Recorde de frio: e o aquecimento global, como fica?



A emissão descontrolada de gases de efeito estufa (sendo o principal deles o CO2) pelas atividades industriais, pela queima de biomassa (queimadas) e pelos veículos estão dentre os principais responsáveis pela mudança climática que estamos enfrentando. Ou seja, a causa é humana! Cortesia de Pixabay.

Aquele seu ‘tio do churrasco’ já deve ter falado que o aquecimento global é uma mentira, porque ‘ontem mesmo estava super frio’.  O que me inspirou a falar sobre isso não foi o tio do churrasco, mas sim um famoso jornalista que deu a seguinte declaração em um tweet recente:

Em primeiro lugar, o jornalista parece ter ignorado que é inverno no Hemisfério Norte e portanto a neve é um fenômeno esperado nas regiões temperadas e/ou de altitude mais elevada.

Além disso, padrões meteorológicos diários ou semanais não nos dizem nada sobre mudanças climáticas de longo tempo. E por padrões meteorológicos diários ou semanais, eu me refiro a uma sequência de alguns dias muito quentes ou de alguns dias muito frios.

Para discutirmos mais sobre a observação absurda do tal jornalista, vamos precisar falar das definições de tempo e clima, vamos precisar falar sobre o que é o inverno e ainda farei mais algumas considerações ao final. Portanto, preparem-se para um post longo.

Eu ainda vou colocar algumas referências bibliográficas muito boas no final. Sendo assim, leiam tudo e compartilhem, por favor!

Definição das palavras tempo (contexto meteorológico) e de clima

O clima é definido como as propriedades “estatísticas” da atmosfera: médias, extremos, frequência de ocorrência, desvios da normal climatológica, etc.

Sempre que falo para os alunos que assistem minhas palestras sobre onde menciono o termo clima, eu tento deixar bem claro para eles que podemos dizer que o clima é uma “média” da atmosfera. Gosto de usar o seguinte exemplo com os alunos: vamos supor que você tenha que explicar o clima de sua cidade para um amigo que mora em um local distante. Esse amigo quer saber qual a época mais chuvosa e qual a época mais fria, porque ele está programando uma viagem para te visitar.

Em uma situação assim, você vai ter que explicar para o seu amigo de maneira qualitativa. Aqui para o exemplo de São Paulo-SP (cidade onde moro, por isso sempre a uso nos exemplos), eu diria que os meses mais chuvosos são Janeiro e Fevereiro, enquanto os meses mais frios seriam junho e julho. Eu poderia usar dados para enriquecer minha explicação, e aqui entrariam as normais climatológicas e os valores extremos (os recordes).

Bom, se você precisa de referências para entender o que é tempo e clima ou para explicar esses conceitos para os alunos, veja esse post.

Eu vou usar outro excelente exemplo, dado pelo meteorologista Marshall Shepperd, que é colunista da Forbes: as roupas que estamos usando hoje não descrevem o que você tem em seu guarda-roupa, mas descrevem o que você está utilizando para as condições meteorológicas de hoje.

Se você mora em um lugar que com inverno rigoroso (digamos Nova York, nos EUA), é bastante provável que você tenha mais casacos em seu guarda-roupa do que um morador do Recife-PE. Uma pessoa que mora em Recife-PE e viaja pouco, talvez nem tenha casacos pesados em seu guarda-roupa. Em outras palavras, o conteúdo de seu guarda-roupa como um todo nos conta um pouco sobre o clima do lugar que você mora. Porém uma única peça desse guarda-roupa (a que você está vestindo, por exemplo) nos conta sobre um instante, sobre as condições meteorológicas (as condições do tempo no exato momento).

Inverno

Eu falei um pouco sobre as estações do ano em um post bem no comecinho de 2018. Falei também sobre o Solstício de Inverno (no Hemisfério Norte, aqui no Hemisfério Sul é Solstício de Verão) nesse post.

As Estações do Ano são um fenômeno astronômico e ocorrem como consequência da inclinação do eixo de rotação da Terra com relação a linha perpendicular ao plano em que o planeta faz o movimento de translação (movimento ao redor do Sol). Nesse post, há ilustrações que ajudam a entender essa inclinação.

Ocorre que devido a essa inclinação, um dos hemisférios acaba sendo mais ‘favorecido’ com relação a radiação solar em uma determinada época do ano. No momento, estamos vivendo o Inverno no Hemisfério Norte e o Verão no Hemisfério Sul. Isso significa que no momento o Hemisfério Sul está recebendo mais radiação solar e está aquecendo mais do que o Hemisfério Norte.

Nevascas são fenômenos esperados em diversas regiões onde o inverno é mais rigoroso (latitudes mais altas ou altitudes mais altas). Quanto mais distante da linha do Equador, mais rigoroso é o inverno porque menos radiação solar aquela região receberá durante o inverno daquele hemisfério.

