Lembram da seca de 2014? Será que 2018 será semelhante?



Cortesia de Unsplash

Semana passada contei para vocês sobre minha participação na Rádio Cidadã. Um dos assuntos que foram mencionados rapidamente durante minha participação foi a seca em São Paulo-SP. A quantidade de chuva que tivemos no último verão foi abaixo da média (discutiremos a seguir) e pode ser que tenhamos racionamento de água.

ATENÇÃO: O assunto do post é São Paulo-SP, cidade onde moro e onde atuo profissionalmente. Vou falar da seca aqui em São Paulo, porém a segurança hídrica é um assunto que interessa toda humanidade. Procure dados da cidade onde você mora e faça um levantamento. Procure descobrir de onde vem a água que você consome. Cobre por qualidade e por uso racional.

O que tem me espantado é que não estou vendo nenhuma campanha a respeito da importância de se economizar água. A água deve ser utilizada com inteligência o ano todo, pois é um recurso precioso que está em constante ameaça. Esse assunto está ficando cada vez mais urgente, tanto que um dos assuntos tratados no Dia Meteorológico Mundial de 2018 foi a segurança hídrica. Foi ressaltada a importância de sermos water-wise, expressão que a Organização Meteorológica Mundial utilizou para lembrarmos que precisamos usar a água com sabedoria, priorizando o consumo humano e compreendendo que dentro do contexto de mudanças climáticas globais a água poderá ficar escassa em muitas localidades do mundo.

Relembrando do ano de 2014

No ano de 2014 escrevi alguns textos falando sobre a falta d’água. Vocês podem relembrar lendo:

Compreendendo o assunto

É muito importante que compreendamos o regime de precipitação em São Paulo-SP. A estação chuvosa ocorre de setembro a meados de março. Em outras palavras, há uma estação seca bem demarcada entre abril e agosto. Essa é a mais importante característica do clima dessa região, o que significa que é esperado sempre termos esse período de seca.

Sabe aquelas pancadas intensas de chuva? Então, elas são típicas do verão (lembrando que a estação chuvosa compreende parte da primavera e do verão). No inverno não chove o suficiente para realmente abastecer reservatórios, pois são esperados chuviscos (garoas) e chuvas mais leves, com totais acumulados muito menores.

O gráfico a seguir apresenta os totais mensais de precipitação em São Paulo-SP para o ano de 2017 (barras). São dados da Estação Meteorológica do IAG-USP  que foram divulgados no Boletim Climatológico Mensal de Dezembro/2017. No gráfico, vamos observar a linha com triângulos, que corresponde as médias mensais calculadas entre 1933-2017.  Observe que essa linha no gráfico apresenta um formato de U: ou seja, temos mais chuva nos primeiros e últimos meses do ano, porém nos meses do meio do ano, temos menores valores para as médias. Observe também no gráfico como o mês de dezembro/2017 foi seco (ficou abaixo da média). Os meses de janeiro/2018 e fevereiro/2018, embora não apareçam no gráfico, também tiveram chuva abaixo da média (veja aqui e aqui). Inclusive fevereiro/2018 foi o mês de fevereiro mais seco desde 1984.

Conhecer o clima de uma localidade é o resultado de um esforço que exige observações meteorológicas sistemáticas ao longo de pelo menos 30 anos (de acordo com a Organização Meteorológica Mundial). A Estação Meteorológica do IAG-USP, que forneceu os dados para o gráfico mencionado anteriormente, tem mais de 80 anos de funcionamento. Com isso, quero dizer que esse conhecimento sobre estação seca e estação chuvosa bem demarcadas não é nenhuma novidade e os tomadores de decisão já deveriam saber disso. Tendo esse conhecimento em mãos, boa parte do planejamento da cidade de São Paulo-SP deveria ser feito baseado nele. Dois exemplos de como o conhecimento sobre o clima da cidade deveria auxiliar nesse planejamento planejamento:

  • Obras de pavimentação e limpeza de bocas de lobo deveriam ser feitas nos meses secos.
  • Outras obras em geral como recuperação da fachada de edifícios históricos e de monumentos ao ar livre também deveriam ser feitas nos meses secos.

Qualquer gestor de obras ou trabalhos ao ar livre pode se beneficiar do conhecimento sobre o clima de uma cidade. Gestores também podem se beneficiar de informações sobre o tempo (condições meteorológicas), consultando sempre a previsão do tempo e pensando em planos de contingência. Se você ainda não conhece a diferença entre as palavras tempo e clima, leia esse post.

Portanto, o ideal seria que o poder público investisse em um sistema de reservatórios de qualidade que pudesse suprir as necessidades no período de seca. Campanhas para alertar a população sobre o uso racional da água e até a aplicação de multas para quem usasse água de maneira irresponsável são exemplos de medidas que poderiam ser aplicadas para educar e conscientizar a população.

