Bom, o que causa nas mulheres perturbações emocionais são as condições precárias de nossa existência. Eu não levanto bandeira feminista aqui no blog, não porque eu não concorde com vários pontos do feminismo, mas sim porque a militância da internet me constrange bastante. Mas o que quero dizer com condições precárias de existência eu falo das consequências do machismo dentro da nossa sociedade. As coisas só começaram a ter melhora significativa para as mulheres a partir do século XX, para ser honesta. E olha, ainda tem muita coisa para melhorar e etc.  Só que não é esse o assunto do post.

No texto, eu quero me ater ao ‘novo’ significado da palavra histeria, que se refere ao “comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror pânico.”

 

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Veja, aqui não pretendo de maneira nenhuma fazer uma análise aprofundada. Não sou Psicóloga ou Socióloga. Falo apenas como a tia que colocou a cadeira de praia na calçada e está observando a rua enquanto toma uma cervejinha no verão. Então me acompanhe nessa cerveja.

Vocês certamente já repararam que qualquer coisa (qualquer coisa mesmo) vira motivo de UAU QUE FANTÁSTICO nas redes sociais? Às vezes eu tenho a impressão que esse sentimento é totalmente falso e exagerado, talvez próprios da linguagem da internet onde muitas vezes é difícil demonstrar surpresa ou espanto através do texto ou da imagem. Só que esse exagero se propaga de maneira incrível, de modo que outras pessoas são contaminadas.

O clássico A Roupa Nova do Rei, de Hans Christian Andersen, acho que vemos um pouco desse fenômeno. O rei, motivado pela vaidade, gasta muito dinheiro para adquirir uma suposta roupa nova. As pessoas, com medo de sofrerem represálias por parte do rei ou apenas para adulá-lo pensando em algo em troca, elogiam a tal “roupa”. Apenas uma criança inocente, despida de todo esse ‘jogo de cintura social’, tem coragem de dizer que o rei está na verdade nu. Eu consigo entrar dentro desse conto e imagino que a histeria coletiva foi tão grande que algumas pessoas de fato viram uma roupa no rei. Podiam dar detalhes sobre essa roupa. Consigo imaginar um crescendo de elogios acerca do corte da roupa, do tecido utilizado e dos brocados. No entanto, nada havia ali.

Um dia desses eu me deparei com algo muito curioso em uma rede social. Uma moça bonita, com uma boa quantidade de seguidores, mostrava toda empolgada um refogado de carne moída que fazia. As pessoas faziam comentários exagerados na postagem, que afirmavam o quanto ela era “diva” e o quanto a “dica era fantástica”. Não sei vocês, mas ali eu só via carne moída. Não estou desmerecendo ninguém. A moça era jovem e provavelmente era uma de suas primeiras aventuras na cozinha. No entanto, eu não vi nada de extraordinário ali. E esse exemplo da carne moída mostra o quanto estamos elevando a categoria de extraordinário coisas que na verdade são muito banais. As pessoas elogiavam para aparecer? Cada um queria exibir um elogio ou frase mais impactante? As pessoas buscavam a atenção dessa moça? Pode ser um pouco de cada uma dessas coisas.

Quando vejo blogueiras do universo materno dando dicas, elas estão apenas ali trocando informações. Quando eu era criança, essa troca de informações era feita na calçada, na pracinha, nos eventos familiares, na porta da escola, etc. A diferença é apenas o local: hoje a troca de informações é feita pela internet. Por isso não entendo quando elevam as pessoas a uma categoria intangível e quase divinal.

As coisas são as mesmas. Talvez a maneira de se fazer essas coisas tenha mudado um pouco, mas na essência, tudo é a mesma coisa. Fico pensando como eram as coisas há 30 anos atrás. Imagino minha mãe conversando com outra mãe, uma vizinha popular, por exemplo. E então a vizinha diria que vai fazer carne moída refogada, porque é mais rápido. Seria apenas mais um dos comentários do dia a dia, algo que minha mãe concordaria e a conversa seguiria. Imagina que nonsense seria se minha mãe chegasse para a vizinha e dissesse: NOSSA AMIGA VOCÊ LACROU COM ESSA CARNE MOÍDA.

Eu sei que os tempos mudam e que a linguagem muda. Mas eu acho esse exagero tão desnecessário e que na maioria das vezes soa super falso. As vezes quem exagera no elogio nem nunca viu o elogiado de perto, não convive com ele e não sabe nada além do que é exposto nas redes sociais. Como você pode enaltecer alguém tão exageradamente assim sem nunca nem ter convivido com essa pessoa? Isso não entra na minha cabeça.

Ok, muitos dirão que estou implicando com coisa pequena. Ou dirão que sou mais velha e por isso não entendo os jovens de hoje em dia. Talvez vocês tenham razão, mas meu objetivo não é implicar. Só estou demonstrando aqui meu espanto diante da histeria e do exagero e acredito eu que esses comportamentos podem alterar nossa percepção sobre o mundo. A gente passa a aplaudir de pé coisas banais e perde o parâmetro sobre o que de fato é extraordinário e belo.

Tentando ver um lado bom dessas coisas, penso que esse comportamento exagerado também nos ajuda a ver pequenas belezas que nos passam despercebidas no dia a dia. Sabe aquela foto do Instagram que é apenas uma flor ressecada dentro de um vidro de conservas vazio? Com a iluminação e com o filtro certo, a foto fica linda. E vamos falar a verdade, isso traz um pouco de magia para o nosso cotidiano.

Eu tenho a impressão que na internet tudo é muito intenso. Até o ódio aparece exagerado, muitas vezes motivado por coisas banais. O ódio nunca é bom, claro. Mas percebo que as pessoas odeiam o outro porque votou em um candidato diferente do seu ou porque o outro falou mal de seu livro favorito.

Deixando de lado esse eventual lado bom do exagero (como permitir ver beleza em coisas que antes eram invisíveis), o exagero típico da internet tem me incomodado muito e eu tenho deixado até de acompanhar produção de conteúdo que contenham esse tipo de linguagem.

Eu anseio por mais ponderação.  Eu gosto de consumir conteúdo que preze pelo equilíbrio, pela análise de fatos e pela opinião sensata. Não quero mais ter pressa para acompanhar as coisas. Não é preciso emitir uma opinião sobre algo que ainda está se desenrolando. É melhor deixar a poeira baixar e então fazer uma análise e produzir um conteúdo sensato e mais equilibrado.