O jornalista fala de uma nevasca na França, mas foram observadas nevascas no noroeste dos EUA, Canadá, Rússia, etc. Essas nevascas são totalmente esperadas, já que esses lugares estão passando pelo inverno no momento e são locais onde as estações do ano são bem definidas, o que é diferente de boa parte do Brasil.

Ondulações e variações 

O tempo (deixando claro que aqui falo dentro do contexto meteorológico, como em previsão do tempo) é governado por uma série de padrões ondulatórios (ondas) na atmosfera, que vão governar por exemplo o movimento das massas de ar. Agora vou dar uma explicação bastante simplificada de Dinâmica da Atmosfera, então meus colegas meteorologistas mais “puristas” me perdoem! Caso tenham algo a acrescentar ou corrigir, deixem na caixa de comentários, por favor.  Os cavados dessas ondas permitem que o ar frio e denso se movimente e as cristas dessas ondas são normalmente associadas com condições meteorológicas quentes. Há algumas evidências, principalmente para o Hemisfério Norte, de que a mudança climática está amplificando essas ondas e isso pode estar associado com frios mais extremos e eventos mais extremos de calor e seca. Os cientistas tem chamado isso de Arctic Amplification ou Polar Amplification e eu vou deixar alguns links na bibliografia que falam sobre essas evidências e que utilizei como referência para escrever o post.

Vejam só o que aconteceu em 2014, quando o Trump fez um comentário muito semelhante ao do jornalista, porém considerando os EUA. Ou seja, o tal repórter não foi “genial” como alguns de seus admiradores podem pensar, pois ele simplesmente requentou um argumento muito utilizado pelos negadores do aquecimento global.

Em 2014, quando eu escrevi um post a respeito, era inverno e Nova York estava “congelando”, enquanto a Califórnia estava passando por um inverno seco e quente. Essa variação tem a ver com as ondulações que eu mencionei anteriormente: enquanto uma região fica com extremo de frio, outra região pode estar enfrentando o extremo oposto. E parece que o inverno 2017/2018 dos Estados Unidos está muito semelhante ao de 2013/2014.

Veja abaixo um mapa destacado pelo meteorologista Marshall Shepherd em sua coluna:

Temperaturas próximas a superfície em 28 de Dezembro de 2017. Figura gerada pelo Climate Reanalyzer online software tool

Observe o mapa e veja como metade leste dos EUA  está apresentando temperaturas abaixo da média, enquanto a metade oeste está apresentando temperaturas acima da média. A Florida, embora esteja na metade leste, também está apresentando temperaturas ligeiramente acima da média.

O jornalista famoso do início do post está se referindo a Paris e é importante eu deixar isso bem claro, antes que alguém venha até aqui dizer isso ou aquilo sobre meu post e sobre mim (que eu não sei geografia, etc). Sim, isso acontece muito nos posts onde abordo assuntos mais polêmicos, infelizmente o obscurantismo está se espalhando (assunto para outro post). Eu mencionei os EUA porque esse tipo de argumento contrário ao aquecimento global quase sempre sai desse país e usa exemplos desse país.

Usando o Climate Reanalyzer, criei uma figura atualizada mostrando a anomalia de temperatura próximo a superfície (em 2m de altura) para o dia 08/02/2018. Observe como o padrão dos EUA que mencionei nos parágrafos anteriores é o mesmo (comparando com a figura que o Shepherd destacou na coluna dele, para o dia 28/12/2017) e observe como na França há anomalia negativa de temperatura. Ou seja, lá na França as temperaturas estão abaixo da média para a época do ano.

Temperaturas próximas a superfície em 08 de Fevereiro de 2018. Figura gerada pelo Climate Reanalyzer online software tool

Cabe destacar também a quantidade de manchas vermelhas/alaranjadas no mapa, mostrando os locais onde há com anomalia positiva de temperatura (ou seja, temperaturas acima da média). Ou seja, enquanto partes da Europa, Rússia e América do Norte estão sofrendo com o frio, é importante perceber que há outras regiões sofrendo com o calor extremo.  Infelizmente o ser humano só olha para onde lhe interessa e mesmo com a Internet possibilitando que a gente saiba como estão as condições meteorológicas em todo o mundo, tem gente que ainda considera tudo uma pequena e limitada aldeia.