Mas e se não chover o suficiente na estação chuvosa?

Uma das consequências das mudanças climáticas é o aumento na quantidade de eventos extremos. Um exemplo desse aumento é o que tem sido observado na série de precipitação da Estação Meteorológica do IAG-USP. O gráfico abaixo, que corresponde ao total de precipitação anual de 1933 até 2017, mostra que temos flutuações. Em outras palavras, há anos mais chuvosos e há anos mais secos. Esses desvios com relação à média são absolutamente esperados e tem a ver com fenômenos de maior, como o El Niño, por exemplo.

O que ocorre é que as mudanças climáticas podem estar aumentando os extremos. Observe nos últimos anos no gráfico abaixo, como a flutuação está maior: há anos bem secos seguidos por anos bem chuvosos. Temos portanto um obstáculo adicional no planejamento urbano, já que um verão seco pode prejudicar todo o abastecimento de água da cidade.

Para fins climatológicos, costumamos considerar o verão como o trimestre dezembro, janeiro e fevereiro (DJF). Os verões mais secos desde 1933, na Estação Meteorológica do IAG-USP, foram:

  • 1° DJF 1940/1941: 345,7 mm
  • 2° DJF 2013/2014: 352,5 mm (foi a última seca mais intensa, que destaquei em vários posts no passado, como esse)
  • 3° DJF 2017/2018: 356,0 mm (o verão mais recente)

O último verão (DJF 2017/2018) foi portanto o terceiro mais seco desde 1933. É uma razão para se preocupar, porque foi quase tão seco quanto DJF 2013/2014, quando tivemos todos aqueles problemas de falta d’água(leia aqui).

E preciso deixar muito claro (mais uma vez) que me refiro a São Paulo-SP e em dados observados na Estação Meteorológica do IAG-USP.

A média de precipitação para o trimestre DJF (calculada entre 1933-2016) é 629,9mm. Ou seja, em DJF 2017/2018 choveu apenas 356,0 mm,  que é apenas 56% da média.  E não pense que essa informação está sendo ocultada. Isso foi destacado na seção de notícias do portal do IAG-USP e já está sendo destacado em alguns portais de notícias (como no G1, por exemplo). Estamos em ano de eleições e há um certo partido político que não tem interesse nessa divulgação e muito menos em propor um plano de racionamento d’água. Sendo assim, precisamos ficar de olho e fazer a nossa parte, usando a água de maneira responsável.

Se você é um dos professores que usam o conteúdo do meu blog para preparar suas aulas, não esqueça de falar sobre o uso responsável da água com seus alunos. Eu acredito muito nesse trabalho junto às crianças, acredito que elas podem levar bons hábitos para seus pais.

Na semana passada a cidade de Brasília hospedou o 8º Fórum Mundial da Água, para discutir a importância desse recurso. O assunto está em alta, sei que tem muitos professores de ciências e de geografia que mencionaram ou estão mencionando esse evento em suas aulas. Aproveitem para tratar da conscientização.

Provavelmente vocês se lembram que em 2014 o volume morto do Sistema Cantareira precisou ser utilizado. A preocupação de que em 2018 passemos pela mesma coisa não é infundada, uma vez que tivemos pouca chuva na estação chuvosa também. Sendo assim, já é melhor economizar. E também já é melhor pensarmos bem em quais políticos votaremos, pois precisamos votar em pessoas que saibam o que é segurança hídrica e tomem decisões eficazes para melhorar a vida das pessoas.

Verões chuvosos

Como muita gente tem curiosidade sobre recordes, separei também os verões mais chuvosos em São Paulo-SP de acordo com dados da Estação Meteorológica do IAG-USP:

  • 1° DJF 2009/2010: 1255,8 mm
  • 2° DJF 2010/2011: 1074,5 mm
  • 3° DJF 1994/1995: 994,0mm

Inclusive em DJF 2009/2010 foi tanta chuva que as comportas do Sistema Cantareira (que é o que abastece mais pessoas na RMSP) precisaram ser abertas. A imagem abaixo mostra dados do site da SABESP para 28 de fevereiro de 2010, quando o Sistema Cantareira tinha índice de armazenamento de 94%.

 

E se a gente levar em conta o mês anterior a fevereiro/2010, janeiro/2010 (que foi bastante chuvoso), ficamos ainda mais espantados com o índice de armazenamento de 99,5%:

Desde então não me recordo de nenhuma ocasião em que o Sistema Cantareira estivesse tão cheio assim.  Certamente seria bom se houvessem investimentos na construção de novos reservatórios e modernização dos já existentes, pois isso permitiria que esse excedente de água fosse armazenado. Além disso, investir em um bom sistema de transporte d’água também é importante, já que vemos muitos vazamentos nas ruas, pois muita água é perdida no transporte dos reservatórios até os locais de consumo.

Como a situação está agora?

