Não se cobre tanto: a história da mãe que não viu o recado



Cortesia de Pixabay

Muitas vezes, nas redes sociais, compartilhamos apenas as coisas boas que nos acontecem. Quando a gente vê o feed do perfil Instagram de algumas pessoas, pode parecer que ela vive uma vida perfeita, em que sai bonita em todas as fotos e só frequenta lugares incríveis.

No caso das “digital influencers” do mundo materno, muitas vezes elas passam uma imagem de mãe perfeita e transmitem um ideal a ser alcançado, um ponto de referência. Uma amiga uma vez me disse que “a internet é a terra do auto-engano” e recentemente assisti esse vídeo que nos faz pensar exatamente nisso. Um engana o outro que engana o outro que engana o outro, etc. No final, cada um de nós está apenas se auto-enganando.

Eu acho importante compartilhar histórias de dificuldade e de erros. Claro, o compartilhamento de histórias pessoais depende do limite de cada um. Todos nós passamos por situações constrangedoras ou que nos machucaram e que não queremos compartilhar com todo o mundo.

A história que vou contar hoje é sobre como eu não vi um recado da agenda da escola do meu filho. A escola do meu filho usa um aplicativo bem conveniente, porém eu simplesmente não vi uma das mensagens compartilhadas nesse aplicativo. A mensagem realmente passou batida para mim: eu não vi. A mensagem era um recado, pedindo para que mandássemos um material específico para a escola, que seria utilizado em uma atividade.

Eu tenho ataques de ansiedade e pânico quando algo não sai como planejei ou quando me esqueço de algum compromisso. Acredito que com cada um é diferente, mas eu começo a suar muito e sinto uma tontura e uma dor de cabeça instantâneos. É uma sensação horrível a qual luto desde a infância. Lembro uma vez que esqueci um trabalho escolar em casa e que era para ser entregue naquele dia. Eu comecei a passar mal e só me acalmei quando a coordenadora da escola me pressionou para que eu contasse o real motivo de estar passando mal e então ela ligou em minha casa (que era perto da escola) e eu pude falar com minha mãe para trazer o trabalho.  Em outras palavras, acho que me cobro demais. Eu já chorei por ter tirado notas baixas, por exemplo. Enfim, esse assunto é material para diversos outros textos e reflexões.

Evidentemente a ansiedade veio até mim quando percebi que não li o recado e eu deveria ter mandado o material solicitado naquele dia (detalhe que eu só vi o recado de tarde). Na minha mente começou a passar um filme triste, em que todas as crianças puderam fazer aquela atividade, menos meu filho, que se sentiu decepcionado.

Mandei uma mensagem para a professora, pedindo desculpas. Ela me confessou que não realizou a atividade naquele dia porque teve que mudar a programação (teve o aniversário de um coleguinha e outra atividade pedagógica). Disse que realizaria a atividade que exigia aquele material no dia seguinte. Fiquei mais aliviada e meu marido já estava providenciando o material de última hora, porque meu ataque de pânico não me permitia nem pensar adequadamente.

Há profissões em que o grau de empatia dos profissionais é muito grande. É o caso das enfermeiras, por exemplo.  As pedagogas em geral também são muito empáticas, pois a empatia ajuda no aprendizado, uma vez que a ligação afetiva entre professoras e crianças, principalmente nos primeiros anos de ensino, vai ajudar muito no aprendizado e no desenvolvimento do “amor por aprender” no futuro. Acredito que todos nós temos histórias de professoras que amamos e pensamos nelas com carinho e geralmente são professoras dos primeiros anos de ensino.

Essa professora de meu filho, que também é proprietária da escola, é uma dessas pessoas que tem um grau de empatia e carinho que estão acima da média, realmente é algo que encanta. Acho que ela percebeu meu perfil de “pessoa desesperada que sou e que se cobra muito”, até porque pessoas empáticas tem facilidade de “ler” os outros. Ela me deixou uma mensagem tão carinhosa, dizendo que todos nós somos uma grande parceria para o Joaquim.

Pensando bem, não é saudável que uma criança seja criada apenas por uma pessoa. É necessária uma rede de apoio e uma comunidade, o que envolve os avós, amigos de confiança, as tias da escola, etc. Não é saudável para a mãe e nem para a criança, pois acredito que a mãe precisa de uma folga e a criança precisa de outros exemplos positivos. Somos seres humanos, falhos em alguns pontos e com destaque em outros pontos. Conviver com muitas pessoas boas e dignas faz com que as crianças tenham vários exemplos em diversas áreas.

Muitas vezes, as mães ficam sobrecarregadas e têm que dar conta da gestão de um monte de aspectos da vida familiar. Muitas mulheres que conheço narram um cansaço mental, que é até mais impactante que o cansaço físico.

A Marrie Ometto escreveu de maneira muito clara sobre esse cansaço mental nesse post. Vou deixar aqui um trecho do texto dela:

O “penso” de uma casa deve ser dividido entre os integrantes do lar, pois, apesar de nossa sociedade ser pautada no fato do serviço domestico não ter valor, ele é um dos mais exaustivos e estressantes. E tem coisas que dá para operacionalizar, por que não? Como as contas no débito automático. Eu, trabalhando muitas horas por dia por 10 anos no mundo corporativo, nunca na vida trabalhei tanto quanto em casa. Nunca antes senti burn out antes, mas a partir do momento que tomei a casa para mim apenas, percebi ser esse o causador de um cansaço mental fora do comum. E, nós mulheres, temos que ter tempo para nos dedicar aos “pensos” que escolhemos, não àqueles que nos foram impostos. {x}

Aqui quando ela fala no “penso”, é a gestão mental (o texto da íntegra explica melhor). Cansa demais pensar em tudo e muitas vezes o trabalho doméstico e o cuidado com as crianças (globais, incluindo vida escolar) são tidos como “trabalhos menores” e geralmente são realizados pelas mulheres. Fico sempre pensando naquelas peculiares doenças femininas do século XIX, como “vapores femininos” por exemplo. Será que essas “doenças” não eram reflexo da desvalorização do trabalho dessas mulheres? Será que elas não eram reflexo de uma sociedade que não dava ouvidos as mulheres e não permitia a participação na vida pública? Eu tenho um grande palpite de que sim.

Muitas donas de casa hoje em dia tem tanta sobrecarga mental que deixam de lado sua própria saúde e bem estar (veja essa reportagem que fala a respeito disso). São mulheres que fazem tudo pelo marido e pelos filhos e não ouvem nem um muito obrigada e não recebem nenhum tipo de colaboração ou ajuda.

Cuidem da própria saúde e permitam-se serem agradadas. Peça e aceite ajuda, é muito importante. Eu estou em um constante aprendizado para compreender que eu preciso dessa ajuda, ainda mais porque sou uma mãe que trabalha fora e eu preciso evitar ao máximo o peso de uma dupla jornada.

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