Só que essas regiões “muito quentes” e essas regiões “muito frias” são situações do momento, ainda não nos dizem nada sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global, pois precisamos ver dados de longo prazo para fazer qualquer afirmação a respeito. Os cientistas usam dados de estações climatológicas (que possuem mais de 30 anos de funcionamento ininterrupto) pelo mundo o todo para chegar a essas conclusões, além de dados paleoclimatológicos (fósseis, rochas sedimentares, testemunhos de gelo, etc) para encontrar evidências sobre o clima em um passado bem mais remoto. O artigo da Wikipedia sobre o Aquecimento Global (em inglês) está muito bom, pois possui ótimas referências e eu diria que é um excelente ponto de partida para quem quer aprender mais sobre o assunto.

Muita gente fica “ah, mas é da Wikipédia”, como se isso necessariamente tirasse a importância do serviço. Eu destaco essa  sobre essa questão, deixando claro que o importante é avaliarmos as fontes do artigo da Wikipedia. A pesquisa COMEÇA em uma enciclopédia e não deve se encerrar nela!

Recomendo também esse post do blog e o blog do Prof. Alexandre Costa, que fala apenas sobre Mudança Climática e visa conscientizar as pessoas sobre o assunto.

Observem a afirmação que 16 dos 17 anos mais quentes que se tem notícia ocorreram depois do ano 2000. Uma afirmação como essa só pode ser obtida se analisarmos uma longa série de dados e é totalmente diferente de sair na rua e falar “nossa, que frio está hoje, o aquecimento global é uma fraude”.

Agenda Política

Eu vou ter que descumprir (parcialmente e rapidamente) uma coisa que eu disse há alguns dias, que eu não falaria de política aqui no blog. Vocês vão ter que me perdoar e eu vou ser bem breve. Eu não vou falar desse ou daquele político ou partido, não vou falar de eleições no Brasil e nem nada. Bom, vocês vão entender!

Já falei aqui no blog que aquecimento global não é coisa de esquerda e nem de direita. A mudança climática é um fato científico, com consenso de 97% da comunidade científica de que é antropogênica (causada pelo ser humano).

Observe aqui que há políticos brasileiros copiando a fala do Trump sobre mudança climática. Não porque eles tenham argumentos para justificar essa fala ou porque eles se importem diretamente com o assunto. Eles apenas reproduzem essas coisas para agradar uma parcela de seu eleitorado que já tem essa opinião formada.

Ocorre que algumas pessoas compram “pacotes ideológicos” e só conseguem ler material bibliográfico que se alinhe com seus ideais. Para algumas pessoas com pensamento mais alinhados à direita, aqui no caso do Brasil, influenciadas pela direita norte-americana que é fortemente financiada por empresários do setor petroleiro, o aquecimento global é coisa de esquerdista que não gosta de empresário e não quer o desenvolvimento do país. O mesmo ocorre com alguns religiosos de algumas igrejas cristãs: há uma interessante ligação entre a negacão das mudanças climáticas e fé.

Só que a mudança climática está acontecendo, independente da visão política dos governantes e das pessoas em geral. Precisamos repensar nossa forma de produzir e consumir para ao menos mitigarmos os efeitos da mudança climática. A maioria dos políticos tem utilizado esse fato como moeda de troca e não realmente pensando nos interesses da humanidade como um todo e das futuras gerações. A mudança climática é um desafio para que a humanidade pense em formas melhores e mais eficientes e responsáveis de produção.

Eu tenho a impressão de que pessoas como o jornalista mencionado no início do texto simplesmente compram esse pacote ideológico e então, como crianças birrentas, fazem de tudo para que aquilo que ela acredita seja “verdade”.

Quem me acompanha há algum tempo no blog sabe que eu tenho a seguinte opinião: devemos levar a vida como uma caixa de bombons, ou seja, a metáfora criada pelo Clarion. Acredito que a gente deve pegar uma ideologia e analisá-la ponto a ponto e ver aqueles que são válidos ou relevantes. E para fazer esse julgamento, ter conhecimento e informação são pontos exigidos. Por isso eu faço questão de transmitir aqui parte do que eu aprendi ao longo da graduação, mestrado e experiência profissional e pessoal. Eu gosto de pensar que estou ajudando as pessoas e não dando fórmulas ou respostas prontas para os problemas ou dúvidas.

Ironia do jornalista?

Algumas pessoas sugeriram que o tal jornalista deve ter usado de ironia ao escrever o tweet que abre o post. É uma hipótese, claro. No entanto, pensando no público que em geral acompanha e admira as opiniões desse jornalista, eu me pergunto se os admiradores do jornalista consideram o tweet como uma ironia.

Ok, vocês podem argumentar que ele não é totalmente responsável pela interpretação dos outros a respeito daquilo que ele escreve. Só que no ano passado ele fez essa observação que me faz duvidar de sua ironia:


Será que ele está sendo irônico mesmo ou ele é mais um agente da desinformação sobre a mudança climática? Particularmente eu aposto mais na segunda opção.

Bibliografia

Além dos links mencionados ao longo do texto: