A gente muda quando se torna mãe?



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Esse post nasceu da conversa com duas amigas que são mais ou menos na minha faixa etária (35-40 anos). Uma delas, a Marrie, tem uma filha de 4 anos. A outra amiga está grávida de 6 meses e é mamãe de primeira viagem. Essa amiga grávida conta que não aguenta mais que as pessoas cheguem até ela e falem “você vai ver como a gente muda quando é mãe, sua vida vai mudar, etc”. Toda mulher que já ficou grávida já ouviu isso e assim como minha amiga, eu também ficava cansada de ouvir sempre a mesma coisa.

Acredito que minha amiga se irrita porque realmente ouvir sempre a mesma coisa é muito cansativo e também porque ela discorda dessa mudança total que alguns sugerem. Ela acredita que não é possível mudar a essência ou aquilo que nos define. Inclusive minha amiga me usou em seu argumento. Como ela me conhece desde antes da maternidade, ela sabe que sempre fui uma pessoa que gosta muito de ler e aprender coisas novas. E eu continuo assim, o que é verdade. Continuo gostando das mesmas coisas e pensando da mesma maneira sobre alguns assuntos fundamentais.

A outra amiga, a Marrie, argumentou que a nossa transformação ao nos tornarmos mães é bastante profunda, tanto que ela escreveu um livro narrando suas experiências.

E o que eu tenho a dizer sobre isso? Eu acho que minhas duas amigas estão certas. A que está grávida tem todo o direito de se irritar com as mesmas frases feitas e clichês das pessoas, porque realmente é cansativo demais te resumirem a uma barriga ou ao “recipiente de uma criança”. E assim como ela, acredito mesmo que há coisas em nossa personalidade que dificilmente mudam. Eu ainda gosto de ficção científica, eu ainda sou uma pessoa que escreve textões longos, ainda falo pelos cotovelos e de maneira pouco linear, ainda gosto de ler e escrever, gosto de fazer cursos, ainda tenho ansiedade social, etc. Essas coisas permanecem, fazem parte da gente. Ok, no caso da ansiedade social eu posso mudar e acho que aos poucos tenho conseguido avanços mas eu posso falar sobre isso em outra oportunidade.

Essa amiga grávida argumenta que há outras experiências na vida que nos fazem mudar. Como ela já tem por volta de 40 anos, ela já viveu muitas coisas que a transformaram ao longo de sua trajetória. Eu fui mãe aos 32 anos e muita coisa tinha acontecido na minha vida até aquele momento. Ser mãe não é a única maneira de se transformar e eu nem acho que todas as mulheres são obrigadas a serem mães, como infelizmente algumas pessoas sugerem. É uma decisão extremamente pessoal e nós mulheres podemos fazer muitas outras coisas e nos realizarmos de muitas outras maneiras também.

Como esse é um blog pessoal, aqui há espaço para minhas opiniões e posso dizer que eu não imagino para mim uma alegria maior que a maternidade. Cansa, muitas vezes é frustrante e não me sobra tempo para quase nada. Porém eu amo ser mãe, para mim é o maior presente que Deus poderia me dar. Ser mãe é algo muito profundo na vida de uma mulher e cada uma lida com isso de maneira diferente. Fato é que eu sinto um amor que não cabe em mim. Parafraseando a Sarah Bergamasco em um texto bem bacana que ela escreveu:

 Ter filhos e cuidar deles me foi e me é necessário, tenho muito amor em mim, não cabia só no meu corpo. Uma das minhas falas favoritas do cinema é do filme Magnólia, dita pelo personagem Donnie Smith, logo após a tempestade de sapos — ”I don’t know where to put things, you know? I really do have love to give! I just don’t know where to put it!”.

Eu descobri onde colocar meu amor. {x}

Foi isso, eu descobri onde colocar meu amor.

A transformação que tive na minha vida após a maternidade foi muito boa, eu aprendi muitas coisas novas, aprendi a gerenciar melhor o meu tempo e aprendi a dar maior importância ao que realmente tem valor.

Agora vocês vão pensar: ué, você não está se contradizendo? Bom, lembra que eu falei que eu concordava com minhas duas amigas? Pois então, acredito que não mudamos em alguns aspectos, porém mudamos em outros aspectos. Vou falar sobre isso.

Pesquisas científicas mostram que o cérebro da gente muda durante a gravidez e essa mudança pode perdurar por alguns anos após o nascimento do bebê.  Essas mudanças no cérebro fazem em geral com que a gente fique mais adaptativa e nos ajudam a resolver problemas. Como vamos inserir novos hábitos em nossa rotina, é provável que esses hábitos permaneçam e as mudanças sejam mesmo eternas. E claro, a gente sente uma imensa responsabilidade e é natural que a gente tome essa responsabilidade toda para nós (é instintivo).

Além disso, esse aumento de responsabilidades que temos logo que o bebê nasce (que tem relação direta com o apego) tem relação com a saúde mental futura da criança. Estudos apontam que crianças que são mais bem cuidadas e mais apegadas na primeira infância adquirem maior resiliência e saúde mental no futuro {x}.

As mudanças nas nossas atitudes muitas vezes tem a ver com auto-preservação. Por exemplo, antes eu gostava muito de “coisas radicais”. A idade e a maternidade me fizeram repensar sobre pular de pára-quedas, por exemplo. Hoje eu perdi a vontade de todas essas atividades e só de pensar naqueles brinquedos mais radicais de parques de diversões já fico assustada. Eu gostava muito de filmes de terror e de histórias assustadoras, hoje não sinto mais vontade de consumir esse tipo de material. Antes eu não pensaria duas vezes e me embrenharia numa área desconhecida de uma cidade onde estou turistando, por exemplo. Já hoje em dia, eu não faria isso.

