Leo Mattersdorf: astrônomo amador e contador de Albert Einstein



Há uns 3 anos recebi um presente incrível: recebi alguns livros que pertenciam à biblioteca particular de um professor de mais de 90 anos. Esse professor é físico e atuou em pesquisas nas áreas de Astronomia e Meteorologia. As obras que recebi consistem em livros didáticos das áreas de atuação do professor, mas também recebi alguns pocket books de divulgação científica da década de 1950.

Eu simplesmente adoro o formato pocket book, principalmente quando impresso naquele papel bem barato. Esse formato e esse material ajudou a baratear o custo dos livros e consequentemente ajudou na popularização do acesso à leitura, por isso tenho um enorme apreço por esse formato. Além disso, tem um tamanho ótimo, que cabe em qualquer bolso de casaco (por isso pocket book – livro de bolso) ou bolsa pequena.

Gosto de ler livros de divulgação científica antigos porque gosto de ver como a humanidade adquiriu conhecimento ao longo dos anos. Ler um livro de 60 anos atrás, por exemplo (como é o caso do livro que discutirei a seguir), ajuda a perceber o quanto aprendemos em apenas 60 anos. O século XX foi incrível, acredito que nunca a humanidade descobriu tanta coisa em tão pouco tempo. Ler um livro de divulgação científica de meados do século passado é algo que pessoalmente traz muita esperança.

Um dos livros que recebi foi A Key to the Heavens: insignt into Astronomy, de autoria de Leo Mattersdorf. O livro é de 1956 e é um ótimo guia para quem quer começar a praticar astronomia amadora. É um livro pequeno, no formato pocket, que pode ser utilizado como guia de campo (enquanto o astrônomo está montando seu equipamento em um lugar remoto para observar). Os capítulos mais gerais do livro, onde ele discute por exemplo as fases da Lua, distâncias no Universo, planetas do Sistema Solar (com Plutão no conjunto, claro), dentre outros assuntos, são muito bons e atendem os moradores do Hemisfério Sul e do Hemisfério Norte. Há um capítulo muito bom em que ele fala sobre o nosso calendário, contando de maneira bem didática toda a história dos dias da semana e a origem do calendário que utilizamos atualmente.

No entanto, quando o autor entra na parte prática de astronomia amadora, o livro fica bem direcionado para o Hemisfério Norte (Mattersdorf nasceu e viveu na região do Estado de Nova York). Como sei que tenho leitores de Portugal, eu diria que se por algum acaso um desses meus leitores encontrar esse livro em uma loja de livros usados, vale a pena adquirir, pois certamente pagará pouco por ele e acrescentará muito nas atividades de astronomia amadora.

Mattersdorf seria apenas mais um astrônomo amador, daqueles que muito contribuem para o desenvolvimento da Astronomia e para a popularização dessa área do conhecimento. Outro nome importante na astronomia amadora foi Sir Patrick Moore, que sempre menciono aqui no blog.

Mas o que chama a atenção na história de Mattersdorf é que ele tinha um amigo muito famoso: Albert Einstein. Mattersdorf foi um renomado contador, foi secretário da National Tax Association e foi diretor da American Institute of Certified Public Accountants {x}. Ele cuidava da contabilidade de Einstein e logo tornou-se amigo pessoal do cientista. Einstein leu e revisou A Key to the Heavens: insignt into Astronomy. Em outras palavras, o livro foi proofread por Einstein, o que lhe dá um enorme peso.

Embora Einstein tenha se tornado um cientista famoso por sua atuação no campo da física teórica, ele também fazia observações astronômicas. Inclusive ele deu seu telescópio de presente para Mattersdorf, telescópio esse que esteve em um leilão recentemente e provavelmente é o único instrumento científico que se tem certeza que pertenceu a Einstein. Einstein chamava o Imposto de Renda de The Great Dragon e desde que se mudara para os Estados Unidos, contava com o trabalho de Mattersdorf para ajudar a manter sua situação fiscal organizada.

Há inclusive todo um folclore popular, no qual Einstein teria dito que a coisa mais difícil do mundo é fazer o imposto de renda {x}. Bom, deve ter sido por isso que Mattersdorf  se tornou contador e amigo pessoal de Einstein.

One year while I was at his Princeton home preparing his return, Mrs. Einstein, who was then still living, asked me to stay for lunch. During the course of the meal, the professor turned to me and with his inimitable chuckle said: “The hardest thing in the world to understand is income taxes.” I replied: “There is one thing more difficult, and that is your theory of relativity.” “Oh, no,” he replied, ”that is easy.” To which Mrs. Einstein commented, “Yes, for you.”

LEO MATTERSDORF New York City {x}

De qualquer maneira, o fato de A Key to the Heavens: insignt into Astronomy ter sido revisado por Einsten dá sem dúvida uma enorme credibilidade ao livro. Muita gente associa Einstein com “tema difícil de entender” ou “coisa de gênio”, mas o livro de Mattersdorf  pode ser apreciado por qualquer pessoa que goste de astronomia amadora e esteja começando seus estudos nessa área. A leitura é muito fácil e agradável, como se você estivesse conversando com um amigo que pratica astronomia amadora e está te dando algumas dicas sobre como começar.

Leo Mattersdorf também participou da Amateur Astronomers Association in New York e seu livro foi muito bem recebido quado foi publicado. Claro que o livro dele não era nenhuma “novidade”, digamos assim, já que livros no estilo teach yourself eram muito populares na época. Para os leitores bem jovens do meu blog e que estão acostumados com a internet desde crianças, talvez isso não faça sentido. Mas imagine uma época em que não existia internet para você aprender e desenvolver um hobby. As associações de praticantes do mesmo hobby e os livros eram importantes aliados para se informar e se aperfeiçoar em sua atividade favorita.

Algo que chamou muito minha atenção em A Key to the Heavens: insignt into Astronomy foi a maneira com que Mattersdorf se refere à sua filha adolescente, Stephanie. A menina compartilhava do hobby do pai e deu dicas durante a elaboração do livro. Ela sugeriu que o pai colocasse a pronúncia dos nomes das constelações e estrelas entre parênteses. Muitos nomes são de origem grega ou latina e muitos norte-americanos tem dificuldades em pronunciar. Achei tão bonito o pai levar a sugestão da menina em consideração. Em uma passagem especial no livro, Mattersdorf conta que Stephanie corrigiu sua professora durante uma aula, que mencionou uma informação incorreta sobre a estrela polar. Estamos falando da década de 1950 e saber que um pai incentivava sua filha a gostar de ciência é inspirador!

Fui pesquisar sobre Stephanie e descobri que ela se especializou na área de saúde mental. Ela é creditada como Stephanie Miller ou Stephanie Asker, acredito que a mudança de nome deve-se a um segundo casamento. Parte de seu acervo pessoal de fotografias e vídeos foi digitalizado, e há imagens de Einstein com seu pai, Mattersdorf.

Einstein e Mattersdorf.

Stephanie hoje é uma senhora de mais de 80 anos e não encontrei mais informações sobre sua atuação profissional, certamente já é aposentada. Eu fico aqui imaginando o impacto dessa relação próxima com o pai e o impacto desse interesse em Astronomia durante a adolescência. Será que ela continuou praticando astronomia amadora? Eu adoraria saber mais sobre isso.

Mattersdorf faleceu em 1985 {x} e sem dúvida é mais um desses nomes da ciência cidadã (citzen science) que muitas vezes são esquecidos, mas que certamente foram muito importantes na divulgação do conhecimento.