Eu coletei informações do site da SABESP hoje dia 27/03/2018 e observei que de todos os sistemas de armazenamento, o Sistema Cantareira é o que está com índice de armazenamento mais baixo (54,2%).

Abaixo, o resultado da minha consulta no site da SABESP (em 27/03/2018):

O Sistema Cantareira é o mais mencionado porque é o que abastece uma maior quantidade de pessoas em São Paulo. Quando falamos em racionamento, os olhos ficam mais voltados para o Sistema Cantareira, o que não significa que os outros não sejam importantes. Para saber de onde vem a água que abastece sua casa (moradores de São Paulo), clique aqui.

O mês de março está sendo bom em São Paulo-SP em termos de precipitação e provavelmente fechará dentro da média ou um pouco acima. Isso é bom, mas não quer dizer que o racionamento é um problema distante. Para concluir esse post de maneira um pouco mais otimista, vou colocar a situação dos reservatórios em 27 de março de 2014:

Ou seja, a situação em março/2018 não está tão ruim se compararmos com março/2014, ano da última grande seca que foi bem mencionado ao longo do texto. No entanto, precisamos mostrar que aprendemos alguma coisa com essa última grande seca de 2014. E uma dessas coisas é economizar. Não adianta, eu acho que as pessoas só entendem que devem economizar se uma campanha intensa for feita nos meios de comunicação e se houver instrumentos para punir quem não economiza.

Dica de livro

O Meteorópole é afiliado da Oficina de Textos, uma editora séria que reconhecidamente conta com livros de qualidade e em português dentro de diversas áreas do conhecimento. Um livro super recomendado para quem está iniciando seus estudos em Meteorologia é Meteorologia: noções básicas, que conta com um time de autores excelentes (Rita Yuri Ynoue, Michelle S. Reboita, Tércio Ambrizzi, Gyrlene A. M. da Silva), todos professores de cursos de Meteorologia de diversas regiões do Brasil.

Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}

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Outro título que tem relação com o assunto desse post é Em busca d’águade autoria de Brian Richter, especialista na área de gestão de recursos hídricos (veja bibliografia a seguir). De acordo com a descrição fornecida pela editora:

No livro Em busca da água, o líder global em ciência e conservação fluvial Brian Richter oferece informações e metodologias para que qualquer pessoa possa compreender as dinâmicas de abastecimento hídrico de sua região e contribuir para uma gestão sustentável deste recurso fundamental para a vida.

Richter compara o balanço hídrico a uma conta bancária, transpondo as dinâmicas de consumo e reabastecimento de rios e aquíferos para um vocabulário de fácil compreensão. A partir dessa avaliação de contexto, ele aponta caminhos para prevenir e combater uma crise hídrica: dessalinização, reúso, importação de água de outras fontes, armazenamento e conservação são algumas das “ferramentas” discutidas no livro. O autor também aborda a gestão hídrica, a divisão de responsabilidade entre diferentes setores sociais e comenta experiências de governança popular ou compartilhada.

Rico em exemplos baseados nas experiências pessoais e profissionais de Richter, Em busca da água une conteúdo consistente e acurado a uma leitura cativante para gestores públicos, engenheiros sanitaristas, profissionais de recursos hídricos em empresas ou indústrias, pesquisadores, ativistas e membros de grupos comunitários de preservação da água.

Brian Richter é um líder global em ciência e conservação fluviais há mais de 25 anos. É diretor de Estratégias Globais de Água Doce da entidade internacional de conservação The Nature Conservancy, em que promove o uso e a gestão sustentáveis da água junto a governos, empresas e comunidades. Brian assessorou mais de 120 projetos hídricos no mundo inteiro. É assessor hídrico das Nações Unidas e de grandes empresas e bancos de investimentos; em várias ocasiões deu depoimentos ao Congresso americano. Também é professor de Sustentabilidade Hídrica na Universidade de Virgínia. Brian desenvolveu numerosas ferramentas e métodos científicos para dar apoio ao esforço de proteção e restauração de rios, como o software Indicators of Hydrologic Alteration, usado por cientistas e administradores hídricos do mundo inteiro. Participou da série Horizon, da BBC, com David Attenborough, no episódio intitulado How many people can live on planet Earth? (Quantas pessoas podem viver no planeta Terra?). Publicou muitos artigos científicos sobre a importância da gestão hídrica ecologicamente sustentável em revistas científicas internacionais e, com Sandra Postel, escreveu também o livro Rivers for Life: managing water for people and nature (Island Press, 2003). {x}

Ou seja, outro título recomendado e escrito por um especialista na área. Se você está estudando recursos hídricos, é sem dúvidas o livro que você precisa em sua biblioteca particular. Ele pode ser comprado aqui. Lembre-se que cada compra a partir do blog gera uma comissão que ajuda a manter o Meteorópole. Todos saem ganhando!