Apesar desse instinto de auto-preservação, é incrível como muitas vezes negligenciamos nossa própria saúde e bem-estar. É impressionante e bastante contraditório, mas muitas mulheres se neglicenciam porque simplesmente não sobra tempo para cuidarmos de nós mesmas. Por isso uma rede de apoio presente é tão importante.

Concluindo: mudamos algumas coisas, porém não mudamos outras coisas. E esse grau de mudança ou transformação depende da história de cada mulher, por isso minha amiga grávida tem todo o direito de se chatear. A sociedade quer colocar um “padrão” em cima de nós, como se tivéssemos que seguir fielmente o script da maternidade. E não é assim, cada uma tem uma história de vida, cada uma tem sua própria realidade e temos nossas próprias limitações. Tentar seguir um script, seja lá qual for, só vai trazer angústia.

A gestão do tempo

Eu sei, tem um montão de blogs e de profissionais dispostos a te ajudarem a gerenciar melhor o seu tempo. Eu nunca li nada sobre isso especificamente, porém já peguei algumas dicas aqui ou ali, conversando com outras pessoas e lendo textos em geral.

O que eu percebi na minha experiência como mãe é que eu aprendi a gerenciar melhor o meu tempo. E vou falar para vocês que sinto um enorme arrependimento de não ter aproveitado melhor o meu tempo quando eu não era mãe. Eu só reclamava, perdia tempo com pessoas e com situações que nada acrescentavam e eu deixei de dar importância para o que de fato tem valor. Eu poderia ter feito mais cursos, poderia ter sido uma pessoa mais dedicada e menos estressada. Eu poderia ter aproveitado melhor momentos maravilhosos que tive a oportunidade de viver: vida universitária, viagens, vida em família, etc. Só que minha cabeça vivia ocupada com coisas que não tinham a menor importância e com preocupações que não tinham nada a ver! Eu era preocupada com coisas que tinham a probabilidade de nem acontecer, para vocês terem uma ideia.

Gostaria inclusive de destacar um trecho do Evangelho Segundo Mateus (trecho do capítulo 6), em que Jesus diz:

25Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas? 26Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? 27Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar algum tempo à jornada da sua vida? 28E por que andais preocupados quanto ao que vestir? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. 29Eu, contudo, vos asseguro que nem Salomão, em todo o esplendor de sua glória, vestiu-se como um deles. 30Então, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? 31Portanto, não vos preocupeis, dizendo: Que iremos comer? Que iremos beber? Ou ainda: Com que nos vestiremos? 32Pois são os pagãos que tratam de obter tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas. 33Buscai, assim, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. 

34Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará suas próprias preocupações. É suficiente o mal que cada dia traz em si mesmo. 

Eu não tinha ideia do poder dessas palavras de Jesus Cristo. Lendo outras coisas que Jesus disse, entendo que ele não se referia a simplesmente “não se importar”. A mensagem é ainda mais poderosa: o futuro a Deus pertence. Trata-se de fazer a sua parte hoje, de aproveitar o dia de hoje e o amanhã trará suas próprias preocupações.

Ser mãe me fez perceber como eu desperdiçava meu tempo. Quando dizem que tempo é dinheiro eu até discordo! O tempo é mais importante que dinheiro, porque não podemos encontrar outras maneiras de obtê-lo ou recuperá-lo.

Agora que sou mãe, sobra pouco tempo para mim. Quando falo em tempo para mim, falo em tempo para ver minhas séries, viajar sem preocupações, ler livros e fazer cursos. Eu simplesmente preciso fazer tudo de maneira mais eficiente e ajustada para sobrar algum tempo para mim. Ontem mesmo eu tinha expectativa de estudar um pouco antes de dormir, só que eu acabei dormindo enquanto colocava meu filho para dormir. Para participar do TEOLABCAST, precisei contar com a colaboração do Leo e do Cedric e combinamos  a gravação para bem tarde da noite. Meu marido ficou de me acordar uns 15 min antes da gravação, caso eu cochilasse. Eu tinha muita vontade de participar de um podcast e isso só foi possível devido a compreensão e colaboração de outras pessoas.

Outra mudança interessante sobre mim (e que tem a ver com tempo) é que hoje em dia eu não deixo de fazer as coisas e nem me sinto culpada. Ontem por exemplo eu caí no sono, porém não me senti culpada por isso. Eu precisava dormir e me sinto muito mais disposta agora (é bem cedo enquanto escrevo esse texto). Eu também estou frequentando a academia de ginástica e eu não deixei de ir para a academia porque eu me sentia “desesperada e precisava estudar”. Coloquei o exercício físico na minha rotina porque eu sei que isso me obriga a ter um tempo só para mim e é um investimento na minha saúde.

Aprendi que dá para fazer uma gestão do tempo de modo a conseguir fazer todas as coisas que preciso. Priorizo algumas coisas e faço outras coisas de maneira mais “simplificada”, porque não tem jeito, não dá para ser excelente em tudo.

Sendo assim, a maior transformação que senti na minha vida após ser mãe tem a ver com a gestão do tempo. Não pretendo dar workshops sobre o tema, cada um sabe seu caminho. Apenas concluo o texto falando sobre esse assunto porque foi a maior transformação que eu senti.